Escala 6x1 vira bandeira eleitoral enquanto a renda do trabalhador some
O fim da escala 6x1 virou busca desesperada por votos na mesma esquerda que está há décadas no poder e não conseguiu melhorar a renda do trabalhador.
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Perto da eleição, a escala 6x1 virou "escravidão". Pelo menos, essa é a palavra escolhida por parte da esquerda brasileira para defender o fim da jornada em que o trabalhador tem um dia de folga depois de seis trabalhados. A indignação seria mais convincente se não tivesse despertado justamente quando os votos desses trabalhadores se tornaram valiosos. Às vésperas do pleito.
O PT comandou o país durante a maior parte deste século. Teve tempo, apoio no Congresso, bases sindicais e aprovação popular para enfrentar o assunto. Durante todos esses anos, porém, a escala 6x1 nunca foi tratada como uma violação urgente que precisava ser abolida. E olha que era o Partido dos Trabalhadores. Imagine se fosse o "Partido dos Patrões".
A insatisfação de quem vive essa rotina é legítima. Trabalhar seis dias, passar horas num transporte precário e receber um salário baixo torna a vida sufocante. O que é oportunista é transformar essa realidade em palavra de ordem eleitoral sem explicar por que a suposta "libertação" foi adiada por tanto tempo e nem como a mudança será sustentada sem sacrificar empregos e pequenas empresas.
Campanha
Seria possível discutir a redução gradual da jornada, as peculiaridades de cada setor, os ganhos de produtividade e os mecanismos para proteger micro e pequenas empresas. Isso exigiria cálculos, transição e negociação. Numa eleição, porém, é mais útil chamar a escala de "escravidão" e apresentar-se como "libertador". Coisa de quem precisa de palavras de ordem porque não sabe conversar.
A esquerda colocou o debate em termos morais porque a moralização dispensa explicações. Se de um lado estão os "escravizados" e do outro os "escravizadores", quem pergunta como a conta será paga passa automaticamente a ser vilão. É uma maneira conveniente de impedir a discussão sobre as consequências econômicas da proposta.
Uma alegoria paralela seria a do sujeito que diz que pode voar saltando sem equipamentos de um prédio e, quando é questionado sobre se esborrachar no chão, grita que o questionador é um "usurpador de sonhos". A diferença é que na alegoria acima somente o lunático se machuca. Na realidade é diferente.
Existem setores que não podem simplesmente fechar as portas no sétimo dia. Hospitais, supermercados, bares, restaurantes, farmácias, shoppings e diversos serviços funcionam continuamente. Reduzir a jornada sem aumento de produtividade exigirá novas contratações, reorganização das escalas ou diminuição das atividades. Grandes empresas podem absorver parte do custo. O pequeno empresário, que já luta para sobreviver, pode ter de aumentar preços, informalizar relações ou fechar as portas.
Renda
Em Pernambuco, dados da PNAD apontam que mais de 80% dos trabalhadores recebem até dois salários mínimos. É uma realidade brutal num estado em que a renda das famílias é espremida pelo aluguel, pela alimentação, pelo transporte, pela energia e pelos demais custos básicos.
O trabalhador pernambucano não está apertado apenas pela escala. Está contorcido e espremido pela renda. Ter mais tempo para descansar é importante, mas o dia livre não paga o aluguel nem enche a geladeira. Se a jornada for reduzida sem um ambiente econômico capaz de sustentar a mudança, o risco é que parte da população ganhe mais descanso no desemprego ou na informalidade. Isso é bom?
É justamente neste ponto que o discurso da esquerda revela sua maior contradição. Durante décadas, prometeu melhorar a vida dos trabalhadores enquanto os governos contribuíam para dificultar a vida das empresas nas quais esses trabalhadores ganham seus salários. Impostos, burocracia, crédito caro, insegurança jurídica e baixa produtividade sufocam quem empreende e limitam a capacidade de pagar melhor.
Armadilha
A recente decisão do governo Lula de derrubar a Taxa das Blusinhas expõe a incoerência. O comércio e a indústria brasileiros pagam impostos, cumprem obrigações trabalhistas e geram empregos aqui, mas voltarão a enfrentar produtos estrangeiros que entram no país com vantagem tributária. A medida é popular entre os consumidores, especialmente às vésperas da eleição, mas transfere a conta para a empresa nacional e para o trabalhador que depende dela.
O governo promete proteger o empregado enquanto enfraquece o empregador. Exige melhores salários e jornadas menores, mas eleva o custo de produzir, estimula a concorrência em condições desiguais e não apresenta um plano consistente para aumentar a produtividade. É um modelo que trata a empresa como inimiga até o dia em que ela fecha e deixa seus funcionários na rua.
E aí o Estado amplia os programas de transferência de renda, fundamentais para evitar a fome e a miséria extrema, mas não constrói portas de saída satisfatórias. O resultado é uma armadilha perversa. O trabalho formal paga tão pouco que, descontados transporte, alimentação, tempo e cuidados com os filhos, passa a competir com benefícios governamentais que não exigem o mesmo sacrifício.
A culpa não é do trabalhador que faz essa conta. É de um país que desvalorizou o trabalho a ponto de fazer um emprego deixar de ser um caminho evidente de ascensão social. O auxílio, que deveria funcionar como proteção temporária ou complemento de renda, torna-se necessidade permanente porque a economia não consegue oferecer salários suficientes.
Tragédia
O Brasil criou um ambiente econômico de caos. Paga mal, tributa mal, gasta mal e agora tenta resolver as contradições acumuladas com um slogan eleitoral. A mesma política que fracassou em valorizar o trabalho quer convencer o trabalhador de que seu maior inimigo é a escala e de que uma folga semanal a mais será suficiente para devolver sua dignidade.
O fim da escala 6x1 pode até ser um avanço, desde que seja discutido com responsabilidade, transição, diferenças setoriais e proteção aos empregos. O que não pode ser aceito é que aqueles que governaram o país durante tanto tempo se comportem como se tivessem acabado de descobrir o trabalhador brasileiro.