Entender os sinais de TDAH pode mudar trajetória escolar e evitar estigmas, alertam especialistas

É preciso compreender o TDAH sob uma perspectiva científica e dimensional, onde os impactos vão além da dificuldade de concentração em sala de aula

Por Mirella Araújo Publicado em 02/09/2026 às 15:39 | Atualizado em 02/09/2026 às 16:13

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Dificuldade de concentração, impulsividade, inquietação e problemas de organização podem afetar diretamente o desempenho escolar, o convívio social e a autoestima de crianças e adolescentes com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

A desconstrução de rótulos, os efeitos da identificação precoce e o papel dos educadores na percepção de comportamentos que podem indicar a necessidade de avaliação especializada estiveram entre os temas discutidos durante o lançamento da plataforma “TDAH Levado a Sério na Escola”, realizado nessa terça-feira (1º), no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

O novo projeto da Aspen conta com o aval científico do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e o apoio institucional da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Especialistas alertam para a necessidade de compreender o TDAH sob uma perspectiva científica, dimensional e sistêmica, destacando que os impactos do transtorno vão muito além da simples dificuldade de concentração em sala de aula.

Natureza dimensional do TDAH e cuidados do autodiagnóstico

O psiquiatra, pesquisador do IDOR e diretor clínico do Centro de Neuropsicologia Aplicada (CNA), Dr. Paulo Mattos, explicou que uma das principais chaves para compreender o TDAH é entender que ele não se comporta como doenças categóricas, nas quais o paciente “tem ou não tem” determinada condição.

“Todo mundo tem açúcar, varia na população. Uns têm mais, outros têm menos. Quando passa de um certo ponto, eu chamo de diabetes, mas isso é uma abstração matemática. O TDAH não é uma categoria”, afirmou o pesquisador.

Por essa natureza dimensional, segundo o dr. Paulo Mattos, muitas pessoas acabam se identificando com conteúdos sobre o tema na internet, o que tem contribuído para um fenômeno de autodiagnóstico irresponsável. Como os sintomas são distribuídos em uma curva populacional, é natural que qualquer indivíduo apresente, em algum nível, queixas de desatenção ou agitação.

O diagnóstico clínico, portanto, baseia-se na intensidade, na frequência e no prejuízo que esses sintomas causam no dia a dia.

“É claro que, quando a pessoa chega a um consultório, a um ambulatório, o que a mãe ou o pai quer saber é assim: ‘Não, mas o meu filho tem ou não tem?’. Como se fosse uma categoria. Na verdade, a avaliação desse diagnóstico é o quanto de sintomas ele tem”, disse.

“Por isso que, como foi mencionado, existe uma banalização do autodiagnóstico. Por quê? Porque, se eu vejo um vídeo no Instagram, no YouTube, sobre alguém que pretensamente tem TDAH e eu não me identifico com nada, é estranho. Na verdade, o que deve acontecer é você se identificar, porque, se é uma coisa dimensional, não é uma categoria. Ou seja, todo mundo tem algum sintoma”, completou.

A desatenção, a hiperatividade e a impulsividade são descritas pelos cientistas como apenas a "ponta do iceberg" do TDAH. Por trás desses comportamentos visíveis, há um comprometimento profundo das chamadas funções executivas, que coordenam a capacidade do cérebro de planejar e executar ações. Entre os aspectos afetados estão a velocidade de processamento de informações, o controle inibitório e até a percepção de tempo 

"É como se fosse assim o maestro da orquestra. Em função executiva, eu falo iniciar, quer dizer, eu tenho a intenção de fazer alguma coisa, mas eu tenho que sair daquela inércia e começar. Eu tenho que manter o meu esforço durante o tempo, tenho que perceber erros, tenho que mudar as regras e, finalmente, finalizar e revisar", esclareceu. 

 

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Paulo Mattos, psiquiatra e pesquisador do IDOR - Junior Rosa

E qual o papel da escola nesse processo?

É no ambiente escolar, onde crianças e adolescentes passam boa parte do tempo desenvolvendo diferentes habilidades, que alguns sintomas podem se tornar mais evidentes. Por isso, investir em formação para professores e demais profissionais da educação é importante para que eles consigam observar os diferentes ritmos e formas de aprendizagem e identificar comportamentos que possam indicar a necessidade de uma avaliação especializada.

Isso não significa, porém, que professores ou a escola sejam responsáveis pelo diagnóstico.

“O TDAH envolve diferentes níveis de intensidade e formas de manifestação, o que exige uma avaliação clínica cuidadosa e individualizada. Muitas vezes, sinais importantes acabam sendo confundidos com outras questões comportamentais, emocionais ou dificuldades pontuais da rotina escolar. Por isso, a identificação correta é fundamental para direcionar o acompanhamento adequado e evitar prejuízos ao longo do desenvolvimento”, disse o psiquiatra Paulo Mattos.

A educadora brasileira Débora Garofalo, eleita professora mais influente do mundo pelo prêmio Global Teacher Influencer of the Year, da Varkey Foundation, em Dubai, reforçou que, em vez de começar pelos rótulos sobre o motivo de determinado estudante não estar aprendendo, é preciso mudar o foco da educação.

“Precisamos olhar para essa criança e ver que ela aprende de forma diferenciada. Nós, professores, não vamos diagnosticar, mas muitas vezes vamos perceber que aquela criança não está tão concentrada, está desviando a atenção durante uma atividade, está mais ansiosa que o normal. E isso é um ponto importante para acionar a gestão escolar e, principalmente, a família”, afirmou Débora, destacando ainda que, a partir dessa identificação, é possível estabelecer uma relação intersetorial com a saúde para  chegar ao diagnóstico de forma mais precisa. 

Além das barreiras pedagógicas, os impactos do TDAH também se estendem às relações sociais.

"Infelizmente, o bullying e o cyberbullying marcam essa etapa da criança, e isso tudo influencia no processo de ensino e aprendizagem. Por isso, a escola tem que estar apta a entender que temos 40 pessoas com ritmos e necessidades diferenciados e que, muitas vezes, precisam de autorregulação"
Débora Garofalo

Estudos de acompanhamento de longo prazo apontam que estudantes com o transtorno podem apresentar de forma geral, notas mais baixas, avançam menos nas disciplinas, faltam mais às aulas e tem um risco elevado de abandonarem a escola.

 

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Apsen lança iniciativa nacional para formação de educadores sobre TDAH no ambiente escolar - Junior Rosa

Saúde dos adolescentes precisa de atenção

Estima-se que o TDAH afete cerca de 5% das crianças e adolescentes em idade escolar no mundo. É o transtorno do neurodesenvolvimento mais comum nessa faixa etária e pode gerar impactos significativos no funcionamento escolar, acadêmico e familiar.

A hebiatra e professora da Faculdade de Medicina do ABC, Lígia de Fátima Reato, destacou que, antes de tudo, é preciso compreender a situação da saúde mental dos adolescentes. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2021, um em cada sete jovens de 10 a 19 anos apresenta algum problema ou transtorno mental. Entre os fatores de risco estão as condições de vida, o estigma, a discriminação, a exclusão e a falta de acesso e apoio a serviços de qualidade.

“Então, nós sabemos que a adolescência, em si, não é um problema de comportamento, ela é uma etapa de desenvolvimento. E, nessa etapa de desenvolvimento, o que eu espero? Busca de autonomia, a importância do grupo de iguais, as flutuações emocionais, as flutuações de humor, que são comuns nesse grupo, o questionamento de regras e valores, uma maior preocupação com identidade e pertencimento”, explicou.

Segundo a pediatra, alguns sinais, no entanto, exigem atenção. “E o que eu tenho que me preocupar? Quando eu tenho uma queda persistente do funcionamento. Basicamente isso: uma mudança de comportamento que é abrupta e persistente, um isolamento, perda de interesse, queda escolar e dificuldade persistente de autorregulação”, alertou.

O diagnóstico precoce, segundo Lígia, é fundamental para evitar impactos no desenvolvimento. “O diagnóstico precoce é muito diferente de rotular. Ele visa compreender, intervir e acompanhar", disse. 

A pediatra reforça ainda que apoiar o estudante com TDAH na escola não significa reduzir exigências ou facilitar as atividades. “Apoiar significa, fundamentalmente, criar as condições pedagógicas e emocionais adequadas para que o estudante consiga transpor suas barreiras biológicas, demonstrar o seu real conhecimento e desenvolver plenamente as suas potencialidades intelectuais e sociais", afirmou. 

Plataforma online e gratuita

A trilha gratuita e on-line “TDAH Levado a Sério na Escola” é uma formação que capacita educadores a reconhecer sinais do transtorno, identificar possíveis comorbidades e aplicar estratégias pedagógicas baseadas em evidências, sem rotular ou estigmatizar os estudantes.

Criado em 2024, o projeto já alcançou mais de 1.000 educadores de 220 escolas públicas e particulares. Os participantes recebem certificado do IDOR, e as instituições que envolverem ao menos 50% do corpo docente na formação ganham o selo “Esta escola leva o TDAH a sério”. O projeto pode ser acessado pelo site https://www.tdahlevadoaserio.com.br/.

 "Estamos falando de crianças, adolescentes, adultos e famílias que convivem diariamente com os impactos do transtorno. E apesar disso, o TDAH ainda é cercado por muitos rótulos, ainda ouvimos que é falta de disciplina, preguiça, falta de interesse ou até uma certa banalização do diagnóstico, principalmente nas redes sociais", afirmou Renata Spallicci, vice-presidente executiva da Apsen Farmacêutica destacando que o projeto vai muito além da formação, atuando como movimento que busca ampliar o acesso à informação de qualidade baseado na ciência. 

 

A apresentadora Sabrina Sato, que é embaixadora do movimento, foi diagnosticada com TDAH ainda na adolescência. Durante o evento, ela relatou as dificuldades que enfrentou até entender o que os sintomas significavam e rótulos recebidos ao longo de sua vida como sendo uma pessoa “esquecida”, “desleixada”, "atrapalhada", entre outros estigmas atribuídos a pessoas com o transtorno.

À coluna Enem e Educação, Sabrina afirmou que é importante aproveitar o momento atual, de maior acesso a informações e discussões sobre o tema.

“A gente, buscando informação, tem que buscar o tratamento, o melhor tratamento pra gente, e buscar também, através do autoconhecimento, porque cada indivíduo é um, né? E é muito importante a gente se cuidar porque o TDAH acaba tendo um problema, às vezes, até de autoestima, né?”, afirmou.

“Porque a gente vai muito pelos rótulos que a gente recebe, pelo que a gente recebeu a vida inteira, mais do que pelo que a gente é de verdade. E aí é procurar se conhecer, esse se autoconhecer, para poder se cuidar, né? Se tratar bem, com carinho, com atenção. E aí eu acho que é seguir fazendo as coisas que você tem vontade mesmo, focar no que realmente importa, na sua felicidade, no seu trabalho, na nossa família”, completou.

*A títular da coluna Enem e Educação viajou a convite da Aspen Farmacêutica para acompanhar a cobertura do evento

 

Citação

"Infelizmente, o bullying e o cyberbullying marcam essa etapa da criança, e isso tudo influencia no processo de ensino e aprendizagem. Por isso, a escola tem que estar apta a entender que temos 40 pessoas com ritmos e necessidades diferenciado

Débora Garofalo

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