Aprendizagem da Matemática segue como desafio no Brasil; "o maior entrave não é falta de capacidade", diz professor

No Brasil, apenas 5,2% dos estudantes da rede pública alcançam o nível de proficiência considerado adequado ao final do 3º ano do Ensino Médio

Por Mirella Araújo Publicado em 08/05/2026 às 11:00 | Atualizado em 08/05/2026 às 13:15

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“Eu não sei matemática”, “matemática é muito difícil”, “eu não consigo aprender”. Frases como essas fazem parte da rotina do professor José Carlos da Silva e ajudam a retratar um problema que começa ainda na infância e pode se estender por toda a trajetória escolar no Brasil.

“No dia a dia da rede pública, vejo que o maior entrave não é falta de capacidade, mas uma barreira invisível: a ansiedade matemática”, afirma o docente em entrevista à coluna Enem e Educação. Segundo José Carlos, o problema atinge cerca de 65% dos estudantes brasileiros

O medo de errar ou a pressão em torno da Matemática interfere no desempenho, levando muitos estudantes a acreditarem, de forma equivocada, que a disciplina “não é para eles”.

No Dia Nacional da Matemática, celebrado na última quarta-feira (6), especialistas chamam atenção para os desafios da aprendizagem da disciplina em diferentes etapas da educação básica.

“Em Pernambuco, o desafio é superar as desigualdades regionais e socioeconômicas para que a Matemática deixe de ser um privilégio de poucos e passe a ser um direito de todos. Aprender Matemática é garantir que o estudante tenha autonomia e poder de decisão na sociedade”, completa o professor.

Divulgado nessa terça-feira (5), o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em nove países e realizado no Brasil por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, analisou crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados brasileiros — Ceará, Pará e São Paulo.

Os resultados mostraram que, embora o desempenho em literacia emergente tenha ficado ligeiramente acima da média internacional, com 502 pontos, em numeracia as habilidades das crianças brasileiras foram consideradas abaixo da média global, com 456 pontos.

Os indicadores nacionais reforçam esse cenário de dificuldades persistentes. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023 mostram que a aprendizagem adequada em Matemática diminui à medida que os estudantes avançam na escolaridade: no 5º ano do Ensino Fundamental, 43,5% dos alunos atingem o nível esperado, percentual que cai para 16,5% no 9º ano.

No Ensino Médio, o quadro é ainda mais crítico. Apenas 5,2% dos estudantes da rede pública alcançam o nível de proficiência considerado adequado ao final do 3º ano.

Formação docente e estrutura

Para José Carlos, que atualmente leciona no IFSertãoPE, os resultados também estão relacionados às condições de trabalho e à formação dos professores.

Convidado pelo Ministério da Educação (MEC) para atuar como embaixador do programa Compromisso Nacional Toda Matemática, lançado em 2025, o docente também está entre os 20 professores medalhistas da 2ª edição da Olimpíada de Professores de Matemática do Brasil (OPMBr) que participam, até o próximo dia 15 de maio, de um intercâmbio em Xangai, na China, voltado à troca de experiências pedagógicas, tecnologias educacionais e desenvolvimento acadêmico.

“Sem material de apoio alinhado à BNCC e tempo para planejar em rede, acabamos gastando energia buscando conteúdo em vez de focar na estratégia de ensino. Precisamos de recursos diretos nas escolas para kits didáticos e materiais manipuláveis, mas, acima de tudo, de investimento em formação que dialogue com a realidade das escolas”, defende.

Dados do E-MEC 2025 apontam que Pernambuco possui cerca de 9,4 mil professores de Matemática nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Apesar disso, os desafios na formação docente permanecem. Segundo o Censo Escolar/Inep 2023, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, 71,4% dos professores possuem formação adequada, percentual abaixo da média nacional, de 79,4%.

Já nos anos finais, apenas 58,3% dos docentes têm formação compatível com a etapa em que atuam. No Ensino Médio, o estado apresenta índice ligeiramente superior ao nacional: 79,8% dos professores possuem formação adequada, ante 78,9% na média brasileira.

Os números fazem parte da primeira Escuta Nacional de Professores que Ensinam Matemática, realizada pelo MEC, que também revelou demanda por mais formação continuada e melhores materiais didáticos nas escolas. Em Pernambuco, 2.431 docentes, de 1.025 escolas, participaram do levantamento.

 

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Professor pernambucano José Carlos da Silva está entre os 20 docentes medalhistas da 2ª edição da OPMB, que participam, até o próximo dia 15 de maio, de um intercâmbio em Xangai, na China - Cortesia

Matemática e tecnologia para despertar interesse

Na tentativa de aproximar os estudantes da Matemática e tornar a aprendizagem mais significativa, professores da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Professor Trajano de Mendonça, em Jardim São Paulo, no Recife, vêm apostando em aplicações práticas e tecnológicas dentro da sala de aula.

A iniciativa, que integra a Feira de Matemática da GRE Recife Sul, utiliza conceitos ligados à criptografia, pensamento computacional, sistema binário e inteligência artificial. “A ideia foi mostrar um pouco dos bastidores da parte digital, porque hoje todo mundo usa celular e redes sociais, mas nem sempre entende o que existe por trás disso”, explica o professor Ícaro Ventura.

No caso da IA, o professor afirmou que os estudantes são incentivados a utilizar ferramentas como ChatGPT e Gemini, mas sempre com senso crítico e atenção às fontes das informações apresentadas. “Eu não reprimo o uso da inteligência artificial. Pelo contrário, peço para eles usarem, mas tomando cuidado com as referências e verificando as fontes”, afirma.

No entanto, muitas vezes, os estudantes acabam utilizando a tecnologia apenas para copiar respostas prontas. “Quando existe um trabalho de pesquisa ou até uma atividade de Matemática para fazer em casa, às vezes eles trazem resoluções que não fazem sentido para o momento em que estão. A gente bate o olho e percebe que foi gerado por inteligência artificial”, destaca o odcente..

Apesar disso, ele avalia que as plataformas podem contribuir para a aprendizagem quando utilizadas de forma adequada. “Como a Matemática é muito mecânica, a inteligência artificial costuma ser muito assertiva nos cálculos. Então o aluno pode, por exemplo, fotografar uma questão e pedir para a ferramenta analisar o cálculo dele. Ela consegue mostrar onde ele errou e explicar o passo a passo”, afirma Ícaro em entrevista à coluna Enem e Educação.

Para a aluna do 2º ano da EREM Professor Trajano de Mendonça, Maria Eduarda Lima de Azevedo, de 16 anos, o interesse pela Matemática surgiu a partir das experiências vividas nas feiras e projetos desenvolvidos pela escola. "Despertar a curiosidade é essencial, principalmente no adolescente, porque a gente sempre quer entender por que está estudando aquilo e com qual propósito vai usar isso na vida”, relata.

Iniciativas como essas ajudam os estudantes a enxergarem a disciplina para além da repetição de fórmulas e cálculos. “O meu interesse pela Matemática veio a partir dessas feiras, onde a gente começa a se aprofundar e não fica só naquela relação metódica com a Matemática, em que existe algo concreto que é passado para a gente e só isso. Vai muito além. A gente procura entender como aquilo acontece, saber interpretar e aplicar”, afirma.

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Professor Ícaro Ventura e a aluna Maria Eduarda participam de um projeto que aborda conceitos ligados à criptografia, ao pensamento computacional, ao sistema binário e à inteligência artificial - Cortesia

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