Nunca se gastou tanto no Brasil faltando tão pouco para a eleição
O governo reúne renúncias subsídios compra de dívidas e perda de arrecadação num pacote cujo custo atravessa a votação presidencial de outubro
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Nunca na história desse país se gastou tanto com um pacote de bondades faltando tão pouco tempo para a eleição. Numa conta simplificada e bem conservadora, as medidas anunciadas e a proibição das bets já mobilizam cerca de R$ 40 bilhões em renúncias, subsídios, novas despesas, compra de dívidas, aportes em fundos garantidores e perda esperada de arrecadação.
E olha que, fora desse cálculo já consolidado, estão ainda a estimativa de quase R$ 80 bilhões em linhas de crédito público para empresas, habitação, caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativo. Também nem estamos contando aqui as canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde, cujo preço ainda não foi apresentado.
Calendário
O curioso também é o período. Em março vieram a redução de impostos e o subsídio ao diesel, além do Brasil Soberano. Em abril e maio apareceram o reforço para a habitação e os financiamentos destinados à renovação de veículos. E tudo ganhou outra velocidade quando setembro chegou e as pesquisas passaram a mostrar uma eleição nacional apertada. Aí a coisa acelerou.
O Bolsa Família foi reajustado em 15% a 17 dias do primeiro turno. O governo passou mais de três anos dizendo que o aumento não era necessário e enviou ao Congresso o Orçamento de 2027 sem reservar dinheiro para ele. Mudou de posição quando Lula percebeu que poderia perder a eleição no início do mês. Depois vieram o pedido para oferecer canetas emagrecedoras pelo SUS, a preparação de uma ofensiva contra as bets e o Desenrola 3.0.
A obesidade, o superendividamento, o vício em apostas e a perda do poder de compra não surgiram em setembro. O que chegou em setembro foi o calor da possibilidade de uma derrota na eleição.
A conta dos R$ 40 bilhões reúne aproximadamente R$ 4 bilhões que deixarão de ser arrecadados com o diesel, até R$ 10 bilhões em subsídios ao combustível, quase R$ 6 bilhões do aumento do Bolsa Família ainda neste ano, R$ 15 bilhões para a compra de dívidas pelo Desenrola, R$ 2 bilhões para reforçar um fundo garantidor e cerca de R$ 3 bilhões que podem deixar de entrar nos cofres públicos no último trimestre com a proibição das bets.
No caso das apostas, trata-se de uma estimativa, não de um fato consumado. A Fazenda calcula uma perda anual de R$ 12 bilhões. O número parece conservador diante dos R$ 9,9 bilhões arrecadados pelo setor de jogos e apostas somente entre janeiro e agosto.
Nem todo esse dinheiro será necessariamente perdido. Todo ele, porém, representa recurso público comprometido, receita abandonada ou risco assumido.
Dívidas
O Desenrola 3.0 é o retrato mais curioso dessa engenharia eleitoral. A União pretende gastar R$ 15 bilhões para comprar dos bancos R$ 150 bilhões em dívidas antigas. O desconto de 90% parece uma oportunidade extraordinária até que se faça uma pergunta simples. Por que as instituições financeiras aceitam vender essas carteiras por apenas 10% do valor?
A resposta está na reduzida expectativa de receber. São dívidas vencidas há dois anos ou mais, algumas próximas de completar quatro anos e meio. Os bancos transformam créditos deteriorados em dinheiro e transferem ao poder público o trabalho e o risco da cobrança. Se a recuperação for pequena, o contribuinte terá comprado o prejuízo que o sistema financeiro já não queria carregar.
O histórico recomenda cautela. Cerca de 30% das operações renegociadas por meio de novos parcelamentos na edição anterior já apresentavam prestações atrasadas em setembro. O novo programa pode aliviar famílias endividadas, mas também pode oferecer aos bancos uma saída financiada pelo Tesouro para créditos de difícil recuperação.
Reeleição
A reeleição entrega ao presidente uma vantagem que nenhum adversário possui. Enquanto os concorrentes oferecem promessas, quem ocupa o Planalto pode reajustar benefícios, liberar financiamentos e produzir vantagens concretas. Governa e faz campanha com a mesma caneta. E o TSE parece estar ocupado em contar carneirinhos.
O instituto da reeleição premia a irresponsabilidade com prazo marcado. O benefício político chega antes da votação. Mas o custo fiscal só aparece no exercício seguinte. A repetição desse expediente por outros presidentes, como Dilma e Bolsonaro, não absolve quem o utiliza agora. Apenas mostra como a reeleição brasileira estimula o ocupante do cargo a transformar o último ano de governo numa operação de permanência no poder. E o quanto isso custa caro.
Fatura
O reajuste do Bolsa Família ajuda a entender o tamanho do compromisso. O custo é de quase R$ 6 bilhões nos três últimos meses de 2026. Em 2027, serão R$ 22,7 bilhões adicionais. Uma proibição total das bets retiraria mais R$ 12 bilhões por ano da arrecadação, segundo a estimativa da Fazenda.
Somadas, apenas essas duas decisões abririam uma pressão de R$ 34,7 bilhões sobre as contas de 2027. O projeto de Orçamento enviado ao Congresso para o ano que vem prometia um superávit de R$ 18,6 bilhões. O custo adicional seria quase duas vezes todo o resultado positivo que o governo dizia pretender entregar antes de a situação eleitoral apertar.
Essa diferença terá que aparecer em algum lugar. Pode vir por meio de cortes em outras áreas, novos impostos, mudança da meta fiscal ou aumento da dívida. Os financiamentos favorecidos também ocupam recursos que poderiam ter outras destinações. Fundos garantidores poderão ser acionados. As canetas no SUS poderão criar outra despesa permanente. O Desenrola poderá devolver menos dinheiro do que custou.
Lula pode até conseguir transformar dinheiro público em voto. Mas não conseguirá fazer a conta desaparecer depois da urna. A campanha termina agora. A prestação vence em 2027. E todos vamos pagar. Seja quem for o eleito.