Cena Política | Análise

O primeiro erro de uma campanha é subestimar a política

Quem confunde impacto político com impacto eleitoral corre o risco de descobrir tarde demais que um sempre prepara o terreno para o outro.

Por Igor Maciel Publicado em 30/07/2026 às 12:25

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A campanha de 2026 já começou para quem vive da política, mas ainda não para o eleitor. Basta abrir o noticiário. Todo dia há uma "reunião decisiva", uma "convenção histórica", uma "crise incontornável", um "ultimato definitivo" ou uma vaga que "vale mais do que um prêmio de loteria". Se alguém passasse o último mês acompanhando apenas as manchetes, poderia concluir que Pernambuco já está em plena reta final da eleição e que tem gente na rua brigando pelos candidatos. Não tem.

A campanha dos políticos começou faz tempo. A do eleitor ainda nem saiu do aquecimento. Essa diferença explica boa parte das análises equivocadas que aparecem nesta época do calendário. Confunde-se impacto político com impacto eleitoral. São parentes próximos e um mexe com a vida do outro, mas não são a mesma pessoa.

Impacto

Impacto político é aquilo que muda o comportamento dos políticos. Impacto eleitoral é aquilo que muda o comportamento do eleitor. A confusão nasce porque um costuma anteceder o outro. Quase nunca uma negociação muda votos imediatamente. Mas muitas eleições acabam sendo decididas por negociações que, quando aconteceram, pareciam interessar apenas aos próprios políticos.

A disputa pela vaga ao Senado na Federação União Progressista ilustra isso com perfeição. Durante semanas, Miguel Coelho e Eduardo da Fonte protagonizaram um conflito que ocupou reuniões, telefonemas, manchetes e incontáveis horas de bastidor. Pergunte, porém, ao cidadão que está preso no trânsito, esperando atendimento numa UPA ou tentando equilibrar as contas do mês se ele mudou sua intenção de voto porque um ou outro pode ficar com a vaga. A resposta da imensa maioria provavelmente será um sonoro "não".

Seria um erro concluir, porém, que essa disputa não importa. Ela importa. E muito.

Engrenagem

A escolha de um candidato ao Senado reorganiza prefeitos, deputados, partidos, recursos, tempo de campanha, palanques, alianças e até desafetos. Ela redefine quem sobe no mesmo carro e quem atravessa a rua quando vê o antigo aliado chegando. Produz vencedores e derrotados muito antes de o eleitor ser chamado às urnas.

É como assistir apenas ao último capítulo de uma série e imaginar que tudo aconteceu de repente. Não aconteceu. A eleição que o eleitor verá no rádio, na televisão e nas redes sociais será resultado de meses de uma política que ele pouco acompanhou. Enquanto o público olhava para o placar, os dirigentes disputavam o direito de escolher quem entraria em campo.

É justamente aí que mora o perigo para quem despreza os movimentos de agora. Dizer que uma disputa interna "não muda voto" pode ser verdade hoje. Mas também pode esconder o fato de que ela mudará completamente o cenário em que esses votos serão disputados daqui a alguns meses.

O grande problema é que há gente no meio político pernambucano tão confiante de si que passou a tratar esses impactos políticos como se fossem irrelevantes do ponto de vista eleitoral. É um cálculo arriscado. O aliado ofendido hoje raramente decide uma eleição sozinho. Mas pode ajudar a construir a derrota de amanhã.

Mercado

Neste momento, o assunto dominante da política não é segurança pública. Não é educação. Não é saúde. Muito menos desenvolvimento econômico. É vaga.

Vaga para senador. Vaga para vice. Vaga para suplente. Vaga na chapa. Às vezes, parece que Pernambuco descobriu um gigantesco estacionamento institucional e passou semanas discutindo quem ficará em cada espaço demarcado no chão nos dois lados principais da briga. A ilusão é acreditar que vai continuar assim.

Por enquanto, o eleitor continua preocupado com problemas que não cabem em nenhuma convenção partidária. A inflação não espera a ata da federação. O desemprego não consulta estatuto. O preço da feira desconhece completamente quem presidirá uma comissão executiva.

São campanhas diferentes acontecendo ao mesmo tempo. A dos políticos é travada em gabinetes, hotéis e sedes partidárias. A do eleitor acontece no supermercado, no transporte público e na porta de casa. Quando essas duas campanhas finalmente se encontrarem, em meados de agosto, já com tempo de TV definido, recursos distribuídos e palanques montados, chegará a hora de conferir quem pagará a conta das escolhas feitas agora.

Tempo

O impacto político costuma ser imediato. O eleitoral é cumulativo. É por isso que a política insiste tanto em discutir o que o eleitor ainda ignora. Não porque tenha perdido contato com a realidade, mas porque sabe que a realidade eleitoral de amanhã está sendo fabricada hoje.

Cada atrito, cada gesto de arrogância, cada acordo rompido e cada ponte incendiada ficam quase invisíveis para o eleitor neste momento. Quando a campanha finalmente chegar às ruas, porém, muitos dos seus efeitos já estarão incorporados ao tabuleiro.

A campanha que o eleitor verá começar em agosto parecerá nascer das convenções. Não nascerá. Ela será apenas a inauguração pública de uma eleição que já vem sendo construída há meses. Quem confundiu impacto político com impacto eleitoral pode descobrir tarde demais que o primeiro sempre preparou o terreno para o segundo.

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Igor Maciel

imaciel@sjcc.com.br

Jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Atua há 19 anos em Rádio, TV, Impresso e Internet. Editor-chefe e apresentador da TV Jornal/SBT por 10 anos. Comunicador na Rádio Jornal por 8 anos. Atualmente é colunista de política do Sistem