Após ataque, escola estadual de Barreiros retoma aulas nesta quarta (18) e reforça urgência do debate sobre bullying e violência escolar

O caso reacende o debate sobre responsabilidade coletiva, identificação de sofrimento emocional e estratégias de acolhimento e mediação nas escolas

Por Mirella Araújo Publicado em 17/03/2026 às 17:22 | Atualizado em 17/03/2026 às 18:01

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As atividades na Escola de Referência em Ensino Fundamental (EREF) Cristiano Barbosa e Silva, no município de Barreiros, na Mata Sul do estado, devem ser retomadas nesta quarta-feira (18).

A Secretaria de Educação de Pernambuco (SEE-PE) informou que profissionais da Gerência Regional de Educação (GRE) foram encaminhados à unidade nesta terça-feira (17) para prestar apoio à comunidade escolar, dialogar com professores e funcionários e apurar as circunstâncias do ocorrido.

O caso de violência envolvendo um adolescente de 14 anos, que esfaqueou três colegas dentro da escola, expõe a urgência do debate sobre o bullying e a necessidade de prevenção efetiva no ambiente escolar. 

Isso porque informações preliminares, divulgadas pelo conselheiro tutelar André Costa, apontam que o jovem estaria sendo vítima de bullying há cerca de um ano. A família do adolescente afirmou à imprensa que havia procurado a escola há cerca de dois meses para relatar a prática, mas que nenhuma medida teria sido adotada após as denúncias. As vítimas, no entanto, negam qualquer tipo envolvimento com o estudante.

O jovem apreendido foi autuado por ato infracional análogo ao crime de tentativa de homicídio e, após audiência, encaminhado a uma unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase). Uma das três vítimas, todas com 14 anos, permanece internada no Hospital da Restauração (HR), no Recife, onde realiza exames. O quadro de saúde é considerado estável, mas ainda sem previsão de alta.

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Pernambuco (PCPE), e especialistas ouvidos pela coluna Enem e Educação alertam que situações de violência são complexas, exigindo cautela nas análises, e não podem ser explicadas por um único fator. Nada justifica um ato de violência extrema.

Ainda assim, o episódio tem levantado discussões importantes sobre a responsabilidade coletiva na identificação de sinais de sofrimento emocional entre estudantes, bem como sobre a criação de estratégias eficazes de acolhimento e mediação de conflitos nas escolas.

Também é importante evitar simplificações e tentar compreender o contexto mais amplo em que casos como este ocorrem. Eles destacam a necessidade de fortalecer políticas de prevenção ao bullying, com ações contínuas que envolvam toda a comunidade escolar — gestores, estudantes, famílias e educadores —, promovendo um ambiente mais seguro e acolhedor.

Bullying não é “coisa de adolescente”, alerta especialista

Rafaella Cursino, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), afirmou que, antes mesmo de analisar o fenômeno do bullying, é fundamental investir de forma mais efetiva na prevenção dessa prática, que passou a ser tipificada como crime no Brasil desde 2024.

A Lei nº 14.811/2024 define bullying como a intimidação sistemática, individual ou em grupo, por meio de violência física ou psicológica, praticada de forma intencional e repetitiva, sem motivação aparente, envolvendo humilhações, discriminações ou agressões de natureza verbal, moral, sexual, social, psicológica, física, material ou virtual. De acordo com a legislação, a pena prevista é multa, quando a conduta não configurar crime mais grave.

De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no primeiro ano de vigência da nova legislação, foram registrados 2.543 casos de bullying envolvendo crianças e adolescentes no Brasil em 2024, o que representa uma taxa de 5,9 por 100 mil habitantes de 0 a 17 anos. Os dados refletem apenas os casos mais graves, que chegam à polícia, indicando que o problema pode ser ainda mais amplo. 

A maior concentração ocorre entre estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, com destaque para a faixa de 10 a 13 anos (12,0 por 100 mil) e de 14 a 17 anos (11,5 por 100 mil), sendo os 12 anos a idade com maior número de registros.

"É preciso que a gente entenda de uma vez por todas que as escolas precisam construir uma cultura de paz, em que a convivência seja prioridade. O olhar sobre o espaço da escola deve ir além do aspecto formal: trata-se também de um espaço de interação social. Ela é um grande laboratório social onde crianças e jovens têm a oportunidade de conviver com o que é diferente de mim, que tem história, hábitos e costumes completamente diferentes de mim e está tudo bem. Ninguém é melhor ou pior por ser diferente do outro", disse Rafaella Cursino, em entrevista à coluna Enem e Educação.  

Na avaliação da psicóloga, casos de bullying não podem ser tratados como algo trivial ou apenas como “coisa de adolescente”. O cenário atual tem sido marcado por maior intolerância às diferenças e pela perda de espaço para o diálogo e a expressão de sentimentos entre crianças e jovens, o que contribui para que a violência — incluindo o bullying, em suas formas verbal, física e virtual — seja utilizada como forma de lidar com conflitos, podendo chegar a situações extremas.

A especialista também apontou uma diminuição na disposição das pessoas em olhar para o outro com atenção e agir com responsabilidade nas relações. Nesse contexto, defendeu que a escola precisa fortalecer valores como respeito, empatia e diálogo, além de promover o engajamento de crianças e adolescentes nesse processo de empatia e de indignação às injustiças e violências.

No entanto, sabemos que a escola não pode assumir essa responsabilidade sozinha. Pais e responsáveis têm papel fundamental na escuta, no acolhimento e na responsabilização diante dessas situações. É essencial que as famílias estejam atentas e deixem de normalizar incômodos causados pelo desrespeito, evitando, sobretudo, minimizar comportamentos que ultrapassam os limites do outro, ao tratá-los como uma simples “brincadeira”.

 

Divulgação/SEE
Os dados do Censo Escolar 2025 mostram que Pernambuco registrou queda no total de matrículas da Educação Básica - Divulgação/SEE

Violência não pode ser normalizada

Para Catarina Gonçalves, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Violência Escolar (NEPEVE), o bullying tem sido um fator muito relacionado a casos de ataques em escolas. Quase a totalidade dos perpetradores de ataques relata episódios anteriores de sofrimento na escola, ou seja, ele não é uma violência qualquer.

A especialista reforçou que o bullying não ocorre de forma isolada, mas diante de um grupo que, muitas vezes, legitima e reforça esse tipo de comportamento. Segundo ela, embora não seja uma violência exclusiva do ambiente escolar, é na escola que ele se manifesta com mais intensidade, por ser um espaço de convivência constante entre os pares.

Catarina também explicou que os impactos tendem a ser mais profundos porque a frequência escolar é obrigatória e contínua, o que expõe a vítima de forma recorrente. Além disso, é nesse ambiente que crianças e adolescentes constroem sua autoimagem. Nesse contexto, quem sofre bullying pode vivenciar isolamento e desvalorização, com efeitos negativos significativos na forma como passa a se perceber.

"Quando a violência é naturalizada, muitas vezes nem é reconhecida como tal. Piadas de mau gosto, comentários sobre aparência — como relataram, por exemplo, chamando o menino de feio — nem sempre são percebidos como violência", alertou Catarina Gonçalves

"Os adolescentes, muitas vezes, constroem justificativas morais usando linguagem eufemística, dizendo que é 'brincadeira'. Por isso, as escolas precisam investir em conscientização e sensibilização, ajudando os estudantes a identificar o dano causado e a se sensibilizar com o sofrimento do outro", completou. 

A especialista pontuou que esse reconhecimento acontece muito pouco no ambiente escolar, porque as escolas tendem a reagir apenas quando o problema surgem e não há um acompanhamento rígido depois que os casos ocorrem. 

Formação e suporte aos docentes

Quando ocorrem situações extremas, que expõem fragilidades no enfrentamento à violência, é comum apontar a falta de estrutura das escolas, falhas na vigilância e a sobrecarga dos professores — muitos docentes atuam em turmas com mais de 35 alunos e ainda enfrentam desvalorização que vai além da remuneração, impactando diretamente as condições de trabalho.

Em entrevista à coluna Enem e Educação, José Paulino Peixoto, professor, mestre em Educação e coordenador do curso de Pedagogia do Centro Universitário Frassinetti do Recife (Unifafire), destacou que, embora os docentes assumam frequentemente o papel de escuta e acolhimento dos estudantes, nem sempre estão preparados para lidar com essas demandas. Por isso, a formação continuada deve ser tratada como prioridade.

“Esses temas não podem ser abordados apenas em momentos pontuais. Violência, intolerância e bullying atravessam todas as áreas do conhecimento e podem ser trabalhados em diferentes componentes curriculares”, afirma.

Ainda de acordo com o professor, esse trabalho também exige a presença de equipes multidisciplinares nas escolas, como psicólogos e assistentes sociais, além de ações contínuas de mediação de conflitos e acompanhamento dos casos. “A Unesco vem reforçando isso ao propor pilares da educação que incluem não apenas ensinar a conhecer, mas também ensinar a conviver, valorizar a pluralidade e promover uma cultura de paz nas escolas", disse. 

Apurações estão em andamento

A Gerência Regional de Educação (GRE) informou que não foi notificada sobre o caso de bullying na EREF Cristiano Barbosa e Silva e que está em processo de apuração das circunstâncias para verificar se houve essa demanda e, se isso se confirmar, por que a Secretaria não foi acionada.

A escola, inclusive, foi contemplada com uma analista de psicologia educacional na última convocação do processo seletivo simplificado do governo estadual. A profissional foi designada na semana passada e começou a atuar na unidade nesta terça-feira.

Em meio à repercussão do ataque às alunas — e às cobranças por mais vigilância nas escolas —, Jéssyca Medeiros, chefe da Unidade de Atenção Psicossocial às Escolas, reforçou que a presença policial, por si só, não é solução para o ambiente escolar. Segundo ela, no âmbito pedagógico, a rede estadual segue com ações de prevenção e enfrentamento da violência.

“É natural que, diante de uma situação como essa, as pessoas se assustem e passem a cogitar respostas mais simples, como o aumento da presença policial nas escolas. Mas é preciso cuidado para não associar soluções simplórias a uma questão que é muito mais complexa”, afirmou.

Ela destacou que, desde 2023, existe uma parceria consolidada com a Secretaria de Defesa Social, com protocolos definidos e reuniões mensais envolvendo a gestão da rede, a Gerência de Direitos Humanos e a Patrulha Escolar para tratar ocorrências nas escolas. Além disso, desde fevereiro de 2024 o projeto EntreLaços vem sendo executado pela Unidade de Atenção Psicossocial às Escolas, por meio dos núcleos das 16 GREs, integrando esforços para promover a saúde mental e prevenir e enfrentar a violência no ambiente escolar.

A partir da ocorrência, Jéssyca Medeiros explicou que, no atendimento imediato, foi realizado o acolhimento da comunidade escolar, além dos encaminhamentos para delegacia e unidades de saúde. A equipe de atenção psicossocial permaneceu na escola ao longo do dia, atendendo estudantes, professores e gestores, e retornou no dia seguinte para apresentar o protocolo de resposta e reconstrução à comunidade escolar.

Segundo ela, o acompanhamento seguirá de forma contínua, com atuação conjunta da equipe psicossocial e da psicóloga da unidade. “Esse protocolo de crise é recomendado pelo Ministério da Educação, dentro do programa Escola que Protege, e é baseado em referências técnicas da educação, da segurança pública e de pesquisadores da área”, pontuou.

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