Cena Política | Análise

Única vantagem de Lula esbarra na aprovação e no escândalo do Master

Com baixa aprovação e pressionado pelo caso Master e por suspeitas sobre o filho, presidente não cresce e empata com Flávio no segundo turno

Por Igor Maciel Publicado em 07/09/2026 às 19:12

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Lula (PT) chegou ao período da campanha em que ocupar a Presidência deveria ajudá-lo com maior intensidade por causa da vantagem da incumbência. Não está funcionando.

A propaganda eleitoral no rádio e na televisão começou, o governo ganhou uma vitrine nacional para apresentar entregas e faltam cerca de 30 dias para a votação. Mesmo com todos esses instrumentos disponíveis, o impulso esperado ainda não apareceu.

A nova pesquisa Quaest reforça essa análise e mostra Lula com 36% das intenções de voto no primeiro turno, contra 29% de Flávio Bolsonaro (PL). Parece bom, mas é ilusão. A liderança de sete pontos desaparece quando a disputa é reduzida aos dois. No segundo turno, ambos têm 41%. Pela primeira vez desde março, o instituto registra empate também nos números, além da igualdade técnica determinada pela margem de erro.

No segundo turno, Flávio recebe votos de todos os outros candidatos à direita. E iguala tudo. Os adversários do primeiro turno estão se transformando em "reservatórios" bolsonaristas para o segundo turno.

Impulso

A ciência política identifica vantagens estruturais associadas à incumbência. O candidato que governa possui exposição permanente, capacidade de apresentar realizações, maior domínio da agenda pública e condições de transformar entregas administrativas em argumentos eleitorais. O horário eleitoral amplia essa oportunidade porque chama a atenção de uma parcela do eleitorado que ainda acompanhava a campanha a distância.

Essas vantagens, porém, precisam encontrar um ambiente favorável para produzir votos. A incumbência oferece os instrumentos, enquanto a aprovação permite utilizá-los eleitoralmente. Quando o governo é bem avaliado, obras, programas e entregas reforçam a escolha pela continuidade. Quando a avaliação é baixa, a mesma exposição também amplia a cobrança. O segundo caso é o de Lula.

O petista aparece na propaganda como candidato e como responsável pela situação atual do país. Cada promessa encontra a pergunta sobre o que ele fez durante o mandato. Cada entrega é confrontada com a experiência concreta do eleitor diante dos preços, da renda. Onde nada anda muito bem.

Contaminação

A baixa aprovação não é a única dificuldade do presidente. O escândalo do Banco Master e as revelações envolvendo Alexandre de Moraes acrescentaram uma crise institucional ao ambiente eleitoral. Lula não aparece diretamente envolvido nos fatos, mas pode sofrer consequências produzidas pela associação política construída por seus adversários.

Parte do eleitorado considera Moraes um aliado de Lula. Flávio trabalha para fortalecer essa percepção e transformar o desgaste do ministro em rejeição ao presidente. Ao juntar Lula, Moraes e Supremo numa mesma narrativa, a oposição tenta convencer o eleitor de que a continuidade do governo também representaria a preservação de uma estrutura de poder questionada pelo caso Master.

A nova Quaest foi a primeira do instituto realizada inteiramente depois do agravamento da crise entre Moraes e André Mendonça. Os números não permitem afirmar que o episódio causou a oscilação de Lula. Permitem constatar que a controvérsia surgiu num momento em que o presidente precisava crescer e, até agora, não cresceu.

A proximidade com Moraes pode cobrar de Lula uma conta por acontecimentos que não nasceram dentro do governo. Qualquer defesa, feita pelo presidente petista, da estabilidade democrática e do funcionamento do Supremo corre o risco de ser apresentada pela oposição como "proteção pessoal e apoio a Moraes". Em campanha, uma associação percebida pelo eleitor pode ter peso mesmo sem corresponder a uma aliança formal.

Isso tudo sem falar no filho, Lulinha, sobre quem uma investigação de suposto tráfico de influência segue pronta para voltar à pauta e chamuscar ainda mais a tentativa de crescimento do candidato à reeleição.

Relógio

Lula ainda tem tempo para colher as vantagens da incumbência. A propaganda eleitoral está no início, e aproximadamente um mês de campanha pode alterar o cenário. A dificuldade é que o presidente precisa fazer três movimentos ao mesmo tempo: melhorar a avaliação do governo, transformar entregas em votos e impedir que o desgaste do Supremo seja incorporado à sua candidatura.

A Presidência dá a Lula um grande carro de som, mas o auto-falante amplifica realizações e também frustrações. Até agora, a exposição não produziu o impulso eleitoral esperado de um candidato à reeleição. Com a aprovação baixa, a crise do Master avançando sobre o debate público e o segundo turno empatado, Lula já não pode esperar que a vantagem da incumbência apareça naturalmente.

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Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem