Férias escolares: brincadeiras livres e experiências do dia a dia também estimulam o aprendizado

Estimular intelectualmente a criança ajuda a manter ativas habilidades como memória, atenção, linguagem, além de facilitar o retorno às aulas

Por Mirella Araújo Publicado em 07/07/2026 às 12:11 | Atualizado em 07/07/2026 às 13:24

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O período de recesso escolar pode ser uma oportunidade de aprendizagem sem abrir mão do lazer e do descanso. Durante as férias, o cérebro das crianças não precisa de mais tarefas escolares, mas continua necessitando de desafios, novidades e interações significativas.

Estimular intelectualmente a criança ajuda a manter ativas habilidades como memória, atenção, linguagem e funções executivas, além de facilitar o retorno às aulas. Segundo Kátia Chedid, especialista em neurociência em educação e líder do departamento de Governança Educacional da Fundação Bradesco, estimular não significa encher a agenda de compromissos.

"Um dos maiores equívocos da atualidade é substituir o tempo de brincar por uma sequência de atividades organizadas pelos adultos. O cérebro também precisa de tempo para imaginar, criar, explorar e simplesmente viver a infância. As férias devem equilibrar experiências enriquecedoras com momentos de descanso, criatividade e brincadeiras livres", explicou à coluna Enem e Educação.

A especialista destaca a diferença entre Kronos, o tempo dos horários e das obrigações, e Kairós, o tempo das experiências que marcam a vida. Isso significa que muitas crianças vivem hoje um excesso de Kronos e pouco Kairós.

"O equilíbrio acontece quando alternamos momentos de descanso, brincadeiras livres, convivência familiar, passeios e pequenas experiências de aprendizagem. O descanso também é parte do desenvolvimento cerebral, pois favorece a consolidação das memórias e reduz o estresse", afirma. 

"O ideal é substituir a ideia de 'estudar nas férias' por 'viver experiências ricas'. Um passeio, uma conversa, uma brincadeira ou um livro podem ser tão educativos quanto uma atividade formal. As melhores aprendizagens acontecem quando há prazer, curiosidade e envolvimento emocional, e não quando a criança se sente pressionada", pontua a especialista.

Habilidades que podem ser desenvolvidas

Kátia Chedid explica que atividades simples da rotina podem fortalecer competências importantes para o desenvolvimento infantil, entre elas:

  • funções executivas, como planejamento, organização, memória de trabalho, autocontrole e
  • flexibilidade cognitiva;
  • criatividade e imaginação;
  •  resolução de problemas;
  •  pensamento crítico;
  •  linguagem e ampliação do vocabulário;
  •  autonomia;
  •  habilidades socioemocionais, como empatia e cooperação.

Entre os exemplos práticos estão planejar um passeio ou organizar a mala, atividades que estimulam planejamento e organização; cozinhar em família, que desenvolve atenção, sequência lógica, memória de trabalho e raciocínio matemático; jogos de tabuleiro, que exercitam autocontrole, tomada de decisão e flexibilidade cognitiva.

Para Samantha Olegario, coordenadora pedagógica geral da Educação Infantil do Colégio CBV, a brincadeira ocupa papel central nesse processo. Ao brincar, a criança experimenta, cria, interage, amplia a linguagem, fortalece a autonomia e aprende a lidar com diferentes situações e problemas.

"Brincar de faz de conta, construir cabanas, ir ao teatro, explorar espaços ao ar livre ou simplesmente compartilhar momentos de qualidade com os adultos são experiências que geram aprendizagens valiosas e memórias afetivas duradouras", afirma.

Uso de telas exige equilíbrio

Com as férias escolares, pais e responsáveis também enfrentam o desafio de controlar o tempo de uso de celulares, tablets, computadores e televisores. Embora façam parte da rotina, os dispositivos digitais exigem limites, principalmente quando substituem atividades essenciais para o desenvolvimento infantil, como brincar, criar, conversar, ler e interagir.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o uso excessivo de telas está associado a alterações no sono, ansiedade, dificuldades de socialização, prejuízos na atenção e impactos no desenvolvimento da linguagem.

"Precisamos devolver às crianças o direito de brincar, imaginar, ler e até de ficarem entediadas. O tédio também faz parte do desenvolvimento, porque estimula a criatividade. Quando a tela entrega tudo pronto, a criança perde oportunidades importantes de criar soluções, lidar com frustrações e desenvolver autonomia", afirma Reginaldo Arthus, professor de Pedagogia e reitor de unidade da Wyden.

Segundo Arthus, a leitura também deve ser incentivada durante as férias por fortalecer a imaginação, ampliar o vocabulário, estimular a cognição e favorecer a concentração.

"O brinquedo mais importante, muitas vezes, é a presença do adulto. Ler uma história junto com a criança, propor brincadeiras e permitir que ela explore o mundo pelo toque, pelo movimento e pela imaginação são formas simples de promover desenvolvimento e vínculo familiar", explicou.

O educador ressalta que a proposta não é eliminar a tecnologia, mas estabelecer combinados, como evitar telas durante as refeições e antes de dormir, definir horários de uso e reservar momentos de convivência em família.

Atividades para cada fase

As atividades podem ser adaptadas conforme a faixa etária. Na primeira infância, o foco deve estar nas brincadeiras sensoriais, histórias, músicas, movimento e faz de conta.

"Para crianças em idade escolar, ganham espaço jogos de estratégia, leitura compartilhada, culinária, desafios matemáticos, atividades de construção, investigação científica e participação nas tarefas domésticas", destaca Kátia Chedid.

Já os adolescentes podem desenvolver autonomia por meio de projetos pessoais, planejamento de viagens, educação financeira, voluntariado, debates, leitura de temas de interesse e resolução de problemas do cotidiano, além de jogos com amigos e familiares.

"Independentemente da idade, a principal recomendação é que as férias não sejam uma extensão da escola nem uma agenda cheia de compromissos. Tempo para brincar, imaginar, criar, explorar e conviver também faz parte do desenvolvimento e contribui para a aprendizagem futura", reforça.

 

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