Resultado do Enem 2025 provoca reações e levanta discussão sobre critérios da redação
Nesta edição, a redação trouxe como tema as "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira", sendo elogiado pelos participantes
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O resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 foi divulgado na madrugada desta sexta-feira (16) e pode ser consultado na Página do Participante. Nas redes sociais, a divulgação gerou forte repercussão, principalmente em relação à nota mais aguardada do exame: a redação.
No Enem 2024, apenas 12 candidatos alcançaram a nota máxima (1.000) na redação, sendo uma delas de Pernambuco — obtida por Camila Ellen Gonzaga, do município de Belo Jardim. Até o momento, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ainda não divulgou o número total de notas mil da edição de 2025.
O exame foi aplicado nos dias 9 e 16 de novembro em todo o território nacional. Nos municípios paraenses de Belém, Ananindeua e Marituba, as provas ocorreram excepcionalmente em 30 de novembro e 7 de dezembro, em razão da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP30).
Segundo balanço divulgado pelo Inep, foram registrados 4,8 milhões de inscritos e 72% de presença nos dois dias de prova.
No primeiro domingo, os participantes responderam às questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Já no segundo dia, foram aplicadas as provas de Matemática e Ciências da Natureza.
Nesta edição, a redação trouxe como tema as “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, tendo sido bastante elogiado pelos estudantes inscritos.
Correções mais rigorosas no Enem 2025
Nas redes sociais, inúmeros estudantes têm manifestado insatisfação com os resultados do Enem 2025, alegando que as notas ficaram abaixo do esperado. As queixas se concentram, principalmente, no desempenho na redação.
Em um dos relatos, um participante afirmou ter ficado surpreso com a pontuação obtida. “Minha nota na redação foi bem abaixo do que eu esperava. Cheguei a pensar que tivesse cometido algum erro grave que não percebi na hora, mas estou vendo que muita gente também teve a mesma reclamação. Enfim, fiz mais de 100 pontos a mais no ano passado do que neste ano”, escreveu o candidato na rede social X (antigo Twitter).
A estudante Késya Rafaelle dos Santos, de 18 anos, da Escola Técnica Estadual (ETE) Miguel Batista, avaliou que o seu resultado ficou dentro do esperado. “O Enem usou a TRI de forma mais precisa este ano. Foi uma lapada comparado ao ano passado, mas acredito que foi o suficiente”, disse.
“Já a redação, eu saí daquela sala com a mente tranquila, porque sabia que tinha conseguido defender bem minha tese. Então o resultado não me pegou de surpresa. Este ano, com toda certeza, foi para testar o quão autorais as redações foram. Os corretores fizeram um bom trabalho”, afirmou a estudante, que conquistou 840 pontos.
Segundo Késya, o texto foi baseado nos temas “estereótipos enraizados” e “etarismo estrutural”, abordando a forma como a sociedade enxerga o idoso e como as oportunidades se fecham para essa população. “Digo isso não só em relação à área de trabalho, mas sobre viver mesmo, criando barreiras que impedem a pessoa mais velha de viver como quer e deseja”, explicou.
Também aluna da ETE Miguel Batista, Beatriz Freitas de Souza, de 18 anos, afirmou ter acompanhado a repercussão sobre os resultados do Enem nas redes sociais e relatou que amigos também se queixaram de um desempenho abaixo do esperado.
“Apesar de ter achado minha nota relativamente boa, eu esperava um pouco mais. Tirei 900 na redação, mas acredito que a TRI me prejudicou um pouco, porque não achei que as questões fossem tão difíceis, mais conteudistas e fugindo um pouco do que o Enem vinha trazendo”, avaliou.
Na redação, Beatriz utilizou referências do filme de animação “UP – Altas Aventuras”. A tese abordou como o envelhecimento na sociedade atual é influenciado pela mídia, citando também o filme “A Substância”, além de discutir como o abandono parental contribui para o medo de envelhecer, já que muitas pessoas temem ser abandonadas pelas próprias famílias.
Professores ponderam reações
O professor de Redação Raphael Alves, da Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Olinto Victor, avaliou que, logo após a divulgação dos resultados, as reações costumam ser intensas, mas ponderou que é necessário analisar com cautela os dados apresentados.
“A banca tem reforçado, com razão, que vem sendo mais criteriosa em dois aspectos. O primeiro é o chamado repertório não produtivo, conhecido como ‘repertório de bolso’, que é o uso aleatório de referências decoradas, sem conexão real com o tema”, explicou.
“O segundo envolve a competência 3, já que, nos últimos anos, cresceu muito a produção de textos automatizados, muitas vezes vendidos na internet e divulgados como soluções mágicas”, afirmou Raphael Alves. Para o docente, esse olhar mais rigoroso ajuda a explicar, neste primeiro momento, a percepção de queda nas notas.
Para a coordenadora de Linguagens Larissa Caroline, do Colégio Saber Viver, desde 2024, quando começaram a surgir as primeiras polêmicas em relação aos modelos prontos de redação e aos descontos que o Inep já aplica diante dos chamados “repertórios de bolso”, essa repercussão já era esperada.
“É importante que a gente lembre que, embora a redação seja a parte mais subjetiva da prova — porque envolve a percepção de, no mínimo, dois corretores —, ela atende a critérios técnicos, que nem sempre são plenamente compreendidos sem o espelho da redação. É a partir do espelho que o aluno consegue ter ciência de quanto tirou em cada competência”, disse.
Ainda segundo a coordenadora, a banca, por ora, não avalia apenas a estrutura do texto, mas também a pertinência do repertório e a progressão argumentativa. “Em muitos casos, o aluno acredita ter atingido determinado critério, mas pequenas falhas podem impactar o resultado final”, explicou. No caso dos retornos que Larrisa têm recebido, muitos alunos estão comemorando as notas obtidas nesta edição.