Projeto em escola pública de Pernambuco combate apostas online por meio da educação financeira
Por meio de uma metodologia prática e imersiva, os jovens simularam um sistema econômico completo, com moeda própria, empresas e órgãos reguladores
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Com o avanço das plataformas de jogos de azar entre o público jovem — tema que passou a disputar a atenção dos estudantes em sala de aula, com promessas de “ganhos rápidos” —, um professor de matemática da rede estadual de Pernambuco decidiu transformar a relação dos alunos com o dinheiro.
Em 2024, o professor José Carlos da Silva Júnior criou, na Escola Técnica Estadual (ETE) Miguel Batista, localizada no bairro da Macaxeira, na Zona Norte do Recife, o projeto “Para onde vai meu dinheiro?”. A iniciativa surgiu como forma de combater a influência negativa das apostas digitais entre estudantes do ensino médio.
Por meio de uma metodologia prática e imersiva, os jovens simularam um sistema econômico completo, com moeda própria, empresas e órgãos reguladores. Segundo o docente, parte da mesada e até recursos do programa federal Pé-de-Meia era mencionada nas conversas como destinada a plataformas de apostas digitais, quase sempre de forma impulsiva e sem reflexão sobre riscos e consequências.
"Quando a gente fala de dinheiro, vai além de juros simples, compostos e taxas. Mas o que é dinheiro? Aquilo representa horas de trabalho, representa esforço. E, se você não tomar cuidado, é como se estivesse tratando, de forma não crítica, algo que vai impactar diretamente a sua vida", explicou José Carlos em entrevista à coluna Enem e Educação.
"Eu costumo dizer que o dinheiro é como uma energia — e, de fato, é. A gente o obtém de forma lícita, por meio do nosso trabalho, do nosso esforço, da nossa vida. Então, precisamos saber usar e dar valor a ele, para não perder, por exemplo, em jogos de azar", completou o docente.
Em uma das aulas, o professor de matemática interrompeu a conversa dos alunos para entender como os jogos faziam parte do cotidiano deles. “Naquele momento, percebi uma oportunidade de compreender, junto com eles, os caminhos do dinheiro, desde sua origem até sua concepção. Antes, por exemplo, não havia dinheiro, mas o escambo. Há toda uma história por trás desse significado", afirmou.
De acordo com um levantamento feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado em 2025, 22% dos adolescentes entrevistados dizem ter apostado pela primeira vez em jogos de azar com 11 anos ou menos; outros 78% afirmam ter começado aos 12 anos.
Como funcionou o sistema
O projeto “Para onde vai meu dinheiro?” foi desenvolvido com as turmas do 1º ano da ETE Miguel Batista, ao longo de oito semanas. O objetivo foi desenvolver educação financeira e espírito empreendedor, estimulando pensamento crítico, organização, aplicação da matemática no cotidiano e competências como autonomia, liderança e trabalho em equipe.
O professor destacou o impacto social da ação e enfatiza a importância de humanizar o conceito de dinheiro, além de valorizar o potencial da educação pública de qualidade.
“A gente começou com pesquisas e debates, passando a consumir materiais do Tesouro Direto e vídeos educacionais. A partir disso, trouxemos esse debate para as aulas de matemática. Acabamos criando um ambiente de experimentação, em escala reduzida”, explicou.
O mini sistema econômico contou com empresas, iniciativas pública e privada, de economia mista, terceiro setor, além de representantes do governo e bancos. Toda a estrutura foi organizada, incluindo a definição de cargos. Durante a simulação, os estudantes chegaram a criar um órgão para defender os direitos dos trabalhadores, após perceberem que os responsáveis pelas empresas não conseguiam oferecer salários elevados, o que levou os demais a se posicionarem.
"Acho que o mais marcante do projeto foi essa vivência imersiva: fazer planilhas, dar baixa em registros, participar de reuniões, pensar nos objetivos da empresa dentro da sala. Ao todo, foram 16 empresas na simulação, com média de 10 estudantes por grupo. Nesse processo, trabalhamos liderança, trabalho em equipe e também o convívio coletivo, que gerou novas oportunidades de aprendizagem entre eles", disse José Carlos.
Outro ponto trabalhado foi a questão das referências. Durante a criação das cédulas, por exemplo, o professor orientou que os alunos incluíssem elementos com significado pessoal. Alguns deles trouxeram referências do sertão, com imagens e elementos de valor afetivo. Outros destacaram o povo negro e a ancestralidade, enquanto houve ainda quem homenageasse professores. Ou seja, a experiência mostrou que o projeto foi além do ensino de conteúdos.
Mudança de comportamento financeiro
Na primeira fase do projeto, foi aplicado um questionário diagnóstico para mapear os hábitos financeiros dos estudantes, investigando práticas como compras por impulso, busca por promoções, uso de cartão de crédito, comparação entre pagamento à vista ou parcelado e a percepção sobre gastos acima da renda disponível.
Os resultados revelaram que muitos alunos não registravam seus gastos e associavam o dinheiro principalmente ao consumo imediato. Também foi identificada baixa compreensão sobre planejamento financeiro e reserva de emergência.
Thyfane Emile Costa de Almeida, 17 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio na ETE Miguel Batista, afirma que o projeto impactou não apenas sua relação com o dinheiro, mas também provocou mudanças de comportamento entre familiares e pessoas próximas, que costumavam apostar em bets.
“Com esse projeto, consegui mudar a visão de que o dinheiro poderia ser investido, por exemplo, em uma poupança. Mesmo sem um grande retorno, seria um valor que poderia ser usado de outra forma, para algo especial”, disse. “Para mim, o projeto abriu um leque de possibilidades sobre como investir o dinheiro, porque a gente chega ao mercado de trabalho sem saber, dominando apenas a matemática necessária para o Enem, por exemplo”, acrescentou.
Segundo a estudante, aprender a organizar uma planilha de gastos foi um passo decisivo. “A gente não sabia quanto gastava por mês e, a partir do projeto, percebeu que estava gastando com coisas desnecessárias e que poderia ter investido, inclusive, na educação. Esse foi o ponto que mudou a minha vida”, destacou.
Para Kauanne Sales Batista, 17 anos, também aluna do 3º ano do ensino médio da ETE Miguel Batista, a iniciativa foi importante para que ela compreendesse como funciona a estrutura em torno do dinheiro.
“A questão de entender o papel do poder monetário e da responsabilidade financeira. O que mais me marcou nesse processo foi compreender como o dinheiro circula na sociedade e como posso fazê-lo render”, disse, em conversa com a coluna Enem e Educação.
A jovem destacou que aprendeu a operar investimentos de renda fixa, o que a ajudou a aplicar o dinheiro recebido pelo programa federal Pé-de-Meia. “Vi que poderia ter um retorno financeiro seguro, que não dependeria de sorte ou de outros fatores”, afirmou.
Kauanne contou que é comum ouvir, nas conversas entre amigos, relatos de ganhos em sites de apostas, mas que, apesar do “discurso encantador”, entende que se trata de um caminho enganoso. “Se você não estiver preparado para reconhecer esse tipo de golpe, acaba caindo. Isso é muito preocupante. Graças a Deus e ao professor José Carlos, consegui ajudar pessoas ao meu redor e familiares a não serem enganados”, celebrou.
Projeto ganha prêmios e reconhecimento nacional
O projeto resultou em diversas medalhas em olimpíadas nacionais, a exemplo da Olimpíada de Educação Financeira (Olitef), que funcionou como instrumento formativo e avaliativo da iniciativa, e também incentivou o empreendedorismo entre os alunos em situação de vulnerabilidade.
Com o projeto “Para onde vai meu dinheiro?”, o professor José Carlos também foi vencedor da 3ª edição do Prêmio Professor Porvir, na categoria Educação Financeira. No ano passado, conquistou ainda o 1º lugar na Olimpíada do Professor de Matemática do Ensino Médio.
O docente, que atualmente leciona no campus Ouricuri do IFSertãoPE, foi convidado pelo governo federal para atuar como embaixador do programa Todos pela Matemática.
“Eu tenho muito orgulho deles, muito orgulho mesmo dessa construção coletiva. Eu acredito em uma educação feita por muitas mãos, construída de forma conjunta. Sei que esses estudantes têm diversas habilidades que vão além de marcar um ‘X’ em prova", pontuou.
"Quando vejo que tenho a oportunidade de ser um instrumento para mudar a perspectiva deles, especialmente em relação à matemática, que não costuma ser uma disciplina muito querida, e percebo que eles passam a admirar, a gostar e a enxergar utilidade nela, isso é muito significativo. Quando se trata de educação financeira, esse impacto é ainda maior, porque muda a forma como eles olham para a vida", completou.
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