João precisa criar desejo de mudança; Raquel, defender a continuidade
Quando as convenções do fim de semana se encerrarem, o principal desafio dos candidatos será oferecer ao eleitor razões para mudar ou permanecer.
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Quando as bandeiras das convenções forem recolhidas neste fim de semana, João Campos e Raquel Lyra entrarão na parte da disputa em que os palanques ficarão cada vez mais visíveis. A exposição crescerá semana após semana até chegar à urna. Nesse percurso, problemas que ainda parecem internos deixarão de interessar apenas aos partidos. Alianças mal resolvidas, candidatos caminhando separados e mensagens contraditórias começarão a aparecer também para o eleitor.
João chegará à segunda-feira com a chapa organizada, mas precisando reorganizar o voto. Raquel começará a semana eleitoralmente fortalecida, porém ainda terá de administrar as consequências da solução encontrada para acomodar os aliados. As convenções encerram a escolha dos nomes. Não garantem que todos caminharão no mesmo ritmo depois que deixarem o palco.
Visibilidade
Durante a pré-campanha, os desentendimentos podiam ser apresentados como parte natural das negociações. Cada grupo seguia na própria direção enquanto os dirigentes chamavam o movimento de construção coletiva. Depois das convenções, esse argumento perde validade. Divergência passa a parecer divisão. Ausência ganha significado. Silêncio de aliado vira notícia.
A partir de agora, as agendas serão mais frequentes, os candidatos precisarão circular juntos e os postulantes ao Senado terão de defender a mesma candidatura ao governo. Prefeitos e lideranças locais também serão chamados a demonstrar se o apoio anunciado existe fora das fotografias. Quanto maior a exposição, mais difícil esconder quem participa por inteiro, quem ajuda apenas o próprio candidato e quem sobe ao palanque porque ainda não encontrou uma desculpa aceitável para faltar.
Por isso, a organização desta segunda-feira importa tanto. Não adianta tentar montar o palanque quando todos já estiverem olhando para ele.
João
João Campos saiu de sua convenção com uma vantagem política evidente. A chapa foi definida antecipadamente, os partidos receberam seus espaços e a composição chegou ao ato sem uma disputa pública na reta final. Carlos Costa ocupa a vice como expressão da aliança com o Republicanos e com o grupo político de Silvio Costa Filho. Humberto Costa e Marília Arraes oferecem duas candidaturas conhecidas e competitivas ao Senado.
A unidade, porém, ainda precisa ser testada fora do Clube Internacional. Humberto e Marília possuem eleitorados, estruturas e projetos próprios. João terá de fazer com que as duas campanhas ao Senado trabalhem também por sua candidatura ao governo. Precisará cobrar do MDB, do Republicanos e das demais legendas presença efetiva nos municípios, inclusive onde lideranças dos partidos aliados mantêm relações políticas com Raquel.
É na relação com o eleitor que aparece seu problema mais urgente. João começou o ano como favorito quase incontestável e chegou à convenção numericamente atrás na Quaest. Em abril, tinha 42% contra 34% de Raquel. Em julho, passou a ter 37%, enquanto a governadora alcançou 43%. A eleição continua equilibrada, mas o movimento ocorrido no período não permite muito conforto.
João passou meses resolvendo o palanque enquanto Raquel resolvia sua relação com o eleitor. Agora precisará mostrar por que a experiência bem avaliada no Recife pode ser aplicada a um estado muito maior e desigual. Terá de ampliar a presença no interior, enfrentar a rede de prefeitos reunida pela governadora e apresentar uma razão concreta para o eleitor interromper um governo cuja avaliação melhorou significativamente nos últimos meses.
Lula será seu principal ativo nacional. Ainda assim, João precisará construir uma candidatura estadual que não dependa apenas do presidente, porque só isso não resolve. O apoio lulista ajuda a identificar o campo político, mas não responde sozinho por que Pernambuco deve trocar de governador. Se ele não conseguir responder isso, perderá a eleição.
Raquel
Raquel Lyra chega ao pós-convenção com o desafio inverso. A governadora recuperou votos, ampliou sua base municipal e mudou completamente o ambiente da eleição. Agora precisa impedir que a abundância de aliados produza mais ruído do que força.
Mesmo que a convenção venha a colocar um ponto final na novela da vaga ao Senado, sua repercussão permanecerá na segunda-feira (03). A escolha de um candidato significa a exclusão de outros que passaram meses mobilizando prefeitos, dirigentes e projetos em torno da própria pretensão. A convenção pode anunciar o vencedor. O trabalho seguinte será convencer os derrotados de que também receberam alguma coisa.
Raquel precisará acalmar quem não foi contemplado e evitar aquela dissidência mais difícil de fotografar, e por isso mais perigosa, aquela em que o aliado não rompe, mas também não trabalha. O abraço dado no palco valerá pouco se PP, União Brasil ou qualquer outro grupo envolvido na disputa decidir cuidar apenas dos próprios candidatos durante a campanha.
Também será necessário dar alguma coerência a uma aliança extensa. Raquel reúne setores lulistas, lideranças conservadoras, partidos de centro, o Novo e grupos que mantêm relações com o bolsonarismo. Essa amplitude oferece tempo, estrutura e prefeitos, mas obriga a campanha a explicar o que une todos eles além da vontade de derrotar o PSB.
No eleitorado, o desafio será consolidar a virada sem tratá-la como vitória antecipada. Raquel cresceu nove pontos na Quaest desde abril, sua aprovação chegou a 68% e a avaliação positiva do governo alcançou 45%. São números excelentes para quem esteve tão atrás durante boa parte da pré-campanha. Mas continuam sendo números de uma disputa apertada, com empate técnico, com indecisos e muita campanha pela frente.
Ela terá de demonstrar que a melhora do governo não nasceu apenas da proximidade eleitoral, defender as dificuldades dos primeiros anos e apresentar um projeto para o segundo mandato. Prefeitos ajudam a organizar o território, mas não transferem votos por decreto.
Percurso
João precisará transformar aliados satisfeitos em votos que ainda não possui. Raquel terá de transformar aliados contrariados em cabos eleitorais dispostos a ajudá-la. Um precisa provar que a unidade política consegue produzir reação eleitoral. A outra terá de impedir que a solução política prejudique a recuperação construída entre os eleitores.
A partir de segunda-feira, o palco será maior e a luz aumentará gradativamente até a urna. No começo do caminho, ainda é possível corrigir posições, acalmar aliados e combinar o passo. Depois, quando todos estiverem olhando, qualquer tropeço parecerá maior. E as convenções já não estarão disponíveis para reunir todo mundo novamente e fingir que nada aconteceu.