Mendonça transforma candidatura independente em vantagem eleitoral
Deputado apoia Raquel, vota em Flávio e se aproxima de Carlos Sant’Anna para transformar uma composição informal em força eleitoral
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Mendonça Filho (PL) escolheu a coragem para explicar por que abandonou uma reeleição considerada segura para deputado federal e decidiu disputar o Senado. Durante sabatina no Passando a Limpo, da Rádio Jornal, afirmou que identificou um espaço vazio na direita liberal e respondeu a um "chamamento" que encontrou nas ruas de Pernambuco.
A candidatura foi construída para ocupar esse espaço sem depender de uma única composição. Mendonça apoia Raquel Lyra (PSD), embora não seja um dos candidatos escolhidos pela governadora. Declara voto em Flávio Bolsonaro (PL), aproxima-se de Carlos Sant’Anna (Novo) para o segundo voto e busca reunir liberais, conservadores e eleitores satisfeitos com a gestão estadual.
É uma operação eleitoral complexa. Exige administrar relações que não se encaixam numa chapa convencional, mas Mendonça tem experiência, identidade política e capacidade de articulação para fazê-la funcionar na teoria. Sua trajetória permite apresentar a independência como escolha e a ausência na chapa oficial como oportunidade para alcançar um eleitorado que talvez não se sentisse representado pelas composições já formadas. Precisa ver como isso vai se dar na prática dos votos.
Coragem
Mendonça afirmou na sabatina que honestidade é obrigação e que capacidade de articulação e negociação são importantes, mas escolheu a coragem como virtude indispensável a um homem público. Foi assim que justificou a entrada numa disputa mais difícil e o abandono de uma candidatura proporcional com maiores condições iniciais de vitória.
A mesma palavra reapareceu quando a sabatina chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Mendonça garantiu que exercerá as prerrogativas do Senado, afirmou que nenhum ministro está acima da Constituição e disse não ter dúvidas de que atualmente existem fundamentos para a abertura de um processo de impeachment.
Quando solicitado a identificar o ministro, o crime de responsabilidade e os fatos que sustentariam essa avaliação, preferiu não dar nomes. Disse apenas que a situação seria “óbvia” e que o assunto deverá ser enfrentado pelo próximo Senado.
A cautela pode ser compreendida como a decisão de não antecipar um julgamento antes de conhecer formalmente um pedido e suas provas. Mendonça, porém, foi além da defesa abstrata da fiscalização. Afirmou que já existem fundamentos para um impeachment.
O candidato poderá preencher esse espaço durante a campanha. Se pretende apresentar-se como senador disposto a recuperar as prerrogativas do Legislativo, terá oportunidade de explicar quais limites considera ultrapassados pelo Supremo, quem os ultrapassou e em que momento uma divergência institucional se transforma em crime de responsabilidade.
Camisa
A relação com Raquel também exigiu uma explicação menos convencional. Mendonça fez questão de reconstruir uma longa história de apoio à governadora. Esteve com ela na primeira eleição para a Prefeitura de Caruaru, voltou a apoiá-la na reeleição, fez dobradinha em 2014 e aderiu à sua candidatura no segundo turno de 2022. Durante os momentos mais difíceis do atual governo, permaneceu ao seu lado.
A relação ganhou até uma representação material. Mendonça contou que criou e entregou a camisa do “Raquel Lyra Futebol Clube”, posteriormente incorporada à comunicação dos aliados. Ele veste essa camisa, mas não foi escalado pela própria governadora para a chapa oficial.
Raquel declarou publicamente que Mendonça não é candidato de seu grupo. Ele reduziu a divergência a um componente legal e burocrático da acomodação partidária. Argumentou que a governadora precisava do apoio da federação União Progressista e que isso determinou a composição das vagas ao Senado.
Mendonça procura transformar a falta de reciprocidade numa demonstração de lealdade. Apoia Raquel sem exigir que ela faça o mesmo e promete ajudá-la em Brasília se for eleito. A estratégia pode funcionar porque lhe concede liberdade para defender o governo estadual sem ficar submetido a todas as escolhas da chapa governista.
Também permite que dialogue diretamente com eleitores de Raquel insatisfeitos com as opções oficiais para o Senado. Sua experiência e o histórico construído com a governadora oferecem elementos para sustentar essa aproximação. Caberá à campanha convencer o eleitor de que a ausência na chapa é consequência das circunstâncias partidárias e não uma medida da importância que Raquel atribui à sua candidatura. Mais uma vez, a teoria fica à espera dos resultados práticos.
Campo
No plano presidencial, Mendonça anunciou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), confirmou que pretende recebê-lo em Pernambuco e defendeu que uma eventual anistia relacionada aos processos do 8 de janeiro alcance Jair Bolsonaro (PL). Sua vinculação ao campo da direita não ficou submetida à neutralidade presidencial adotada por Raquel.
Surge, assim, uma espécie de chapa informal. Raquel é a candidata ao governo que Mendonça deseja reeleger. Flávio representa sua escolha para presidente. Carlos aparece como parceiro ideológico para o Senado. Mendonça tenta ocupar o centro dessa combinação como o nome capaz de unir experiência administrativa, identidade liberal e trânsito no governo estadual.
O arranjo tem lógica eleitoral. Permite que Raquel preserve a composição oficial e sua neutralidade nacional, enquanto Mendonça conversa com o eleitor conservador de maneira direta. Também oferece a ele uma posição própria, sem romper com a governadora nem se limitar ao papel de mais um candidato do bolsonarismo.
Administrar todas essas relações não será simples, mas está longe de ser impossível. Mendonça já ocupou diferentes cargos, participou de alianças amplas e atravessou mudanças importantes no campo político ao qual pertence. Agora tenta transformar essa experiência em vantagem para disputar o Senado por mais de uma entrada. A campanha começa independente por necessidade, mas pode ganhar força justamente pela liberdade que essa condição lhe concede.