Cena Política | Análise

Túlio tenta construir uma ponte eleitoral entre Lula e Raquel Lyra

Candidato sustenta que o presidente admira a governadora e apresenta o peso do PSD no Congresso como base para aproximar os dois palanques.

Por Igor Maciel Publicado em 28/08/2026 às 10:33

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Túlio Gadêlha (PSD) encontrou uma definição para apresentar sua candidatura ao Senado: será a ponte entre Lula (PT) e Raquel Lyra (PSD). Durante sabatina no Passando a Limpo, da Rádio Jornal, afirmou ter a confiança do presidente, proximidade com a governadora e condições de utilizar essas relações para levar investimentos e recursos federais a Pernambuco.

A ideia oferece um lugar próprio a Túlio na eleição. Ele não pretende ser apenas um dos candidatos da chapa de Raquel. Quer representar Lula dentro de um palanque que concorre diretamente com os candidatos apoiados pelo presidente. A dificuldade está nas duas extremidades dessa construção. Lula pede votos para Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT), integrantes da chapa de João Campos (PSB). Raquel, por sua vez, decidiu não declarar voto para presidente.

Túlio tenta ocupar o espaço entre essas duas posições. Sua campanha procura convencer o eleitor de que o apoio oficial de Lula a João não resume a relação do presidente com Pernambuco. Para isso, o candidato recorre à história que construiu ao lado do petista, às conversas que manteve com ele e ao peso do PSD dentro da base do governo no Congresso.

Ponte

Túlio afirmou que esteve com Lula nos momentos mais difíceis de sua trajetória. Lembrou que permaneceu ao lado dele antes da prisão, participou de agendas nacionais e internacionais e ajudou a aprovar projetos de interesse do governo na Câmara. Com Raquel, a relação política vem desde a eleição de 2022, quando contrariou a posição da esquerda tradicional e apoiou a então candidata ao governo contra Marília.

Segundo o candidato, foi essa combinação que levou Raquel a convidá-lo para disputar o Senado. A governadora teria identificado nele alguém capaz de conversar com o Planalto, ajudar a destravar grandes obras e ampliar os investimentos federais no estado. Túlio considera que pode fazer essa articulação sem se submeter inteiramente a qualquer dos lados.

Há credenciais para o diálogo, mas a ponte eleitoral ainda é uma proposta do próprio candidato. Lula não pediu votos para Túlio nem para Raquel. A governadora também não aderiu publicamente à candidatura presidencial do petista. Os dois mantêm uma relação institucional que interessa a Pernambuco, mas seguem em palanques diferentes.

Questionado sobre como poderia ser o “senador de Lula” quando o presidente apoia seus adversários, Túlio ajustou a definição. Disse ser o senador do povo pernambucano, escolhido por Raquel e aliado de Lula. A mudança preserva sua relação com o presidente sem reivindicar uma representação que Lula entregou oficialmente a Humberto e Marília.

Empolgação

A tentativa de separar apoio formal e preferência política apareceu quando Túlio falou sobre o vídeo gravado por Lula para João Campos. O candidato havia afirmado que o presidente demonstrou “falta de empolgação”. Na sabatina, explicou que Lula gosta de Raquel, admira seu trabalho e reconhece nela uma governadora que atua em favor dos mais pobres.

Túlio enumerou ações da gestão estadual na habitação, no combate à fome, no abastecimento de água e na geração de empregos. Também disse ter ouvido elogios de Lula à governadora em conversas mantidas ao longo dos últimos anos. A falta de entusiasmo com João significaria, portanto, que o compromisso eleitoral do presidente não elimina sua afinidade administrativa com Raquel.

É uma interpretação conveniente para o projeto de Túlio. Como não dispõe do apoio público de Lula à chapa governista, ele oferece ao eleitor seu conhecimento sobre o que o presidente pensa e sente. O apoio a João seria a decisão formal. A admiração por Raquel representaria uma proximidade capaz de sustentar futuras parcerias.

Essa leitura pode atrair o eleitor lulista que aprova a governadora, mas depende da palavra do próprio candidato. Lula já tornou pública sua escolha eleitoral em Pernambuco. A preferência afetiva e administrativa descrita por Túlio ainda não foi transformada pelo presidente em apoio político a Raquel.

Utilidade

Túlio apresentou outro argumento para demonstrar que seu palanque também pertence à base de Lula. Segundo ele, o PSD entrega ao governo mais de 30 votos, em média, nas matérias de interesse do Planalto e oferece uma contribuição superior à do PSB na Câmara.

A comparação altera o critério da disputa. João possui o apoio eleitoral do presidente, mas Raquel pertence a uma legenda com maior capacidade de garantir governabilidade. O PSB aparece com Lula na campanha; o PSD, na explicação de Túlio, seria mais útil a Lula no Congresso.

O candidato também afirmou que sua permanência ao lado do presidente foi uma condição para ingressar no PSD e disputar o Senado. Gilberto Kassab teria aceitado essa posição porque comanda um partido amplo, capaz de abrigar diferentes correntes e ao mesmo tempo participar da sustentação do governo federal.

A contabilidade parlamentar ajuda Túlio a demonstrar que não rompeu com Lula ao mudar de partido e integrar a chapa de Raquel. Ainda assim, votos entregues pelo PSD no Congresso não equivalem automaticamente a uma escolha do presidente para o governo de Pernambuco.

A candidatura de Túlio depende de ele convencer o eleitor de que Lula está formalmente com João, mas poderá governar melhor com Raquel. Que o presidente apoia Humberto e Marília, mas precisa de um senador eleito no palanque que não abraça a esquerda. Só assim Túlio poderá ocupar o espaço político que identificou. Caso contrário, a ponte continuará existindo apenas no discurso de quem pretende construí-la. E isso não se transforma em voto. É possível, mas fácil não é.

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Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem