Escolas intensificam ações de combate e prevenção ao bullying no Recife

Forma recorrente de violência entre pares, o bullying envolve práticas agressivas e excludentes sustentadas por normas sociais naturalizadas

Por Mirella Araújo Publicado em 24/04/2026 às 10:31 | Atualizado em 24/04/2026 às 11:02

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Neste mês de abril, escolas das redes pública e privada intensificaram as campanhas de combate ao bullying. Caracterizado como uma forma recorrente de violência entre pares, o fenômeno envolve comportamentos agressivos e excludentes que se mantêm e se perpetuam a partir de normas institucionais e sociais naturalizadas.

Desde janeiro de 2024, essas condutas passaram a ser tipificadas no Código Penal. A Lei nº 14.811/2024 define o bullying como intimidação sistemática, individual ou coletiva, por meio de violência física ou psicológica, praticada de forma intencional e repetitiva, sem motivação aparente, incluindo humilhações, discriminações e diferentes formas de agressão.

A pena prevista é de multa, quando a conduta não configurar crime mais grave.

No Recife, a Secretaria de Educação em parceria com o Núcleo de Enfrentamento à Violência Escolar (NEVE), tem promovido a ações de prevenção e conscientização, reforçando a importância do respeito, da empatia e da construção de uma cultura de paz.

Como parte dessa mobilização, a Escola Municipal em Tempo Integral Pedro Augusto realizou, nesta quinta-feira (23), o Dia D de Combate ao Bullying, envolvendo toda a comunidade escolar em uma programação diversificada.

No auditório da unidade, estudantes dos 7º anos participaram de uma palestra sobre o tema, enquanto outras turmas desenvolveram atividades de sensibilização em sala de aula, com exibição de vídeos sobre bullying e cyberbullying, produção de cartazes e leitura de um contrato de empatia.

Ao longo das atividades, os estudantes foram incentivados a refletir sobre atitudes no dia a dia escolar e a importância de promover relações mais respeitosas e escreveram mensagens positivas para os colegas, fortalecendo vínculos e estimulando o cuidado coletivo.

A programação foi encerrada com um momento na quadra da escola, com microfone aberto para que os estudantes compartilhassem suas percepções sobre o tema e realizassem a troca de mensagens de incentivo.

 Kleyvson Santos/PCR
Recife realiza ações de combate ao bullying e promove cultura de paz nas escolas municipais - Kleyvson Santos/PCR

A professora Samantha Costa destacou que o trabalho de prevenção ao bullying é contínuo e impacta diretamente o ambiente escolar. “Falar sobre bullying é falar sobre bem-estar, cultura de paz e sobre o vínculo que o estudante constrói com a escola. Quando a criança se sente acolhida, ela aprende melhor e guarda boas memórias desse espaço. Por isso, esse é um trabalho permanente, realizado ao longo de todo o ano, com ações pedagógicas, diálogo e envolvimento da comunidade escolar”, afirmou.

Entre os estudantes, a percepção também é de mudança. Para Gustavo Santos, do 8º ano, discutir o tema é fundamental para evitar situações de violência. “Falar sobre bullying na escola é muito importante para conscientizar a gente e evitar situações de violência. Aqui a gente aprende sobre respeito e inclusão, e isso ajuda a manter um ambiente melhor para todos”, disse.

A estudante Emilly Gabrieli, também do 8º ano, destacou a importância de abordar o tema no ambiente digital. “Aqui eu aprendi, principalmente, sobre o cyberbullying, que acontece muito na internet. Antes eu não entendia bem, mas hoje sei que é algo sério e que precisa ser combatido. Acho que esse tipo de conversa faz a gente refletir mais e agir com respeito dentro e fora da escola”, relatou.

Uso da internet entra no debate contra o bullying

O cyberbullying, caracterizado pela intimidação sistemática em ambientes digitais, também passou a ser tipificado no Código Penal. Quando praticado por meio da internet, redes sociais, aplicativos, jogos on-line ou transmissões em tempo real, a punição pode chegar à reclusão de dois a quatro anos, além de multa.

Ministrando a palestra sobre o tema, o pesquisador da PlacaMae.org, Leonardo Monte, falou sobre o uso responsável da tecnologia. Para ele, a escola tem papel fundamental na orientação dos estudantes.

“Falar sobre internet e tecnologia dentro da escola é cada vez mais necessário, especialmente com crianças e adolescentes que ainda estão em formação. Nosso trabalho é orientar sobre limites, ética e responsabilidade no uso dessas ferramentas, além de alertar para as consequências do mau uso. O mais interessante é quando eles participam, fazem perguntas e mostram interesse, porque isso indica que estão refletindo e construindo uma relação mais consciente com a tecnologia”, destacou.

 

 Kleyvson Santos/PCR
Recife realiza ações de combate ao bullying e promove cultura de paz nas escolas municipais - Kleyvson Santos/PCR

A programação segue com atividades em outras unidades da rede municipal, como a Escola Municipal Nadir Colaço, nesta sexta-feira (24), e a Escola Municipal em Tempo Integral Reitor João Alfredo, no dia 29.

“Nosso objetivo é fazer com que os estudantes compreendam o que é o bullying, identifiquem seus diferentes tipos e entendam as consequências dessas práticas. A partir de ações, palestras e atividades pedagógicas, também incentivamos atitudes de respeito, empatia e acolhimento, além de orientar sobre como buscar ajuda e denunciar. Esse trabalho está alinhado à legislação, como o programa de combate à intimidação sistemática e o Estatuto da Criança e do Adolescente, fortalecendo uma atuação mais estruturada nas escolas”, disse Isabel Santos, Coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à violência escolar.

A rede municipal do Recife conta com o projeto Caminho Seguro, voltado ao enfrentamento do bullying nas escolas. Integrado ao Portal da Educação, o canal permite o registro de ocorrências por estudantes e profissionais, encaminhadas ao NEVE para análise e providências. 

“Vozes que Transformam” fortalece cultura de respeito

Com o projeto “Vozes que Transformam”, o Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes também tem reforçado as ações de combate ao bullying e ao cyberbullying entre estudantes do Ensino Fundamental – Anos Finais e do Ensino Médio.

Desenvolvida entre março e maio, a iniciativa abre uma série de atividades previstas para todo o ano letivo, com foco na formação integral dos alunos. A proposta estimula reflexões sobre o respeito nas relações presenciais e digitais, destacando que comportamentos nas redes sociais também geram consequências no mundo real.

As ações começam com palestras e abordam temas como empatia, diálogo, cultura de paz, uso responsável da tecnologia e noções de proteção de dados e privacidade. Outro eixo é a discussão sobre os impactos da exposição excessiva de crianças e adolescentes nas redes sociais, que pode ampliar vulnerabilidades, favorecer a circulação indevida de informações e intensificar práticas ofensivas.

“O desenvolvimento de uma postura crítica e responsável no uso das redes sociais é essencial para o bem-estar emocional e para relações mais respeitosas”, afirmou a psicóloga educacional da unidade, Daniela Bacovis.

 

Divulgação/Mackenzie Agnes
O Projeto Vozes que Transformam desenvolve ações que se estenderão ao longo de todo o ano letivo - Divulgação/Mackenzie Agnes

Guia do MEC orienta combate à violência escolar

O Ministério da Educação (MEC) disponibiliza materiais orientativos voltados a estudantes, famílias e comunidades escolares para a prevenção e combate ao bullying. A ação integra o programa Escola que Protege, coordenado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), e está disponível no portal do MEC.

Os materiais reúnem orientações práticas sobre como agir diante de situações de violência, com foco na escuta, no acolhimento e na atuação conjunta entre escola e família. Entre as recomendações, estão atitudes como não compartilhar conteúdos violentos, levar a sério sinais de risco e buscar apoio de adultos responsáveis.

O MEC destaca que comunicar situações preocupantes é uma forma de proteção, não de denúncia indevida. Para as famílias, a orientação é observar mudanças de comportamento, manter o diálogo e informar a escola sempre que necessário.

Segundo o ministério, a prevenção depende do envolvimento de toda a comunidade escolar, com identificação precoce de sinais e ações integradas.

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