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Estudantes de Odontologia da UFPE denunciam precariedade nas clínicas e organizam protesto

Alunos relatam falta de materiais, problemas estruturais e condições inadequadas para atendimento de pacientes nas clínicas odontológicas

Por Maria Clara Trajano Publicado em 25/03/2025 às 18:46

Estudantes do curso de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) utilizaram as redes sociais para denunciar as condições precárias das clínicas odontológicas da instituição.

De acordo com os relatos, a falta de insumos básicos, equipamentos danificados e problemas estruturais comprometem o aprendizado acadêmico e o atendimento à população. O grupo Mobiliza Odonto, articulador das movimentações, marcou um protesto na próxima quinta-feira (27), às 14h, para chamar atenção para os problemas.

Estrutura precária e falta de materiais básicos

Segundo uma estudante que pediu para não ser identificada, a situação das clínicas vem se deteriorando há anos.

"A clínica B, por exemplo, era dividida em boxes, mas devido a problemas com cupins, metade deles foi retirada. Agora restam apenas cinco, e mesmo assim há problemas: em um deles, a garrafa de água não encaixa e a cadeira está parada; em outro, o ar-condicionado e o equipo (cadeira utilizada para atendimentos odontológicos) não funcionam corretamente; há ainda um box que teve um vazamento de sangue durante uma cirurgia, escorrendo até para fora”.

Reprodução/Redes sociais
Vazamento de sangue durante cirurgia em clínica odontológica da UFPE - Reprodução/Redes sociais

“É recorrente que o sugador entupa, e nos mandam parar no meio do atendimento para limpar com cloro, o que é um absurdo. Isso deveria ser responsabilidade do departamento, não nossa", denuncia.

Além dos problemas estruturais, os acadêmicos precisam arcar com materiais que deveriam ser fornecidos pela universidade.

"Nós compramos desde algodão e soro até seringas e kits cirúrgicos. Até mesmo a água destilada para os equipos é custeada por nós. A água fornecida pela universidade é podre. Toda a tubulação e encanamento são muito antigos, e não há condições de usá-la na boca dos pacientes".

Reprodução/Redes sociais
Imagem de água encanada nas clínicas odontológicas da UFPE - Reprodução/Redes sociais

A falta de manutenção também impacta a infraestrutura das clínicas. "Teve um vazamento de cano na clínica B que afetou a parte elétrica e todo mundo precisou sair porque havia risco de ser eletrocutado", relata a estudante.

Outro problema recorrente é o funcionamento irregular do compressor, equipamento essencial para acionar brocas e sugadores.

"Se ele para de funcionar no meio de uma clínica, não há o que fazer. Simplesmente não conseguimos concluir o tratamento. Nunca aconteceu comigo do compressor parar no meio de um procedimento, mas já vi isso acontecer. Se alguém estiver em uma cirurgia usando a broca e o compressor parar, o que faz? O paciente fica lá de boca aberta esperando, sem poder concluir".

Reprodução/Redes sociais
Imagem de vazamento de água em clínica odontológica da UFPE - Reprodução/Redes sociais

A estudante relata que alguns pacientes chegam para atendimento e precisam voltar para casa sem serem atendidos.

"Já aconteceu do paciente vir de longe, chegar aqui e ter que ser mandado de volta porque não tem como dar continuidade ao atendimento. Outro dia, na clínica, um dos equipos parou de funcionar no meio do procedimento e tivemos que terminar com a lanterna do celular".

Uma representante do Diretório Acadêmico de Odontologia (DAO), que também preferiu não revelar o nome, apontou outras deficiências do curso.

"Praticamente todos os equipamentos têm algum tipo de problema. Faltam refletores para iluminação durante os atendimentos, os estudantes precisam usar as lanternas dos celulares para concluir procedimentos", reitera.

Falta de conforto para pacientes e acadêmicos

Os pacientes que buscam atendimento gratuito na universidade também são impactados. A sala de recepção não tem ar-condicionado, e as altas temperaturas causam mal-estar em muitos pacientes.

"Atendemos pelo SUS, majoritariamente pessoas em situação de vulnerabilidade. Essas pessoas já vêm de longe, são pessoas que não tem condições financeiras, aí arrumam passagem para chegar lá de ônibus, chegam aqui e são obrigadas a esperar num calor insuportável", pontua a representante do DAO.

O ambiente de trabalho dos servidores da universidade também é inadequado. "O laboratório de informática está sem ar-condicionado há meses, e os armários estão enferrujados e podem desabar. A central de esterilização deveria ser um ambiente controlado, mas como é muito quente, vamos sem jaleco mesmo, tanto em forma de protesto quanto porque não dá para suportar o calor".

Mobilização dos estudantes e resposta da direção

Diante da situação, os estudantes organizaram um protesto para a próxima quinta-feira (27).

“A crise na Odontologia da UFPE não é de agora, mas nunca esteve tão crítica. Estamos sustentando a clínica com o nosso próprio dinheiro e, mesmo assim, não conseguimos atender nem aprender direito", afirma a representante do DAO.

De acordo com os estudantes, em reunião no último dia 20, a equipe responsável pela gestão do Hospital Odontológico reconheceu os problemas e afirmou que um novo contrato de manutenção dos equipamentos está em fase de licitação. Além disso, os estudantes afirmam que a equipe garantiu que haverá um profissional responsável exclusivamente pelas compras do curso de Odontologia.

Apesar das medidas anunciadas, os estudantes seguem mobilizados e esperam que o protesto traga visibilidade às reivindicações.

O que diz a UFPE

Por meio de nota, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) informou que “em relação a denúncias feitas por parte de estudantes de graduação, relatando situações vivenciadas nas clínicas, informamos que muitas das quais foram prontamente resolvidas”.

Em relação aos equipos com defeitos, a instituição afirmou que “os equipos odontológicos são utilizados nos três turnos, tanto no curso diurno quanto no noturno, desde sua aquisição pela UFPE em 2012, o que resulta em um desgaste significativo. Entretanto, para assegurar o pleno funcionamento das clínicas, a Universidade mantém um contrato de manutenção que contempla os reparos corretivos necessários, além de realizar duas manutenções preventivas anuais”.

Confira nota na íntegra:

"A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) informa que está tomando as providências necessárias para promover melhorias na infraestrutura das clínicas odontológicas, apesar das dificuldades impostas pelo subfinanciamento que tem impactado as universidades públicas nos últimos anos.

Em relação a denúncias feitas por parte de estudantes de graduação, relatando situações vivenciadas nas clínicas, informamos que muitas das quais foram prontamente resolvidas. Cumpre esclarecer que os equipos odontológicos são utilizados nos três turnos, tanto no curso diurno quanto no noturno, desde sua aquisição pela UFPE em 2012, o que resulta em um desgaste significativo. Entretanto, para assegurar o pleno funcionamento das clínicas, a Universidade mantém um contrato de manutenção que contempla os reparos corretivos necessários, além de realizar duas manutenções preventivas anuais.

Na quinta-feira (20), a equipe responsável pela gestão do Hospital Odontológico, em colaboração com a administração central da UFPE, realizou uma visita ao local e está dedicada à revisão do funcionamento dos consultórios odontológicos. O objetivo dessa revisão é garantir o cumprimento dos rigorosos princípios de biossegurança, assegurando a manutenção da qualidade no atendimento prestado aos usuários.

Adicionalmente, a UFPE informa que será realizada reforma das clínicas e da organização administrativa, com implantação de um único almoxarifado, o que servirá para garantir melhores serviços e ampliar a capacidade de atendimento. A UFPE reitera seu compromisso com a qualidade dos serviços prestados e com a busca contínua pela excelência no atendimento a seus usuários."

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