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Alberto Ferreira da Costa virou referência na negociação com fornecedores para entregar preço aos clientes

Empresário português foi responsável pelo salto de qualidade que o setor imobiliário de alta renda registrou no Recife nos últimos 20 anos

Por Fernando Castilho Publicado em 20/10/2024 às 13:10 | Atualizado em 20/10/2024 às 20:07

Uma das coisas mais marcantes de seu Alberto Ferreira da Costa, que nos deixou neste domingo (20), era sua preocupação com o ato de comprar e vender a partir do custo.

Essa era uma marca pessoal. Primeiro, saber o custo, depois formar o seu preço de venda. E essa lição ele trouxe ao Brasil quando pegou o comboio na estação de Campanhã, no Porto, e se bandeou para o Brasil, aportando no Recife.

Como todos os patrícios que vieram para Pernambuco, ele também veio das províncias da região do Porto e aqui firmou, com seus irmãos, o negócio de fazer edifícios. Com especial atenção pelos terrenos à beira-mar.

Seu Alberto, junto com seus filhos, irmãos e primos, foi responsável pelo salto de qualidade que o setor imobiliário de alta renda registrou no Recife nos últimos 20 anos, e que hoje forma o preço médio no Nordeste. E isso em função do custo de sua empresa.

Certa vez, convidou jornalistas do Jornal do Commercio para falar da empresa que, mais uma vez, estava arrebentando, ganhando todos os prêmios do Troféu Ademi-PE, e nos proporcionou uma das melhores lições do que é saber comprar sabendo como se forma preço.

Ô menino, tens Cartuxa?

Foi assim: Ele abriu a carta de vinhos do Porto Ferreiro, na Rui Barbosa, e perguntou: "Tens Cartuxa?", indicando que desejava tomar uma garrafa do belo vinho da Fundação Eugênio Almeida. Mas se espantou com o preço da mesa.

- Ô menino, chama aquele rapaz, o mestre?, pediu.

- Diga, seu Alberto.

- Ô menino, esse preço do Cartuxa está errado. Não é esse!

- É, seu Alberto. O senhor sabe, a taxa de importação de 60%...

- Não, meu filho. Estás colocando uma margem absurda. Desse jeito, vais ficar com o estoque por uma eternidade.

- Mas seu Alberto...

- Não vou pagar. Isso é um absurdo!, enquanto seus filhos com os jornalistas se divertiam com o embate.

No final, ganhou um desconto, e passamos a cuidar do cardápio.

Esse era o padrão do Seu Alberto, que se repetia na Construtora Rio Ave e, mais ainda, no cuidado com as contas do Real Hospital Português, que cuidava com o mesmo zelo. Ele descia aos detalhes.

Mas ele também sabia ver para onde o mercado estava indo.

É conhecida a história de, ao voltar de uma visita às casas do projeto Reserva do Paiva, pediu ao seus filhos para parar depois do pedágio.

O que tem antes do Paiva?

Parou, olhou, andou pelo lugar onde só havia a estrada de acesso ao pedágio, e disse: "Acho que aqui tem possibilidades".

Tinha. Todo mundo sabe o que aconteceu com os terrenos próximos à Reserva do Paiva depois que a Rio Ave comprou os primeiros lotes. Certo, a região só não explodiu mais porque veio a crise da Lava Jato.

Mas o olhar sagaz de Seu Alberto tinha visto o potencial que ninguém tinha visto, de modo que mais uma dezenas de projetos foram anunciados na região em menos de um ano.

Ele também sabia entender quando as coisas estavam mudando no setor da construção civil. Ele percebeu que quando outras construtoras com melhor tecnologia entraram no nicho AAA, sua companhia precisava se modernizar rapidamente.

Alberto Ferreira da Costa, seus filhos (e os primos da Vale do Ave) forçaram uma mudança de patamar tecnológico para cima em Pernambuco, um mercado que é conhecido regionalmente por ser difícil e exigente. E que raramente aceita projetos mais arrojados.

Sua empresa decidiu fazer o upgrade por dentro, sofisticando o interior sem buscar fazer prédios icônicos embora mais recentemente tenha produtos mais arrojados.

Preço voltado para dentro

Na verdade, costuma-se dizer que, no mercado do Recife, os portugueses aprenderam a fazer prédios que suportam preços por metro quadrado maiores pelo que passaram a entregar da porta para dentro e pela certeza de que o apartamento vai ser entregue na data do contrato.

Esse talvez seja o legado do velho Alberto Ferreira da Costa, que era um negociador duríssimo com os gestores de planos de saúde quando também adotava o mesmo padrão, mas que entregava. E ele exigia isso de seus filhos. 

Claro que ao longo do tempo, sua empresa adotou padrões avançados de governança, assim como ele os também levou para o RHP, que é uma referência pelas entregas no Polo Médico. Mas talvez a melhor lição que ele deixa é a arte de negociar preço a partir do que conhece como ele é formado.

O que fazia até mesmo na hora que escolhia um bom vinho num restaurante. Às vezes, por pura diversão. Apenas para obrigar o maître a justificar o que lhe cobrava.

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