Trocar os EUA pela China não resolve o problema e é perigoso
O tarifaço americano sobre nossos produtos não faz da China um porto seguro. Pequim também defende seus interesses e já planeja depender menos de nós.
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Desde que Donald Trump anunciou o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros, uma ideia passou a circular quase como um consenso. Se os Estados Unidos comprarem menos, a China compra mais. A frase parece tranquilizadora, mas esconde um risco estratégico. O Brasil pode estar respondendo a uma dependência aprofundando outra. Trocar Washington por Pequim talvez resolva um problema imediato, mas dificilmente resolve o problema principal.
O debate brasileiro passou a tratar Estados Unidos e China como se fossem alternativas excludentes. Não são. Os dois são muito parecidos e os dois são soluções problemáticas para o Brasil. As duas maiores economias do planeta organizam sua política comercial da mesma maneira que organizam sua política externa: em função de seus próprios interesses nacionais. A diferença está nos instrumentos. Os americanos recorrem com frequência às tarifas e às sanções. Os chineses preferem utilizar o tamanho de seu mercado, sua capacidade de investimento e seu planejamento econômico de longo prazo.
Em ambos os casos, o objetivo é ampliar influência. O Brasil perde dependendo de qualquer um dos dois.
Dependência
Isso não significa que o Brasil deva abandonar a China ou EUA. Significa apenas que deveria evitar depender excessivamente deles. E isso se faz fortalecendo a economia interna, incentivando a indústria nacional e ampliando mercados em outras fronteiras.
A discussão sobre as tarifas americanas fez crescer a expectativa de que o mercado chinês absorverá naturalmente tudo aquilo que deixar de ser vendido aos Estados Unidos. É uma aposta confortável porque oferece uma solução simples para um problema complexo. Mas relações comerciais entre países não são construídas sobre solidariedade. São construídas sobre conveniência.
A história recente mostra que grandes potências alteram suas políticas comerciais sempre que seus interesses estratégicos mudam. O país que concentra suas exportações em poucos compradores reduz sua capacidade de negociação e aumenta sua vulnerabilidade quando essas prioridades mudam. É o problema do Brasil.
Custos
Os efeitos dessa dependência já aparecem. Em Pernambuco, basta olhar para o Polo de Confecções do Agreste. A chamada "Taxa das Blusinhas", que havia sido apresentada como uma tentativa de reduzir a concorrência desigual provocada pelas plataformas internacionais de comércio, acabou sendo derrubada em uma medida demagógica do governo Lula. Com isso, a concorrência chinesa se intensificou ainda mais, e empresários continuam reclamando da dificuldade de competir com produtos vendidos a preços muito inferiores aos praticados pela indústria nacional. E o mais importante aqui: essa taxa não diz respeito só às roupas. Qualquer produto que se enquadre no limite de valores é vendido no Brasil com preço que reflete o custo de produção na China de trabalho semiescravo e incentivos paternais do governo.
O consumidor paga menos por um produto aqui. A economia local, porém, convive com margens menores, impostos absurdos, pressão sobre empresas e risco para milhares de empregos brasileiros.
Fenômeno semelhante ocorre com os carros elétricos. A chegada dos veículos chineses amplia a concorrência e acelera uma transformação tecnológica importante. Isso beneficia o consumidor. Mas existe uma pergunta que aparece muito menos do que deveria. Quanto dessa nova cadeia produtiva está sendo construída no Brasil? Se a resposta continuar sendo "muito pouco", o país poderá trocar fábricas por importações de produtos cuja mão de obra empregada é muito mais barata que a do Brasil.
Cresce o consumo local, mas não necessariamente a produção, os empregos qualificados ou a incorporação de tecnologia. Comprar inovação não é o mesmo que produzi-la. Sem equilíbrio, o acesso à China pode ser perigoso.
Planejamento
E existe um terceiro elemento que recebe pouca atenção. Enquanto o Brasil discute vender cada vez mais alimentos para a China, a própria China trabalha para depender cada vez menos das importações brasileiras. O planejamento econômico chinês vem priorizando aumento da produtividade agrícola, fortalecimento da segurança alimentar, redução do uso de farelo de soja na alimentação animal e desenvolvimento de tecnologias capazes de diminuir a necessidade de compras externas.
O objetivo não é interromper as importações brasileiras amanhã. É reduzir gradualmente uma dependência considerada estratégica por Pequim.
Há uma ironia nesse movimento. Parte do debate brasileiro trata o mercado chinês como uma garantia permanente de demanda. O governo chinês, ao contrário, planeja exatamente o dia em que essa dependência deixará de existir. Estamos confiando que os chineses sustentem nossas exportações taxadas pelos EUA? Pois eles estão planejando, em documento público, se livrar do Brasil.
Escolha
O tarifaço americano representa um problema real e merece resposta. Mas responder aprofundando a concentração das exportações brasileiras em outro grande parceiro comercial pode significar apenas trocar uma vulnerabilidade por outra. Não é inteligente confiar demais na China. Qualquer país que já tenha confiado em demasia neles saberá dizer isso.
O Brasil é grande demais para construir sua estratégia econômica apostando no humor político de uma única potência, seja ela qual for. A verdadeira soberania comercial talvez não esteja em escolher entre Estados Unidos e China. Esteja em depender cada vez menos de qualquer um dos dois.