Lula demorou a preparar futuro e escolheu pior hora pra falar no assunto
Ao citar Haddad como possível herdeiro, Lula abriu espaço para dúvidas sobre sua permanência justamente quando tenta vender continuidade ao eleitor.
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Na convenção do PT no Ceará, um repentista fez o que repentistas fazem. Improvisou. Ao elogiar Camilo Santana (PT), apresentou o senador como "futuro presidente da República". A homenagem produziu uma gafe política que incomodou Lula (PT). Camilo, um dos nomes possíveis para o ainda distante pós-Lula, foi colocado cedo demais diante do homem que ainda pretende continuar no cargo.
Na sequência, na convenção nacional do PT que oficializava o atual presidente como candidato à reeleição, o líder petista dirigiu-se a Fernando Haddad e disse imaginar "o país que entregaria quando o ex-ministro chegasse à Presidência no futuro". Em seguida, para dar aparência de gafe, citou possíveis sucessores em outros estados genericamente.
Lula tentou pagar uma indiscrição com outra, mas sabia o que estava fazendo e já havia aberto a porteira.
Hora
O presidente demorou muito para começar a preparar a própria sucessão. Isso deveria estar sendo discutido internamente há anos. Mas Lula resolveu falar sobre ela na hora errada. O PT depende dele há décadas, já sofreu quando precisou improvisar uma candidatura em 2018 (o próprio Haddad) e continua sem uma liderança capaz de reunir, sozinha, o partido, a esquerda e a ampla frente exigida por uma eleição presidencial.
Pensar no futuro não é precipitação. A precipitação está em anunciar o futuro exatamente quando ele próprio se prepara para pedir ao eleitor mais quatro anos de mandato.
Uma campanha de reeleição precisa transmitir força, disposição e domínio do próximo ciclo. O candidato vende continuidade e espera que o eleitor compre o futuro pelo preço do presente. Quando Lula começa a apontar no presente quem poderá receber o bastão no futuro enfraquece a confiança das pessoas de que ele está firme para mais um ciclo e introduz no debate perguntas que não ajudam sua campanha: em que momento será necessário parar? Ele fica até o fim de mais quatro anos?
Relógios
Há dois relógios funcionando dentro do PT. O relógio partidário está atrasado. Ele avisa que a organização precisa discutir o que fará quando Lula não estiver disponível para arbitrar disputas, escolher candidatos e organizar alianças. O relógio eleitoral, porém, recomenda silêncio. A campanha ainda precisa apresentar Lula como solução para os próximos quatro anos, não como o líder que começa a distribuir papéis porque "já vai sair de cena".
Os dois relógios marcam horas diferentes porque obedecem a necessidades opostas. O partido precisa reduzir sua dependência. O candidato precisa demonstrar que continua indispensável. A fala sobre Haddad resolve parcialmente a primeira questão e cria dificuldades para a segunda.
Não significa que o eleitor vá abandonar Lula porque ouviu o nome de um sucessor. O risco é mais sutil. A oposição ganha material para associá-lo ao encerramento de uma trajetória. Os aliados começam a calcular posições no futuro. Os possíveis herdeiros passam a ser comparados. E uma campanha que deveria discutir o novo mandato abre espaço para especulações sobre o mandato seguinte.
Improviso
O repentista cearense talvez tenha apenas rimado o entusiasmo da plateia. Ainda assim, seu improviso expôs o assunto que o PT adiou por tempo demais. Ao reagir, Lula não encerrou a conversa. Deu a ela dimensão nacional.
E o poeta, coitado, tentando ajudar seu conterrâneo cearense, pode ter tirado dele as chances de ser indicado sucessor do atual presidente em um futuro que o eleitor agora vai ficar se perguntando se é próximo ou não.