Equidade na educação: condicionalidade do Fundeb enfrenta lacunas na implementação e pode levar à perda de recursos

Em Pernambuco, 65 municípios não atendem aos critérios do VAAR, dos quais 30 não reduziram desigualdades raciais e socioeconômicas, segundo o MEC

Por Mirella Araújo Publicado em 20/05/2026 às 16:01 | Atualizado em 20/05/2026 às 16:15

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BRASÍLIA (DF) - No Brasil, cerca de 1.914 redes municipais — o equivalente a 34% do total — ainda não cumprem a condicionalidade III do VAAR (Valor Aluno Ano Resultado), mecanismo do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) ligado à redução das desigualdades educacionais, especialmente as de recorte racial e socioeconômico.

Instituída pela Emenda Constitucional 108/2020, que tornou o novo Fundeb permanente e ampliou a participação da União no financiamento da educação básica, a complementação do VAAR corresponde a até 2,5% da receita total do fundo. Em 2026, o valor total previsto é de R$ 7,5 bilhões, no entanto, os recursos só podem ser acessados por redes que tenham cumprido a condicionalidade integralmente.

“Essa agenda de equidade racial não pode estar apenas no âmbito da escola ou da rede. Ela precisa ser uma decisão da alta gestão. Precisamos entender que a definição da lei orçamentária também passa pelo Executivo”, afirmou Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC).

Nessa segunda-feira (18), o MEC realizou, em Brasília (DF), o evento “Rotas da Equidade – Como alcançar a condicionalidade III do VAAR”, que reuniu 1,2 mil prefeitos e representantes de municípios de todo o país que não atingiram a condicionalidade e, portanto, não estão habilitados a participar da distribuição dos recursos.

“Implementar instrumentos de equidade dentro da rede é um debate muito recente. Muitas redes não é que não queiram avançar, elas ainda não sabem como fazer. E o que o MEC está fazendo é exatamente ajudá-las nesse processo”, explicou a secretária em conversa com a imprensa ao final do evento.

Municípios fora dos critérios

Em Pernambuco, 65 municípios não atenderam aos critérios para receber a complementação do VAAR referente a condicionalidade III. Desse total, 30 cidades não reduziram as desigualdades raciais (entre alunos pretos, pardos, índigenas) e socioeconômicas (baixa renda), enquanto dez não avançaram nos indicadores raciais e 25 não cumpriram as metas relacionadas às desigualdades socioeconômicas.

Para 2026, o valor médio previsto do VAAR por ente federativo no Estado é de R$ 1.662.983,18, segundo dados do MEC/FNDE. Mas, o Recife, por exemplo, não está habilitado para receber a complementação porque não cumpriu a condicionalidade III.

Entre 2019 e 2023, a taxa de alunos pretos, pardos e indígenas (PPI) com aprendizagem adequada na rede municipal caiu 2,18%, passando de 38,83% para 36,65%. Além disso, de acordo com relatório disponibilizado pela plataforma Aqui Tem MEC, que reúne indicadores educacionais de todos os municípios brasileiros, o diagnóstico de equidade do PNEERQ 2024 apontou que o Índice Geral de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) da rede municipal do Recife foi de 62,3 pontos.

O indicador varia de 0 a 100 e é calculado a partir de seis dimensões: institucionalização, formação, gestão escolar, material didático e paradidático, financiamento, além de avaliação e monitoramento. Quanto maior a pontuação, maior o nível de implementação das ações voltadas à equidade racial na educação.

Por outro lado, o município cumpriu outras exigências legais previstas para o acesso aos recursos, como a seleção de diretores escolares com base em critérios técnicos, a participação mínima de 80% dos estudantes no Saeb e o alinhamento dos referenciais curriculares à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

VAAR reflete resultados a médio e longo prazo

Um ponto importante destacado por Caio Callegari, coordenador-geral de Equidade Educacional do MEC, também presente no evento, é que o VAAR opera em uma lógica de médio e longo prazo.

Os repasses de 2025 e 2026 são calculados com base nos resultados do Saeb 2023, comparados aos de 2019, o que significa que muitas ações de equidade racial implementadas recentemente pelas redes municipais ainda não foram refletidas nestes indicadores.

De acordo com Callegari, o Saeb 2025 — aplicado no ano passado — deve começar a captar os efeitos das políticas adotadas a partir de 2023. A expectativa do MEC é que redes que passaram a priorizar a equidade racial consigam melhorar os indicadores e ampliar o acesso ao VAAR nos ciclos de 2027 e 2028. Já os resultados do Saeb 2027 devem orientar a distribuição dos recursos em 2029 e 2030.

 

Carlos Dias/MEC
A secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC, Zara Figueiredo, recebeu a imprensa para falar dos desafios do enfrentamento das desigualdades raciais nas redes de educação - Carlos Dias/MEC

Principal desafio da complementação

Os dados mostram que a principal dificuldade entre as condicionalidades avaliadas para acesso à complementação do VAAR é a condicionalidade III, relacionada à redução das desigualdades raciais e socioeconômicas de aprendizagem, apontada por 34% dos entes federados, em contraste com as demais exigências, como a participação maior que 80% no Saeb (7%), a regulamentação do ICMS Educacional (2%), a adesão a referenciais curriculares alinhados à BNCC (1%) e a seleção por critérios técnicos para diretores escolares (10%).

Questionada pela coluna Enem e Educação sobre o fato de estados e municípios terem prazo para discutir e elaborar seus planos à luz do novo Plano Nacional de Educação (PNE), pode acelerar a adoção de políticas de equidade nas redes, a secretária Zara Figueiredo afirmou que essa é justamente a expectativa.

"[No PNE anterior] gente só tinha uma meta que tratava de redução das desigualdades. Hoje são dezenas de metas e estratégias falando sobre redução de desigualdades”, destacou. "É muito importante perceber o seguinte elo: o que está sendo construído pelos municípios agora para o resultado da prova de 2027 é o que vai dizer que o município vai receber ou não em 2030. É agora que vai ter intervenção do ponto de vista de política de equidade para que o município possa colher os frutos lá na frente, porque é isso que vai levar a que estados e municípios produzam seus planos municipais e estaduais”, completou. 

Veja os municípios pernambucanos que não estão habilitados para o VAAR

Não reduziu a desigualdade racial e socioeconômica

  • Abreu e Lima
  • Belo Jardim
  • Belém do São Francisco
  • Bezerros
  • Bonito
  • Brejo da Madre de Deus
  • Camaragibe
  • Caruaru
  • Floresta
  • Garanhuns
  • Ibimirim
  • Inajá
  • Itapissuma
  • Jaboatão dos Guararapes
  • Jatobá
  • João Alfredo
  • Jucati
  • Machados
  • Orobó
  • Paulista
  • Pesqueira
  • Petrolina
  • Recife
  • Santa Cruz do Capibaribe
  • São Bento do Una
  • Tamandaré
  • Taquaritinga do Norte
  • Terezinha
  • Trindade
  • Vicência

Não reduziu a desigualdade racial

  • Araçoiaba
  • Arcoverde
  • Barra de Guabiraba
  • Camocim de São Félix
  • Cortês
  • Gravatá
  • Itambé
  • Itaíba
  • Poção
  • Sanharó

Não reduziu a desigualdade socioeconômica

  • Aliança
  • Araripina
  • Bodocó
  • Brejinho
  • Caetés
  • Calçado
  • Condado
  • Dormentes
  • Feira Nova
  • Frei Miguelinho
  • Iati
  • Iguaracy
  • Ipubi
  • Itacuruba
  • Itaquitinga
  • Jupi
  • Macaparana
  • Olinda
  • Palmares
  • Pedra
  • Petrolândia
  • Santa Cruz
  • Serrita
  • São José da Coroa Grande
  • Tracunhaém

 

*A titular da coluna Enem e Educação viajou a convite da SECADI/MEC

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