Um duelo de cretinos deixa os problemas do Brasil fora da eleição
As campanhas rebaixam a escolha presidencial a uma disputa para provar quem fará menos mal ao país e chegam ao pleito do domingo dispensando o futuro.
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As equipes de campanha a presidência escolheram a mediocridade como meta. É como um duelo de cretinos tentando provar que o adversário é quem vai piorar o país mais que ele próprio.
Existem problemas no Brasil? Eles não são mais importantes do que definir quem é o pior para o país? Há famílias endividadas, trabalhadores com renda insuficiente, pacientes esperando atendimento e brasileiros vivendo sob o domínio do crime organizado.
A campanha presidencial parece considerar tudo isso secundário diante da missão de convencer o eleitor de que uma opção ruim será menos danosa que a outra.
É a realidade desta disputa, tudo bem. Mas é uma porcaria de realidade. E deveríamos refletir como chegamos aqui.
Ausência
O cancelamento do debate da Globo resumiu esse percurso. Lula (PT) recusou o convite. Flávio Bolsonaro (PL), que pretendia comparecer, desistiu depois. Decisões judiciais alteraram as condições do encontro, e a emissora cancelou a transmissão. O Brasil chega à eleição nacional com candidatos tão medíocres que o cidadão não teve a oportunidade de vê-los frente a frente em debate nenhuma vez.
Houve entrevistas, vídeos, discursos e conversas em ambientes escolhidos pelos próprios candidatos. Faltou vê-los responder às mesmas cobranças, confrontar soluções. Quem pede a responsabilidade de governar o Brasil deveria suportar o desconforto de discutir o Brasil com os adversários. Os dois favoritos conseguiram atravessar o primeiro turno sem oferecer ao eleitor esse confronto.
Acusações
Enquanto isso, as relações de Flávio com Daniel Vorcaro abasteceram a campanha. Mensagens e cobranças de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro colocaram a proximidade entre o candidato e o banqueiro sob questionamento. Do outro lado, a investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, trouxe suspeitas de tráfico de influência em negociações de medicamentos com o Ministério da Saúde.
As suspeitas precisam ser apuradas e as relações precisam ser explicadas. Mas o eleitor também precisa saber o que os candidatos farão com o poder. A campanha foi completamente apartada de qualquer projeto de futuro colocado à prova diante do adversário. Cada lado aponta os vínculos comprometedores do outro e espera que isso baste como certificado da própria capacidade. Discute-se qual opção ruim é menos danosa ao país, como se a Presidência fosse um concurso no qual vence quem consegue demonstrar que o concorrente merece perder.
Preocupa
Uma das maiores democracias do mundo chega à eleição sem que seus dois principais candidatos tenham debatido entre si. O país tem problemas urgentes, mas a campanha trata a vitória de cada lado como condição para sobreviver ao outro. Essa lógica merece atenção.
Na Venezuela e na Rússia, presidentes chegaram ao poder pelo voto concentraram poder alegando defender o país da interferência externa ou de ideologias “inimigas” e se tornaram autocratas.
São histórias diferentes da brasileira, mas deixam um alerta claro. Quando derrotar o inimigo vira a justificativa para tudo, governar bem e respeitar a democracia passam a ser exigências secundárias. É um caminho muito perigoso.
Pressa
Para completar, ambos estão investindo tudo o que podem para terminar a eleição no primeiro turno apelando para o voto útil dos eleitores que hoje declaram voto em opções alternativas. É o "vote em mim para que ele perca logo". E isso esconde outra necessidade.
É que vencer agora logo, no primeiro turno, também significa escapar de novas três semanas correndo o sério risco de ser obrigado a discutir o Brasil. Uma coisa terrível. Depois de uma campanha assim, é difícil não enxergar conveniência nessa pressa.
Dilma Rousseff nunca esteve tão certa e praticamente adivinhava o futuro quando produziu um de seus pensamentos que acabaram virando memes na internet. “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”, filosofou a então presidente.
É isso!