Debate sobre tecnologias chega a 86% das escolas, mas IA avança sem orientação formal, aponta estudo
Em 2025, 86% das escolas realizaram reuniões com professores e outros profissionais para discutir o uso de recursos digitais, ante 68% em 2024
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O avanço das tecnologias digitais ampliou o debate nas escolas brasileiras sobre saúde mental, o uso crítico e responsável de ferramentas como a Inteligência Artificial (IA) e os impactos dos dispositivos eletrônicos na prática pedagógica.
Em meio às recentes medidas que passaram a orientar a relação de crianças e adolescentes com esses recursos, como a Lei nº 15.100/2025, que estabeleceu restrições para o uso de celulares nas escolas, e a Lei nº 15.211/2025, que instituiu o ECA Digital e reforçou a proteção no ambiente virtual, esses efeitos destas transformações já podem ser melhor observados nas redes de ensino.
Divulgada nesta terça-feira (4), a nova edição da TIC Educação 2025, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br/NIC.br), com apoio da UNESCO, mostra que em 2025, 86% das escolas realizaram reuniões com professores e outros profissionais para discutir o uso de recursos digitais, ante 68% em 2024. Entre pais, mães e responsáveis, o percentual passou de 60% para 75% no mesmo período.
A pesquisa tem abrangência nacional e ouviu escolas públicas e particulares, urbanas e rurais, que oferecem Ensino Fundamental e Médio. A amostra realizada foi de 2.404 escolas, sendo 1.555 urbanas e 849 rurais, com coleta entre agosto de 2025 e abril de 2026
“Essa pesquisa é importante porque já capta as consequências dessas medidas, principalmente da restrição do uso do celular na escola. Um dos indicadores demonstra que, de 2024 para 2025, houve uma aumento do debate nas escolas sobre o uso das tecnologias e uma busca maior pelo envolvimento das famílias nessa discussão", destacou Renata Mieli, coordenadora do CGI.br.
"Isso demonstra que a iniciativa do governo federal em definir uma política pública, em levantar a discussão do uso do celular, teve como consequência o debate da adoção dessa tecnologia na sala de aula, além de muitos outros indicadores que precisam avançar", pontuou.
Principais temas abordados
Dentro dessa discussão, 80% dos gestores afirmaram ter discutido os efeitos desses recursos na saúde mental dos alunos, enquanto no ano anterior apenas 62% abordaram o tema.
As regras para o uso de celulares foram tema de discussão em 83% das escolas, contra 70% no ano anterior. Outros 78% dos gestores abordaram os efeitos das tecnologias sobre a prática pedagógica dos professores, enquanto 75% discutiram questões relacionadas à segurança digital, como cyberbullying, discriminação, vazamento de imagens e outras situações envolvendo os alunos na internet.
A inclusão de atividades sobre o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias digitais no currículo da escola correspondeu a 75% em 2025, enquanto a realização de atividades de educação midiática foi mencionada por 65% das instituições.
"Outros indicadores, relacionados ao próprio avanço da inteligência artificial, apontam para a necessidade de estabelecer políticas públicas mais eficazes de educação midiática. São mais de cinco mil municípios no Brasil, uma rede imensa de professores e técnicos administrativos. É preciso formar e capacitar esses profissionais. Essa TIC Educação nos ajuda a compreender como trilhar e como caminhar nesse trajeto que precisamos construir, aonde o uso das tecnologias seja algo mais saudável, seguro e que traga benefícios para todos e todas", complementou Renata.
Educação digital avança, mas enfrenta desafios nas escolas
No entanto, embora as escolas ocupem uma posição estratégica na promoção de um ambiente digital seguro, elas ainda enfrentam dificuldades relacionadas à infraestrutura, à formação de professores, à disponibilidade de recursos pedagógicos e à participação das famílias.
“Os resultados mostram também que a adoção dessas tecnologias avança mais rapidamente do que a construção de diretrizes institucionais, e isso é um dado muito relevante. Esse descompasso reforça a necessidade de várias ações, como a formação dos educadores, orientações claras para os estudantes, famílias preparadas e mecanismos de governança”, explicou Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.
A IA, por exemplo, já é uma realidade nas atividades da gestão escolar, segundo dado inédito da pesquisa, mas ainda faltam orientações para direcionar seu uso. Enquanto 53% dos gestores afirmam utilizar a tecnologia em atividades pedagógica, administrativa ou financeira, as principais aplicações incluem a criação de conteúdos audiovisuais (85%), a produção de comunicados automáticos (82%) e o planejamento de atividades (75%).
No entanto, apenas 22% das instituições de ensino possuem um guia de orientações sobre o uso ético e seguro da IA. Na rede pública municipal, o percentual é ainda menor: apenas 19% das escolas contam com esse tipo de orientação.
Ainda segundo a pesquisa, 65% das escolas realizam projetos de educação digital, midiática e para a cidadania digital. Isso significa que uma parcela significativa das instituições já trabalha temas relacionados ao uso das tecnologias, à segurança, ao pensamento crítico.
Entre as escolas que desenvolvem essas iniciativas, a estratégia mais comum é abordar os temas durante as próprias aulas: 98% realizam iniciativas por meio de conversas com os alunos em sala. Já 43% distribuem cartilhas e panfletos. A pesquisa também identifica outras estratégias, como a inserção dos conteúdos de forma transversal no currículo, atividades extracurriculares e disciplinas específicas.
Mas implementar essas ações não depende apenas da disponibilização de equipamentos. Entre os desafios apontados pelas escolas que realizam projetos de educação digital estão a baixa participação das famílias e dos responsáveis (75%), a falta de materiais e recursos educacionais de apoio (64%), problemas relacionados à qualidade dos computadores e do acesso à internet (58%), a falta de tempo para cumprir o currículo (55%), a falta de habilidades dos professores (53%), a ausência de apoio das redes de ensino (30%) e a resistência de integrantes da comunidade escolar (20%).
“A escola ocupa uma posição estratégica na promoção e na garantia de direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital, e o avanço das discussões sobre saúde mental, segurança e educação midiática reforça a centralidade dessa agenda para as políticas educacionais. Não haverá educação digital equitativa sem infraestrutura adequada, recursos pedagógicos, formação dos profissionais e uma maior articulação entre escolas e famílias”, destacou Alexandre.
O gerente do Cetic.br também ressaltou que a inteligência artificial precisa ser incorporada com intencionalidade pedagógica, ou seja, o uso dessa tecnologia já é uma realidade, mas as orientações institucionais ainda são insuficientes, conforme apontam os dados da pesquisa. Para Alexandre Barbosa, a resposta a esses desafios não cabe apenas às escolas e às famílias, mas exige políticas públicas coordenadas.