Cena Política | Análise

Raquel mantém a liderança, mas a subida encontrou um estacionamento

Datafolha mostra que a governadora segue à frente, embora tenha parado de crescer enquanto João preserva a competitividade na disputa

Por Igor Maciel Publicado em 31/07/2026 às 19:54

Clique aqui e escute a matéria

Siga o JC no Google e acompanhe
tudo o que você precisa
Seguir no Google

Raquel Lyra (PSD) continua na liderança da disputa pelo Governo de Pernambuco, mas a trajetória de crescimento que a levou até lá parece ter encontrado um ponto de estacionamento. A nova pesquisa Datafolha mantém a governadora com 48% no primeiro turno, enquanto João Campos (PSB) oscila de 43% para 42%. Ela segue à frente, mas parou de crescer. É significativo para quem só tinha avançado até então.

O sinal aparece com mais clareza na simulação de segundo turno. Raquel passa de 51% para 49%, enquanto João vai de 44% para 45%. A distância entre os dois, que era de sete pontos, agora é de quatro. São oscilações dentro da margem de erro, insuficientes para afirmar que a governadora começou a cair ou que o prefeito iniciou uma reação. Mas suficientes para interromper a narrativa de que Raquel continuaria avançando a cada nova rodada. E o empate na margem de erro, é bom lembrar, também foi apontado na Quaest desta semana.

Freio

O resultado ainda é bom para a governadora. Ela lidera o primeiro turno, está numericamente à frente no segundo e mantém aprovação de 66%. O dado praticamente repete os 67% registrados em maio. A desaprovação, porém, oscila de 28% para 30%. Nada desabou. Nada disparou. Mas é uma novidade.

A pesquisa anterior havia consolidado a virada de Raquel depois de um longo período em que João apareceu como favorito. A governadora conseguiu transformar a melhora da avaliação administrativa em intenção de voto. Obras, anúncios, inaugurações e entregas davam material concreto à recuperação. O governo aparecia fazendo e a candidata colhia o resultado. Entre maio e julho, essa engrenagem perdeu velocidade.

Defeso

O defeso eleitoral, determinado pelo calendário do TSE, retirou de Raquel a vitrine das entregas. A governadora continua administrando, mas já não pode explorar inaugurações e ações oficiais como fazia antes. A imagem da gestora em movimento perdeu espaço para a candidata mergulhada na montagem da chapa.

Foi nesse ambiente que as discussões sobre as vagas ao Senado, as exigências dos partidos, os conflitos entre aliados e as ameaças de desembarque passaram a ocupar o noticiário. Raquel apareceu menos entregando obras e mais tentando organizar palanque. O segundo tipo de ação costuma produzir satisfação em um grupo muito menor.

O assunto é importante para a campanha. Uma aliança ampla garante tempo, estrutura, prefeitos, candidatos proporcionais e presença territorial. O problema é que o eleitor comum ainda não vive a eleição com a mesma intensidade de quem disputa uma cadeira no palanque. No Palácio, a definição de uma vaga pode parecer questão de vida ou morte. Para quem espera atendimento médico, ela talvez nem tenha alcançado a categoria de assunto.

Aliança

Enquanto isso, a governadora consome tempo e energia administrando o próprio campo político. Uma aliança grande oferece força, mas cobra manutenção permanente. Quanto maior o palanque, maior a quantidade de gente convencida de que merece lugar no centro da fotografia. E com raiva quando não consegue.

Além das pendências para acomodar os aliados, Raquel também enfrenta perdas, como a saída da federação Solidariedade–PRD de seu campo. Não é possível atribuir uma oscilação eleitoral específica a esse movimento. O episódio, contudo, reforça a diferença entre os períodos analisados pelo Datafolha. Na pesquisa anterior, a governadora avançava embalada pela gestão e pela adesão de forças políticas. Agora, tenta impedir que a montagem da chapa transforme abundância de aliados em congestionamento.

Estrada

João Campos viveu o intervalo de maneira diferente. Enquanto Raquel tentava organizar seu palanque, o prefeito circulou pelo estado, ampliou agendas e trabalhou para dar dimensão estadual à candidatura. A pesquisa não mostra que essa movimentação tenha produzido crescimento no primeiro turno. João até oscila um ponto para baixo.

Ainda assim, ele atravessou o período sem perder terreno relevante e reduziu numericamente a distância no segundo turno. A estrada ainda não virou crescimento, mas também não permitiu que Raquel abrisse uma vantagem maior. Por enquanto, João acumulou quilômetros e preservou competitividade. Em algum momento, precisará demonstrar que uma coisa produz a outra. Mas está longe de ser um adversário já batido, como alguns erroneamente chegaram a considerar nos bastidores.

Campanha

A partir das convenções, os dois enfrentarão problemas diferentes. Raquel precisará retomar o crescimento sem contar com a mesma exposição institucional das entregas. João terá de transformar circulação, presença e discurso de mudança em avanço numérico. A governadora precisa recuperar o movimento. O prefeito precisa provar que já começou algum.

Há ainda um aviso para os dois lados. Há poucos meses, quem tratava a vitória de João como inevitável encontrou Raquel na liderança e pagou pela língua. Agora, quem considera a virada da governadora definitiva recebe uma pesquisa na qual ela parou de crescer e viu a vantagem do segundo turno diminuir de sete para quatro pontos. Paga pela língua também.

Em uma eleição que muda tanto de direção, certezas são artigos perigosos. O Datafolha não garante que Raquel tenha chegado ao teto, nem que João tenha iniciado uma reação. Mostra apenas que ela continua à frente, embora já não avance como antes. É pouco para anunciar outra virada na disputa, mas é suficiente para desconfiar de quem considera a disputa resolvida.

Compartilhe

Tags

Imagem de Igor Maciel

Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem