João e Raquel usam convenções para encenar força e esconder problemas
Grades, caminhada e discursos projetaram força, mas não resolveram os desafios que as duas candidaturas enfrentarão durante a campanha.
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João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) saíram de suas convenções oficialmente candidatos e ainda presos às perguntas que terão de responder até a urna sobre seus grupos, suas propostas e intenções. Ele precisa convencer Pernambuco de que o Estado deve mudar de governador. Ela precisa demonstrar que o trabalho iniciado merece continuar. Os dois produziram imagens eficientes para começar essa conversa, mas convenção é o lugar onde até os maiores problemas de articulação sobem ao palco fantasiados de união e força. É depois desse fim de semana, e com o prosseguimento da campanha, que a história toda é contada.
Grades
João escolheu uma imagem simples para definir a adversária. Prometeu retirar as grades instaladas ao redor do Palácio do Campo das Princesas e associou a estrutura a um governo distante, com medo do povo. No dia seguinte, Raquel respondeu sem pronunciar o nome dele. Saiu justamente do Palácio e caminhou com centenas de apoiadores pelas ruas do Recife Antigo até o local de sua convenção.
A ação e a reação anteciparam o tipo de campanha que vem pela frente. João tenta apresentar Raquel como uma governadora fechada no Palácio. Raquel procura demonstrar que essa personagem não corresponde à realidade. Ele promete abrir as portas. Ela aparece caminhando para fora delas.
As duas imagens funcionam, mas nenhuma oferece prova definitiva. Retirar grades não garante abertura política nem capacidade de diálogo. Fazer uma caminhada também não apaga as dificuldades de articulação enfrentadas pelo governo. Convenções são ótimas para produzir símbolos. Administrar Pernambuco exige um pouco mais que isso numa campanha.
Espelho
Os dois atos foram organizados como se uma candidatura precisasse responder à outra. João anunciou um “novo tempo”; Raquel defendeu o que já começou e ainda pretende concluir. O socialista apresentou Lula como seu grande parceiro nacional; a governadora colocou André de Paula e Túlio Gadêlha no palco para mostrar que também mantém canais com o governo federal. João recorreu ao legado de Eduardo Campos. Raquel preferiu recorrer às entregas de sua própria gestão.
Raquel também partiu para o ataque e tentou associar João ao passado, enquanto ele se apresenta como o nome do futuro. Em discurso, Priscila Krause reforçou essa linha. “O passado se apresenta de novo, se apresenta com roupa nova, se apresenta fantasiado de novo, mas o passado é o passado e vai ficar lá”, disparou a vice-governadora.
Riscos
Há riscos nos dois caminhos. João não pode construir uma candidatura estadual limitada à negação de Raquel. A governadora também não pode passar a campanha respondendo às provocações do adversário. Quem apenas reage aceita disputar a eleição dentro da pauta escolhida pelo outro.
O caso de Lula expõe bem esse limite. João tem o apoio declarado do presidente e apresentou sua chapa como o time dele em Pernambuco. Alckmin compareceu à convenção como representante do petista. A fotografia política está pronta. A agenda, nem tanto.
A tendência é Lula evitar uma participação direta na campanha estadual durante o primeiro turno. Pode declarar preferência por João e, ao mesmo tempo, assumir uma neutralidade prática em Pernambuco, preservando a relação institucional com Raquel e concentrando sua presença em disputas nacionais consideradas prioritárias.
Sem Lula no Estado, João terá de sustentar sozinho boa parte da diferença que tenta estabelecer entre seu palanque e o da governadora. Raquel, por sua vez, poderá mostrar obras, recursos e ministros como evidência da parceria com Brasília, embora isso não transforme Lula em seu aliado eleitoral. Um terá o apoio sem necessariamente contar com a presença. A outra terá a parceria sem poder reivindicar o apoio. Cada qual carregará apenas a metade que lhe convém.
Miguel
Raquel também saiu da convenção com a chapa fechada, mas o fim da novela não garante o desaparecimento de seus personagens. Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD) foram apresentados para o Senado depois de uma negociação que só terminou na véspera, com a desistência de Miguel Coelho (União).
O União Brasil reagiu e anunciou que defenderá a retirada da coligação majoritária. Juridicamente, porém, o partido tem pouco espaço para agir sozinho. União e PP integram uma federação, tratada pela legislação como uma única legenda. O PP detém o comando político do colegiado e tem condições de fazer prevalecer o apoio a Raquel na convenção marcada para o próximo dia 5.
Resolver a ata, porém, é mais fácil do que resolver o ressentimento. O União pode perder dentro da federação e continuar produzindo problemas fora dela. Aliados de Miguel podem reduzir o entusiasmo, rever palanques municipais ou abrir conversas com João. Também podem permanecer formalmente com Raquel, mas trabalhar com a animação de quem foi convidado para uma festa depois que a sobremesa já acabou.
João tentará aproveitar a fissura, naturalmente. Ainda assim, crise no palanque adversário cria oportunidade, não transfere votos por pix. O socialista precisará oferecer espaço e perspectiva às lideranças que eventualmente se afastarem da governadora.
Pendências
As convenções resolveram aquilo que cabia no palco. João apresentou uma chapa organizada, reuniu seus partidos e exibiu o apoio de Lula. Raquel apresentou uma base municipal ampla, defendeu suas entregas e concluiu a chapa.
As grades e a caminhada abriram a disputa com boas imagens. O dia 5 deverá resolver a situação formal da federação, mas dificilmente encerrará suas consequências políticas. Quando os palcos forem desmontados, João continuará precisando criar o desejo de mudança. Raquel continuará obrigada a justificar a continuidade. Nenhuma convenção, por maior que pareça, responde isso pelo eleitor.