Raquel precisa fechar a chapa para começar a campanha
A demora para definir o Senado mantém a pré-campanha presa às negociações internas bem no momento em que o calendário exige colocar a aliança na rua.
Clique aqui e escute a matéria
Num ano eleitoral, julho marca o momento em que campanhas deixam de negociar alianças e passam a disputar a atenção do eleitor. Em Pernambuco, essa transição já começou para João Campos (PSB), mas ainda não para a governadora Raquel Lyra (PSD). A razão é simples. A chapa do socialista já está pronta. A da governadora continua em construção.
A reunião de mais de duas horas entre Raquel Lyra e Eduardo da Fonte, realizada na quinta-feira (9) no Palácio do Campo das Princesas, terminou sem uma definição para a vaga ao Senado. Segundo uma fonte com acesso ao Palácio, muitas barreiras foram superadas e a conversa foi positiva. Ainda assim, o nome não foi anunciado. A campanha permanece em compasso de espera. O adversário mais imediato da governadora, por enquanto, deixou de ser João Campos. Passou a ser o calendário.
Relógio
A indefinição produz um efeito que vai além do desconforto interno da base aliada. Uma chapa incompleta não percorre o estado como unidade política. Não existe agenda conjunta, imagem de campanha, distribuição de tarefas nem narrativa compartilhada. Prefeitos, lideranças locais e apoiadores continuam olhando para uma composição provisória, quando a pré-campanha já deveria estar apresentando ao eleitor um projeto consolidado que será apenas homologado na convenção.
As convenções começam em 20 de julho e a de Raquel está prevista para 2 de agosto. O intervalo entre esses dois marcos costuma ser aproveitado para apresentar a chapa, ampliar palanques e transformar acordos partidários em demonstrações públicas de força. Cada dia consumido por uma negociação ainda inconclusa reduz o tempo disponível para essa etapa.
Ruídos
O impasse prolonga uma sequência de episódios que desviam o foco da campanha. O Progressistas passou cerca de um mês fora do governo depois que Eduardo da Fonte abriu um canal de diálogo com João Campos. A disputa entre as direções estadual e nacional da federação ganhou dimensão pública. Rumores sobre candidaturas alternativas passaram a ocupar espaço no noticiário. Em vez de discutir propostas ou resultados de governo, a pré-campanha continua absorvida por uma conversa que interessa muito mais aos dirigentes partidários do que ao eleitor.
Quanto mais tempo essa discussão permanece aberta, menos espaço sobra para que a governadora concentre sua comunicação naquilo que pretende apresentar ao eleitor durante a campanha.
Aritmética
O tamanho da dificuldade ajuda a explicar por que a decisão continua escapando. Priscila Krause (PSD) permanece tratada como nome definitivo para a vice. Túlio Gadelha (PSD) já ocupa a outra vaga ao Senado. Restou apenas um espaço para acomodar a Federação União Progressista.
É justamente essa vaga que coloca Eduardo da Fonte e Miguel Coelho em rota de colisão. O primeiro reúne maioria na executiva estadual e conta com o respaldo de Ciro Nogueira. O segundo tem o apoio do presidente nacional do União Brasil, Antônio de Rueda. Nenhum dos lados dispõe de força suficiente para impor sozinho sua vontade. Ambos, porém, têm condições de impedir uma solução rápida.
Por isso a disputa deixou de ser apenas uma questão de acomodação partidária. Tornou-se também um problema de calendário eleitoral.
Produto
Campanhas não são construídas apenas por discursos. Também dependem de imagens, símbolos e demonstrações permanentes de unidade. Uma chapa majoritária precisa existir politicamente antes de pedir votos. Enquanto uma de suas peças permanece indefinida, todo o restante fica condicionado à espera e à dúvida.
Túlio Gadelha ainda precisa responder em entrevistas que continua sendo candidato ao Senado. Quando integrantes da própria chapa ainda precisam reafirmar publicamente que permanecem na disputa, o eleitor recebe o sinal de que a composição continua aberta.
Cenários
Eduardo da Fonte, Miguel Coelho ou até uma alternativa fora da federação, como Fernando Dueire, carregam custos políticos diferentes para a governadora. Nenhuma escolha elimina completamente os conflitos acumulados durante a negociação. O que todas têm em comum é que permitem encerrar uma discussão interna e iniciar outra, muito mais importante para qualquer campanha: a conversa com o eleitor.
Enquanto a definição não chega, a campanha continua consumindo tempo com um debate que interessa às direções partidárias, mas impede que a governadora concentre energia na disputa que realmente decidirá a eleição. Já é hora.