Cena Política | Notícia

Lula demorou a preparar futuro e escolheu pior hora pra falar no assunto

Ao citar Haddad como possível herdeiro, Lula abriu espaço para dúvidas sobre sua permanência justamente quando tenta vender continuidade ao eleitor.

Por Igor Maciel Publicado em 03/08/2026 às 20:00

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Na convenção do PT no Ceará, um repentista fez o que repentistas fazem. Improvisou. Ao elogiar Camilo Santana (PT), apresentou o senador como "futuro presidente da República". A homenagem produziu uma gafe política que incomodou Lula (PT). Camilo, um dos nomes possíveis para o ainda distante pós-Lula, foi colocado cedo demais diante do homem que ainda pretende continuar no cargo.

Na sequência, na convenção nacional do PT que oficializava o atual presidente como candidato à reeleição, o líder petista dirigiu-se a Fernando Haddad e disse imaginar "o país que entregaria quando o ex-ministro chegasse à Presidência no futuro". Em seguida, para dar aparência de gafe, citou possíveis sucessores em outros estados genericamente.

Lula tentou pagar uma indiscrição com outra, mas sabia o que estava fazendo e já havia aberto a porteira.

Hora

O presidente demorou muito para começar a preparar a própria sucessão. Isso deveria estar sendo discutido internamente há anos. Mas Lula resolveu falar sobre ela na hora errada. O PT depende dele há décadas, já sofreu quando precisou improvisar uma candidatura em 2018 (o próprio Haddad) e continua sem uma liderança capaz de reunir, sozinha, o partido, a esquerda e a ampla frente exigida por uma eleição presidencial.

Pensar no futuro não é precipitação. A precipitação está em anunciar o futuro exatamente quando ele próprio se prepara para pedir ao eleitor mais quatro anos de mandato.

Uma campanha de reeleição precisa transmitir força, disposição e domínio do próximo ciclo. O candidato vende continuidade e espera que o eleitor compre o futuro pelo preço do presente. Quando Lula começa a apontar no presente quem poderá receber o bastão no futuro enfraquece a confiança das pessoas de que ele está firme para mais um ciclo e introduz no debate perguntas que não ajudam sua campanha: em que momento será necessário parar? Ele fica até o fim de mais quatro anos?

Relógios

Há dois relógios funcionando dentro do PT. O relógio partidário está atrasado. Ele avisa que a organização precisa discutir o que fará quando Lula não estiver disponível para arbitrar disputas, escolher candidatos e organizar alianças. O relógio eleitoral, porém, recomenda silêncio. A campanha ainda precisa apresentar Lula como solução para os próximos quatro anos, não como o líder que começa a distribuir papéis porque "já vai sair de cena".

Os dois relógios marcam horas diferentes porque obedecem a necessidades opostas. O partido precisa reduzir sua dependência. O candidato precisa demonstrar que continua indispensável. A fala sobre Haddad resolve parcialmente a primeira questão e cria dificuldades para a segunda.

Não significa que o eleitor vá abandonar Lula porque ouviu o nome de um sucessor. O risco é mais sutil. A oposição ganha material para associá-lo ao encerramento de uma trajetória. Os aliados começam a calcular posições no futuro. Os possíveis herdeiros passam a ser comparados. E uma campanha que deveria discutir o novo mandato abre espaço para especulações sobre o mandato seguinte.

Improviso

O repentista cearense talvez tenha apenas rimado o entusiasmo da plateia. Ainda assim, seu improviso expôs o assunto que o PT adiou por tempo demais. Ao reagir, Lula não encerrou a conversa. Deu a ela dimensão nacional.

E o poeta, coitado, tentando ajudar seu conterrâneo cearense, pode ter tirado dele as chances de ser indicado sucessor do atual presidente em um futuro que o eleitor agora vai ficar se perguntando se é próximo ou não.

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Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem