Cena Política | Análise

Entre bets e religião Lula encontra votos e empurra Flávio às cordas

Avanço entre mulheres, católicos e evangélicos sugere que bets e fé abriram novas conversas para o presidente na reta final da campanha.

Por Igor Maciel Publicado em 28/09/2026 às 12:13

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Lula encontrou, na última semana, assuntos capazes de mover eleitores fora de sua base? A Quaest sugere que sim. No primeiro turno, o presidente foi de 37% para 39% e Flávio Bolsonaro passou de 33% para 34%. Numa simulação de segundo turno, os dois estão empatados em 42%. O placar geral mudou pouco, mas a pesquisa mostra movimentos mais fortes entre mulheres, católicos e evangélicos, todos favoráveis ao líder petista.

Esses movimentos ocorreram enquanto o governo anunciava uma medida contra as bets e a campanha discutia Nossa Senhora Aparecida. Isso ficou claro.

Família

Entre as mulheres, Lula passou de 37% para 40% das intenções de voto no primeiro turno, segundo a Quaest. Flávio fez o caminho inverso, de 32% para 29%. A vantagem do presidente nesse eleitorado cresceu de cinco para onze pontos em uma semana. Entre os homens, houve movimento contrário. Flávio subiu de 34% para 39%, enquanto Lula caiu de 39% para 37%. Os dois candidatos cresceram no resultado nacional, mas encontraram acolhimento em públicos diferentes.

A decisão do governo de agir contra as bets ajuda a entender por que a disputa entrou na conversa das famílias. A aposta que consome parte do salário, gera dívidas e muda a rotina da casa é um assunto que vai muito além da propaganda eleitoral. Lula passou a falar de uma preocupação concreta, capaz de chegar à mesa de quem talvez não estivesse disposto a ouvi-lo em mais uma discussão sobre PT e bolsonarismo. Esse tema ajuda, em tese, a explicar o espaço que ele ganhou entre as mulheres. A Quaest registra a mudança no voto. A relação com as bets é uma interpretação política desse movimento.

Há, evidentemente, cálculo no calendário. O governo escolheu agir às vésperas da eleição diante de um problema que não começou agora. A oportunidade eleitoral da medida não impede que ela tenha encontrado receptividade. Pode até explicar a pressa. Para Lula, o resultado mais valioso não seria apenas reforçar o apoio de quem já votaria nele, mas entrar na conversa de famílias nas quais ainda havia votos em disputa.

Fé

A outra conversa da semana ocorreu no terreno religioso. No primeiro turno, Lula foi de 43% para 48% entre católicos, aponta a Quaest. Flávio também oscilou para cima nesse grupo, de 27% para 29%, mas a distância entre os dois aumentou de 16 para 19 pontos. Numa disputa direta, de segundo turno, Lula passou de 46% para 50% entre católicos, enquanto Flávio permaneceu com 37%.

Entre os evangélicos, Flávio continua à frente. Ainda assim, a Quaest mostra sua vantagem menor. No primeiro turno, Lula subiu de 23% para 27% e Flávio caiu de 49% para 46%. A diferença recuou de 26 para 19 pontos. No segundo turno, Flávio foi de 58% para 54%, enquanto Lula passou de 28% para 30%. Uma liderança de 30 pontos virou uma liderança de 24. Perto da eleição, perder terreno no eleitorado em que se esperava mais segurança tem peso político.

A polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida deu a Lula uma oportunidade de disputar essa conversa. O presidente cresceu entre católicos e também avançou entre evangélicos, segundo a Quaest. As entrevistas ocorreram de 24 a 27 de setembro, em meio à repercussão do episódio. Flávio acabou discutindo o tema fé em posição de defesa, enquanto Lula encontrou mais uma forma de alcançar eleitores além dos seus apoiadores habituais.

A polêmica sobre Nossa Senhora explica o crescimento de Lula entre os católicos. Mas e os evangélicos? Esses podem ter simpatizado mais com o presidente após a decisão de proibir as bets. O jogo é mal visto pelos fiéis e a campanha lulista fez questão de anexar a proibição com propagandas que mostram o ex-ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, defendendo a liberação das empresas de apostas.

Reação

Flávio não saiu derrotado da pesquisa. Cresceu um ponto no primeiro turno, chegou a 34% e segue empatado com Lula no segundo. Mas passou os últimos dias respondendo à medida contra as bets e à polêmica religiosa, justamente quando o adversário avançou entre mulheres, católicos e evangélicos. Lula conseguiu levar a campanha para dentro de conversas familiares que Flávio não escolheu. O bolsonarista virou passageiro.

O debate da Globo, nesta semana, será a chance de Flávio sair das cordas, recuperar a iniciativa e falar dos assuntos que lhe interessam. Ou Lula pode dominar o cenário e ampliar o desgaste do adversário. A ver.

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Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem