Censo Escolar 2025: Pernambuco reduz 45 mil matrículas e registra mudanças no tempo integral dos Anos Finais e do Ensino Médio

No Brasil, a educação básica perdeu cerca de 1 milhão de matrículas em 2025 na comparação com 2024, impactando praticamente todas as etapas

Por Mirella Araújo Publicado em 27/02/2026 às 16:02 | Atualizado em 27/02/2026 às 22:16

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Pernambuco registrou queda de 45.299 matrículas na educação básica entre 2024 e 2025, seguindo a tendência nacional apontada pelo Censo Escolar 2025

Apesar do recuo geral de 2,1%, os dados revelam comportamentos distintos entre as etapas de ensino, com avanço nas creches, estabilidade nos Anos Iniciais, forte retração nos Anos Finais do Ensino Fundamental e atenção voltada ao desempenho das matrículas no tempo integral do Ensino Médio.

Os números gerais foram divulgados nesta quinta-feira (26) pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), durante coletiva realizada em Manaus, no Amazonas.

No Brasil, a educação básica perdeu cerca de 1 milhão de matrículas em 2025 na comparação com 2024, impactando praticamente todas as etapas. Na rede pública, o total caiu 2,12%, passando de 37,5 milhões para 36,7 milhões de estudantes. Já na rede privada, a redução foi de 2,86%, de 9,5 milhões para 9,2 milhões.

Segundo o MEC, a queda está ligada principalmente às mudanças demográficas nas faixas de 0 a 4 anos e de 15 a 17 anos, além da melhora nos indicadores de distorção idade-série. A pasta afirma que a redução no número absoluto de matrículas não indica aumento da exclusão, destacando que a taxa de frequência escolar chegou a 97,2% em 2025.

Números locais

Em Pernambuco, o movimento segue a mesma tendência, passando de 2.121.954 matrículas (redes pública e privada) em 2024 para 2.076.655 em 2025 — uma redução de 45.299 estudantes, o que representa queda de aproximadamente 2,1%.

"Nós estamos muito conscientes desse momento de queda geral de matrículas. Primeiro seguindo parte do raciocínio do MEC com relação a educação básica e a questão demográfica. Você tem as migrações, então algumas quedas nesse quantitativo identificamos mais no interior, esse fluxo populacional é visto mais do que na Capital", afirmou o secretário de Educação de Pernambuco, Gilson Monteiro, em entrevista à coluna Enem e Educação, nesta sexta-feira (27). 

Monteiro afirma que é importante observar o contexto socialeconômico que fazem parte dessa demografia, e também levar em consideração o envelhecimento da população que já começa a refletir nas inserções dessas matrículas.

Avanços a serem considerados

Na Educação Infantil, o estado teve uma diminuição discreta no total de matrículas: de 364.079, em 2024, para 362.231, em 2025 (queda de 0,5%). Na creche, que atende crianças de 0 a 3 anos, houve um aumento de 6.387 vagas, passando de 130.889 matrículas para 137.276. 

A rede pública ampliou o atendimento, passando de 81.254 para 91.892 estudantes, com a maior parte concentrada na rede municipal (de 79.966 para 90.332). Já a rede privada recuou de 49.635 para 45.384 matrículas, indicando possível migração de crianças para o ensino público municipal.

"Os números mostram avanços importantes, especialmente na alfabetização na idade certa. Saímos de 28% em 2023 para 59% no ano seguinte. A meta em 2025 era 62%, e chegamos a 61,5%, impactados pela queda em alguns municípios populosos. Mesmo assim, é um avanço emblemático", afirmou Gilson Monteiro

O secretário estadual de Educação também destacou as ações que serão realizadas por meio do regime de colaboração com os municípios e que podem alavancar ainda mais o acesso as creches.

"Estamos apoiando com transporte, abertura de novas creches, repasse de recursos, mobiliário, climatização. Desde 2023 começamos a fomentar a ampliação da rede municipal. Isso melhora a qualidade das creches públicas e pode explicar a migração da rede privada para a pública". disse. 

Na pré-escola, etapa obrigatória de ensino a partir dos 4 anos de idade, o movimento foi inverso. O total caiu de 233.190 para 224.995 matrículas — redução de 8.195 estudantes (3,5%). A rede pública passou de 156.469 para 153.471 matrículas, enquanto a privada recuou de 76.721 para 71.484. Os municípios concentram 67% do atendimento nessa etapa, com 151.306 matrículas em 2025, frente a 154.417 no ano anterior. 

 

Janaína Pepeu/Secom
Imagem da Creche Tia Nicinha, em Igarassu, que possui 10 salas de aulas e tem a capacidade para atender cerca de 320 crianças - Janaína Pepeu/Secom

Gargalos do Ensino Fundamental

O Ensino Fundamental somou mais de 1,2 milhão de matrículas em 2025. Desse total, 899.807 estão na rede pública — 780.059 sob responsabilidade municipal, 119.050 da rede estadual e 698 da federal — e 305.391 na rede privada. 

Nos Anos Iniciais (do 1º ao 4º ano), houve estabilidade no comparativo anual: 672.838 matrículas em 2024 e 673.148 em 2025 (alta de 0,04%). Entretanto, na série histórica, observa-se retração. Em 2021, eram 684.486 estudantes — 11.338 a mais que o total atual, o que representa queda de 1,7% no período.

Já nos Anos Finais (do 5ª ao 9ª), a redução é mais acentuada. O total passou de 547.841 matrículas, em 2024, para 532.050, em 2025 — menos 15.791 estudantes (queda de 2,9%). Em relação a 2021, quando havia 565.364 alunos, a diminuição acumulada chega a 33.314 matrículas, retração de 5,9%.

Em 2025, 419.865 estudantes dos anos finais estão na rede pública e 112.185 na privada. A maior parte está na rede municipal com 306.609 matrículas (57,6%). A redução anual concentrou-se principalmente na rede pública.

No recorte por jornada, são 108.943 matrículas em tempo integral (mínimo de 7 horas diárias ou 35 horas semanais) em 2025, frente a 95.066 em 2024 — aumento de 13.877 vagas.

A expansão ocorreu sobretudo nas redes municipal e estadual. Já o tempo parcial (um turno) caiu de 452.775 para 423.017 matrículas no mesmo período, redução de 29.758 estudantes. O avanço do tempo integral indica que a ampliação dessa modalidade de ensino pode contribuir para a melhoria nos índices de permanência dos estudantes nessa etapa. 

Gilson Monteiro afirmou que o Estado tem uma política clara de integralização da rede na modalidade integral. "Identificamos, inclusive, distorções como o chamado 'semi-integral', que não gera os resultados esperados. Nosso objetivo é integralizar de forma adequada, com infraestrutura de qualidade. Mas encontramos um passivo estrutural grande", afirmou. 

"Estamos investindo em manutenção, reforma e ampliação. Integralizar exige escola bem estruturada, com atratividade, lazer, políticas públicas como fardamento, programas de incentivo. Quanto mais tempo o estudante permanecer na escola, melhor tende a ser o desenvolvimento", completou. 

Ensino Médio e o Tempo Integral

O Ensino Médio apresentou leve avanço no total de matrículas entre 2024 e 2025. No ano passado, eram 338.112 estudantes nas redes pública e privada. Em 2025, o contingente chegou a 339.537 — um aumento de 1.425 alunos, equivalente a variação de 0,4%.

Mas um dos dados trazidos pelo Censo Escolar 2025 que chamam atenção, é o movimento inverso no tempo integral, com redução significativa. Ao longo dos últimos anos, Pernambuco consolidou-se como referência nacional no Ensino Médio em tempo integral, com mais de 60% das escolas da rede estadual funcionando nesse modelo.

O levantamento mostra que a rede estadual concentrou a maior parte da queda. O número passou de 206.697 para 178.976 matrículas, menos 27.721 estudantes, uma retração de aproximadamente 13,4%. Na contramão desse movimento, a rede federal registrou leve crescimento, saindo de 1.785 para 2.028 matrículas. A rede privada também avançou, passando de 3.536 para 5.033 estudantes.

 

Josimar Oliveira/ SEE
O Censo Escolar 2025 apresenta?dados sobre escolas, professores, gestores, turmas e alunos de todas as etapas e modalidades de ensino da educação básica - Josimar Oliveira/ SEE

 O secretário estadual de Educação explicou à coluna Enem e Educação que parte da queda registrada decorre de erro na inserção de dados referentes à carga horária em 155 escolas da rede estadual.

"O Inep começou a fazer uma avaliação por hora-aula, e até 2024 nós fazíamos a inserção por turno. Então, quando passa para a carga horária, a situação que coloquei de 'semi-integral', por exemplo, existiu, e isso fez com que o Inep não verificasse a hora-aula completa. Não verificando de forma integral, o sistema acabou classificando como regular. Então isso gerou parte dessa queda. Nós já acionamos o Inep e mostramos o erro de inserção manual no sistema em 155 escolas, e isso é representativo", explicou Monteiro.

Além disso, segundo o secretário, há escolas que precisaram retornar ao modelo regular por falta de infraestrutura adequada. Ainda de acordo com Gilson Monteiro, isso representa não é uma queda expressiva, mas a pasta irá buscar integralizar com qualidade, garantindo boas condições tanto para estudantes quanto para profissionais.

Educação Profissional e EJA

 A Educação Profissional apresentou avanço mais positivo. As matrículas passaram de 110.230, em 2024, para 116.976, em 2025 — aumento de 6.746 estudantes, o que representa crescimento de cerca de 6,1%.

"Estamos mapeando as vocações regionais para ofertar cursos alinhados às economias locais. Nacionalmente há um movimento de fortalecimento da educação profissional e técnica, e Pernambuco acompanha esse caminho", afirmou o secretário estadual de Educação.

Já na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o movimento foi inverso. O total caiu de 123.712 matrículas, em 2024, para 116.976, em 2025. Uma redução de 6.736 alunos, representando uma queda de 5,4%. 

Sobre esse cenário desafiador, Gilson Monteiro afirmou que a rede mantém uma política consistente de busca ativa e incentivo à matrícula, mas enfrenta, entre outros entraves, dificuldades na oferta de transporte e alimentação adequados ao horário noturno. Segundo ele, o Estado tem reforçado o regime de colaboração com os municípios para viabilizar o transporte escolar e ampliar políticas de atratividade, incluindo a oferta de cursos profissionalizantes e parcerias.

Perfil dos Estudantes

A Secretaria de Educação do Estado (SEE) destacou que, no perfil dos estudantes, o recorte de raça e cor aponta predominância de alunos autodeclarados pretos e pardos, que representam 75% entre os que informaram essa identificação. Os estudantes indígenas correspondem a cerca de 3,5% das matrículas e estão concentrados principalmente na regional do Sertão do Itaparica, sediada em Floresta, que reúne 54% dos alunos autodeclarados indígenas da rede.

Na análise territorial, a Região Metropolitana do Recife (RMR) reúne 40% das matrículas da rede estadual. Dentro desse conjunto, o Recife concentra 18% do total, respondendo por quase metade dos estudantes da região metropolitana. O Sertão aparece na sequência, com 30% das matrículas. Já o Agreste e a Zona da Mata participam com cerca de 15% cada um.

 

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