Idepe 2024: Veja os municípios de Pernambuco que se destacaram no desempenho escolar do Ensino Fundamental

O indicador avalia a qualidade da rede pública pernambucana em três dimensões: desempenho em Língua Portuguesa e Matemática (Saeb) e o fluxo escolar

Por Mirella Araújo Publicado em 24/10/2025 às 12:41 | Atualizado em 24/10/2025 às 20:41

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Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco (IDEPE) 2024 já podem ser consultados no site da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco (SEE).

O indicador avalia a qualidade da rede pública pernambucana em três dimensões: desempenho em Língua Portuguesa e Matemática — aferidos por meio dos testes do Sistema de Avaliação da Educação Básica de Pernambuco (Saepe) — e fluxo escolar, com base nos dados do Censo Escolar, considerando os alunos do 5º e 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio.

Entre os municípios com melhor desempenho no 5º ano do Ensino Fundamental, Panelas liderou o ranking em 2024, com nota 8,47, seguida por Custódia (8,39) e Carnaubeira da Penha (8,25). Este último teve um crescimento de 21,32 % em relação a 2023, quando havia obtido 6,80 pontos.

Na avaliação do 9º ano do Ensino Fundamental, Machados ficou em primeiro lugar, com nota 7,77. Em segundo lugar apareceu novamente Carnaubeira da Penha, que avançou 14,17%, passando de 6,28 para 7,17. Em terceiro lugar está Iguaracy, com salto de mais de 26% — de 5,31 para 6,74 entre 2023 e 2024.

No recorte da Região Metropolitana do Recife (RMR), Itapissuma alcançou as maiores notas: 6,92 no 5º ano e 5,87 no 9º ano. Já a capital do Estado, Recife, passou de 5,53 em 2023 para 5,71 em 2024, no 5º ano; e, no 9º ano, de 4,43 para 4,70.

Mas o que os resultados do Idepe indicam e o que é necessário ser discutido? Embora muitos municípios pernambucanos tenham registrado progresso, permanece um desafio significativo na transição entre os Anos Iniciais (1º ao 5º ano) e os Anos Finais (6º ao 9º ano) do Ensino Fundamental.

Mesmo nas cidades com melhores resultados no 5º ano, observa-se uma queda no desempenho no 9º ano, evidenciando que as disparidades existentes exigem não apenas projetos pedagógicos diferenciados, mas também a implementação de uma política específica permanente para todo o percurso escolar.

Histórico da política educacional brasileira

Em conversa com a coluna Enem e Educação, a presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação de Pernambuco (Undime-PE) e secretária de Educação de Igarassu, Andreika Asseker, destacou que é preciso, antes de tudo, compreender o histórico da política educacional brasileira.

“Nós nunca tivemos uma política pública voltada especificamente para os Anos Finais. Ou se tinha uma política para os Anos Iniciais, com foco na alfabetização, ou para o Ensino Médio. Se analisarmos os dados nacionais, é no Ensino Fundamental — especialmente nos Anos Finais — que observamos maiores índices de evasão escolar e de distorção idade-série, até mesmo superiores aos do Ensino Médio. Então, temos uma defasagem muito grande”, explicou a dirigente.

Nesse contexto, Andreika citou o Programa Escola das Adolescências, lançado pelo Ministério da Educação (MEC) em junho de 2024, voltado ao fortalecimento da etapa que abrange do 6º ao 9º ano do ensino fundamental.

A iniciativa articula esforços da União, dos estados, dos municípios e do Distrito Federal, com o objetivo de construir uma proposta pedagógica para essa etapa de ensino que dialogue com as diversas realidades e formas de viver a adolescência no Brasil.

“Há uma necessidade urgente de que estados e municípios olhem para esse público. Tanto pelas questões biológicas — porque o adolescente tem um perfil diferente, não é mais criança, mas também não é adulto — quanto pela necessidade de formações específicas para aprender a lidar com esses jovens. Além disso, há a questão da transição na quantidade de professores para várias disciplinas e a maior carga horária”, afirmou Andreika.

A presidente da Undime também fez ponderações sobre o rankeamento dos municípios no Idepe. Segundo ela, é preciso entender que o resultado desse índice reflete os investimentos em políticas públicas e as propostas pedagógicas construídas a partir da autonomia de cada cidade.

“Hoje, a política educacional precisa atuar de maneira diferente, de acordo com a necessidade de cada escola. É uma atuação por equidade”, ressaltou.

“Por isso, é injusto ranquear, porque, quando fazemos isso, politicamente cada um quer se comparar com outros municípios. Mas é importante perceber que cada município, de acordo com a quantidade de alunos, sua população e os desafios que enfrenta, pode ter um desafio maior de aprendizagem do que outro”, explicou Andreika Asseker à coluna Enem e Educação.

Continuidade entre etapas e impacto da pandemia

Outro ponto importante é a divisão de responsabilidades no Ensino Fundamental. Pernambuco se destaca por ter um dos maiores percentuais de escolas estaduais com Ensino Fundamental 2, somando mais de 300 unidades, o que exige estratégias adaptadas às diferentes metodologias e estruturas de cada escola.

Em uma avaliação geral dos resultados do Idepe, Lucas Fialho, Gerente Geral de Desenvolvimento Pedagógico da SEE, destacou que, há muitos anos, o Ensino Fundamental não apresenta crescimento consistente, mas sim oscilações de desempenho, cenário que se repete em todo o país.

Segundo Fialho, os efeitos da pandemia ainda repercutem no desempenho dos estudantes. Por isso, é natural que haja discrepâncias, especialmente nas séries intermediárias, cujos alunos passaram mais tempo com atividades escolares interrompidas, impactando diretamente a aprendizagem.

Também é preciso considerar as diferenças entre redes menores e mais complexas. Municípios com poucas escolas podem apresentar avanços mais rápidos, enquanto redes grandes, como as da Região Metropolitana do Recife, enfrentam desafios devido ao número de alunos e à complexidade da gestão.

“Sabemos que há uma ruptura significativa entre o quinto e o sexto ano, e o mesmo acontece do nono para o primeiro ano do Ensino Médio. Nosso trabalho é reduzir esse impacto e fortalecer a continuidade da aprendizagem”, afirmou Fialho.

O gerente geral destacou ainda que a administração estadual tem implementado guias didáticos próprios, materiais integrados e formação de professores, além de programas de monitoramento da transição entre etapas, que utilizam estudantes das próprias escolas para ajudar os novos alunos a se ambientarem, com foco na recomposição de aprendizagem. 

Além disso, é importante que exista uma política de continuidade entre etapas. “Quanto melhor uma etapa entrega para a seguinte, maiores são os resultados futuros. Nossa expectativa é que esses avanços no ensino fundamental se reflitam no médio", afirmou.

Machados foca em acompanhamento contínuo

Em Machados, na Zona da Mata Norte, o aumento no desempenho tem sido atribuído a um conjunto de ações que vão desde o investimento em infraestrutura até o acompanhamento pedagógico contínuo e o acolhimento dos alunos, especialmente nas séries avaliativas do 5º e 9º ano.

De acordo com a Secretaria de Educação, são realizados de cinco a seis encontros formativos por ano, além de reuniões bimestrais com coordenadores e professores. A rede também aplica a Avaliação Municipal de Desempenho Escolar, de caráter diagnóstico, no mês de março. “A partir dela, identificamos as necessidades de cada turma e planejamos as intervenções”, detalhou a secretária Maria Fernandes.

“Também realizamos simulados desde 2017, que são acompanhados por meio de uma plataforma digital que permite o monitoramento dos resultados. O diário digital também nos dá um feedback constante sobre o desempenho dos estudantes”, completou.

Machados conta com 11 escolas na rede municipal, sendo oito de Anos Iniciais e três de Anos Finais. Um dos principais desafios, segundo Maria Fernandes, estimular a concentração e engajamento dos alunos, além de trazer as famílias, principalmente aquelas em situação de vulnerabilidade, mais para perto da escola. "O objetivo é que todos se sintam pertencentes à escola”, disse a secretária à coluna Enem e Educação.

Carnaubeira da Penha celebra avanços educacionais

Com uma população estimada em 12.712 habitantes, segundo o IBGE, Carnaubeira da Penha mostrou avanços significativos no Idepe. A cidade, localizada no Sertão de Pernambuco, também já alcançou 100% de alfabetização entre crianças em idade escolar, conforme o Indicador Criança Alfabetizada, divulgado pelo MEC.

Com um passado marcado pela violência até a década de 1990, hoje o município é reconhecido por seus índices educacionais e pela valorização da formação profissional. “Hoje, temos cerca de 85 médicos formados ou em formação, além de muitos policiais e servidores públicos. Três ônibus saem diariamente levando estudantes para cursos superiores em Belém e Serra Talhada. A educação se tornou prioridade”, afirmou o secretário de Educação de Carnaubeira da Penha, Breno Emerson Lopes Pereira.

Atualmente, Carnaubeira da Penha conta com 18 escolas, sendo duas avaliadas pelo Idepe: a Escola Municipal Professora Maria P. Soares, na sede, com cerca de 500 alunos, e a Escola Capitão Gonçalves, na zona rural, com cerca de 200 alunos. As demais são unidades multisseriadas.

Desde 2021, as escolas desenvolvem ações voltadas à alfabetização e à recomposição da aprendizagem. “Antes mesmo do programa Criança Alfabetizada, do Governo do Estado, e do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, do Governo Federal, o município já tinha sua própria política, o Alfabetiza Carnaubeira”, explicou o secretário.

 

Denilson Alisson Sobrinho Gomes
Carnaubeira da Penha tem desenvolvido ações voltadas à alfabetização e à recomposição da aprendizagem - Denilson Alisson Sobrinho Gomes

A partir dessa iniciativa, todas as escolas, da creche ao 5º ano, possuem cantinhos de leitura, iniciativa anterior aos incentivos federais. O município também mantém seis projetos voltados à leitura e à produção textual, com destaque para o Desafio Literário, que mensalmente propõe livros para serem trabalhados com os alunos.

Outro eixo importante é o projeto de recomposição da aprendizagem, com um dia semanal destinado exclusivamente à revisão de habilidades. No ano passado, foi priorizado o ensino do sistema monetário, identificado como uma habilidade que demandava atenção. “Preparamos projetos e até um livro paradidático específico para trabalhar essa competência”, destacou Breno Pereira.

“Carnaubeira da Penha já foi uma das cidades mais violentas de Pernambuco. A virada veio com a educação. As filhas da cidade foram estudar, se formaram professoras e voltaram para alfabetizar as novas gerações”, lembrou o gestor.

O professor de Matemática, Denilson Henrique, contou que os trabalhos realizados no contraturno escolar tem ajudado a potencializar o desempenho dos estudantes, principalmente na disciplina que leciona. "Nós encontramos alunos que tem diversas dificuldades, desinteresse, mas a gente busca modular o ensino para reveter essa situação com atividades lúdicas, mas que também traz a tecnologia para dentro da sala de aula, buscando engajar mais esses estudantes", disse. 

Ainda segundo Denilson, também existe um olhar atento que vai além da Matemática ser considerada uma disciplina mais dificil. "Nós também observamos que muitos desses alunos são aqueles que têm uma relação disfuncional com suas famílias, pais que acabam não dando aquele suporte educacional necessário. Então mobilizamos nossa equipe disciplinar para entre em contato com estas famílias, fazer essa busca ativa e entender a realidade deles e como podemos reveter essa situação", explicou o docente. 

Confira o desempenho dos municípios de Pernambuco:

Dez municípios com as maiores notas no 5º ano do Ensino Fundamental (Rede Municipal)

Geral

Thiago Lucas/Design SJCC
Resultados do Idepe por município - Thiago Lucas/Design SJCC

 Região Metropolitana do Recife

Thiago Lucas/Design SJCC
Resultados do Idepe por município - Thiago Lucas/Design SJCC

Dez municípios com as maiores notas no 9º ano do Ensino Fundamental (Rede Municipal)

Geral

Thiago Lucas/Design SJCC
Resultados do Idepe por município - Thiago Lucas/Design SJCC

 Região Metropolitana do Recife

Thiago Lucas/Design SJCC
Resultados do Idepe por município - Thiago Lucas/Design SJCC

* Os municípios de Abreu e Lima e Ilha de Itamaracá não possuem oferta de Ensino Fundamental II na rede municipal. Essa etapa de ensino é ofertada pela rede estadual, cujas notas obtidas no Idepe 2024 foram 4,78 em Itamaracá e 4,69 em Abreu e Lima.

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