"Por que não eu?": meninas desafiam barreiras e ampliam presença na ciência
Dados do CNPq indicam que, nos últimos 10 anos, mulheres são maioria nas bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado no Brasil
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“Por que não eu?”. É assim que Anna Beatriz da Silva Gomes, de 17 anos, costuma reagir quando alguém questiona seu interesse por Mecânica. Embora ainda enfrentem muitas barreiras, meninas e mulheres vêm ampliando sua presença nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM), desafiando estereótipos e combatendo o machismo.
“Muitas vezes faltam oportunidades, e isso é mais comum do que imaginamos. É importante que as meninas sejam firmes e não abaixem a cabeça por causa de críticas ou por não se sentirem capazes. O mundo precisa do conhecimento delas”, afirmou a estudante em entrevista à coluna Enem e Educação.
Anna Beatriz contou que começou a se interessar pela área de Ciências Exatas, mais especificamente pela Mecânica, ainda na infância. “Sempre gostei de números e também de desmontar meus brinquedos e montá-los novamente. Passei a me aproximar ainda mais da área por meio do meu avô, que assistia às corridas de Fórmula 1 pelas manhãs. Uma das minhas inspirações, além das minhas professoras e tutoras, é a estrategista da equipe Red Bull de Fórmula 1, Hannah Schmitz”, relatou.
Segundo a estudante, após sua participação no programa Futuras Cientistas, iniciativa do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) que estimula o contato de alunas e professoras da rede pública com as áreas STEAM, esse tema passou a ser mais debatido entre os seus amigos.
No projeto “Sustentabilidade em Movimento: Avaliando os Impactos do Biodiesel em Motores Diesel”, Anna e outras três estudantes trabalharam na análise de combustíveis sustentáveis para motores a diesel. “Fizemos vários testes no motor para observar como ele se comportava com o uso do biodiesel e verificar se a saúde do motor se mantinha estável”, explicou a aluna da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Joaquim Távora, na Madalena.
“Desenvolver o projeto foi uma oportunidade de adquirir conhecimentos que eu ainda não tinha sobre motores a diesel. Os resultados foram positivos, já que o biodiesel mantém a qualidade de funcionamento do motor”, acrescentou.
Para ela, participar do Programa Futuras Cientistas reforçou a certeza sobre o caminho que deseja seguir: ser engenheira mecânica. Além disso, a estudante também defendeu que é fundamental ter mais investimentos na estrutura científica das escolas públicas.
“Acredito que a educação é a base de tudo e de qualquer sonho. Sem ela, não temos a chance de descobrir o que realmente gostamos, muito menos de nos aprofundar nisso. Por isso, é importante investir em laboratórios de Física, Química e Biologia nas escolas, principalmente nas públicas, onde muitas meninas têm menos acesso a essas áreas”, disse.
Estudantes encontram na ciência um lugar de pertencimento
A curiosidade em entender como as coisas funcionam e o que provoca determinados fenômenos levou a estudante Júlia Camilly da Silva Costa, de 17 anos, a se interessar pela ciência. Aluna do 3º ano do ensino médio da EREM Joaquim Távora, ela participou do programa Futuras Cientistas e passou a compreender ainda mais a importância da presença feminina no espaço científico.
Júlia tem como uma de suas principais referências a cientista, zoóloga, diplomata, política e educadora Bertha Lutz, pioneira na luta pelos direitos das mulheres no Brasil.
“Foi uma experiência maravilhosa porque me ajudou a ter ainda mais certeza da carreira que quero seguir. Também aprendi mais sobre a estrutura de um laboratório, o uso de EPIs e técnicas de manejo animal. Além disso, tive a oportunidade de estudar, durante o projeto, na universidade onde pretendo me graduar”, contou à coluna Enem e Educação. A estudante pretende cursar Medicina Veterinária na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Ela também já teve contato com outras iniciativas de pesquisa. “Já participei de um projeto sobre terapia celular na UFRPE, que envolvia o uso de células-tronco para o tratamento de lesões, como uma forma de tecnologia acessível”, relatou.
Júlia afirma já ter enfrentado situações de desvalorização por ser uma jovem interessada pela área científica, mas acredita que essas experiências podem servir de motivação para que mais meninas ocupem esses espaços. “Que as jovens acreditem no próprio potencial e não deixem que estereótipos ou barreiras sociais limitem seus sonhos. A ciência é para todos, e as mulheres têm capacidade, competência e o direito de ocupar os espaços que desejarem”, declarou.
É justamentre por entender sobre a importância da equidade nas mais diversas áreas que Geovanna Moura Barbosa, de 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio da Escola Técnica Estadual (ETE) Ginásio Pernambucano, tem buscado se envolver em iniciativas que aproximam os jovens da ciência, participando de programas educacionais e competições escolares que incentivam o pensamento científico e a pesquisa, como o Garotas STEAM e outras atividades voltadas à formação científica de estudantes.
O tema, inclusive, tem aparecido nas conversas com amigos quando o assunto é carreira, futuro e oportunidades. “Foi um espaço onde pude aprender mais, trocar experiências e perceber que existem muitas meninas talentosas e curiosas na área científica. Também foi inspirador ver mulheres atuando nessas áreas e mostrando que esse espaço também é nosso”, afirmou a estudante, conhecida pelos familiares como a “menina dos porquês”.
Jovem pernambucana é premiada por projeto ambiental
Beatriz Vitória da Silva, de 18 anos, estudante da Escola Técnica Estadual (ETE) Professor Paulo Freire, localizada no município de Carnaíba, no Sertão do Estado, e bolsista do programa Mais Ciência na Escola, conquistou o segundo lugar no Prêmio Jovem Cientista, na categoria Ensino Médio.
A iniciativa é do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Fundação Roberto Marinho, com apoio da Editora Globo e do Canal Futura e patrocínio da Shell.
Ao lado de colegas, Beatriz desenvolveu o FiltroPinha, um filtro de baixo custo produzido a partir das cascas da fruta-pinha para reduzir a toxicidade da manipueira, resíduo gerado na produção de farinha de mandioca. O projeto, que vem acumulando prêmios, surgiu da realidade do Quilombo do Caroá, onde a estudante nasceu, e buscou enfrentar impactos ambientais e de saúde pública.
Segundo a estudante, o interesse pela área científica surgiu a partir do incentivo dos professores Gustavo Bezerra e Carla Robecia Nascimento, orientadores do projeto. “Participar desse trabalho teve um impacto enorme. Todo o reconhecimento não é apenas uma conquista nossa, mas da comunidade que está sendo beneficiada com as nossas ações. Também é a prova de que a ciência pode nascer da união entre conhecimento científico e saberes ancestrais”, afirmou.
À coluna Enem e Educação, Beatriz destacou que receber o Prêmio Jovem Cientista ampliou suas perspectivas. “Percebi que, para desenvolver um projeto, não é preciso pensar fora da caixa, mas buscar soluções aplicáveis à realidade da comunidade, como fizemos no nosso trabalho”, relatou. “Ser premiada como Jovem Cientista também foi a certeza de que valeu a pena toda a dedicação, as noites de trabalho da equipe para desenvolver o projeto”, completou.
Participação das mulheres cresce na pesquisa científica
Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostram que, nos últimos dez anos, as mulheres são maioria nas bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica, mestrado e doutorado, tanto em Pernambuco quanto no Brasil.
No Estado, as mulheres concentraram 13.854,18 bolsas entre 2015 e 2025, o equivalente a 56% do total, enquanto os homens somaram 10.879,02 (44%). No período, o número de bolsas femininas cresceu 21,5%, passando de 1.279,17 em 2015 para 1.554,22 em 2025 — o maior valor da série. Entre os homens, houve queda de cerca de 7,5%, de 1.081,65 para 1.000,21.
No Brasil, a presença feminina também se mantém superior em toda a série. Em 2015, o indicador feminino (33.720,04) era cerca de 12,5% maior que o masculino (29.981,77). Em 2025, essa diferença aumenta: 37.976,85 entre mulheres contra 28.383,66 entre homens, uma vantagem de aproximadamente 33,8%.
O secretário de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Inácio Arruda, afirmou em entrevista à coluna Enem e Educação, nesta quinta-feira (5), que o desafio é garantir não apenas o acesso das mulheres à ciência, mas também condições de permanência nas pesquisas.
Segundo ele, o ministério, sob a gestão da ministra Luciana Santos, tem ampliado iniciativas em parceria com outras pastas do governo federal.
“Precisamos atrair outros ministérios para programas específicos. Isso fazemos diretamente com o CNPq ou em chamadas com a Finep. Criamos uma linha de apoio chamada Política e Consciência, em que os ministérios podem apresentar propostas de programas importantes na área da pesquisa científica para obter apoio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico”, afirmou.
Apesar do avanço nos números, o secretário avalia que ainda há barreiras culturais e estruturais que dificultam a presença feminina em áreas estratégicas da ciência. “Existem estruturas que se mobilizam na ideia de que esses lugares pertencem aos homens e não às mulheres. Essa visão atrasa o processo civilizatório e impede que a maioria da população esteja presente em programas tão fundamentais para o país”, afirmou.
Ele defende que políticas públicas precisam atuar tanto na atração quanto na permanência das pesquisadoras, já que muitas bolsas têm prazo limitado e nem sempre consideram determinadas demandas. “É preciso garantir que as mulheres permaneçam nos grupos de pesquisa, que não sejam punidas quando engravidam ou quando precisam cuidar dos filhos”, disse.
Para o secretário, além das políticas institucionais, também é necessário enfrentar visões machistas ainda presentes no ambiente acadêmico. “Se você não faz o debate, não cria programas e não impulsiona a participação das mulheres, essa ideologia acaba prevalecendo”, afirmou.