Cena Política | Análise

Trump devolve a Lula a bandeira da soberania e Flávio pode virar vilão

Documento americano cita PIX, corrupção, Lava Jato e redes sociais. O PT vai explorar a narrativa da soberania e vincular os Bolsonaro ao prejuízo.

Por Igor Maciel Publicado em 02/06/2026 às 11:27

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O governo Lula já sabe qual caminho político pretende seguir diante da nova ameaça de tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. A primeira versão do tarifaço, meses atrás, produziu um efeito eleitoral muito claro. E a comunicação da campanha vai querer aproveitar novamente. Depois podem agradecer a Flávio e ao presidente Trump.

As medidas impostas por Donald Trump naquela época ajudaram Lula (PT) no momento em que o presidente estava no pior ponto de sua popularidade e criaram uma dificuldade enorme para a oposição que demorou a se recuperar. O PT transformou a crise comercial em discurso de soberania nacional. A oposição, especialmente a família Bolsonaro, ficou presa à imagem de proximidade com um governo estrangeiro que havia decidido punir o Brasil.

Agora, a nova rodada de tensão comercial recoloca esse mesmo problema no centro da eleição brasileira.

Erro

A família Bolsonaro parece ter uma leitura equivocada do efeito que sua relação com Trump produz fora da bolha bolsonarista. Para os eleitores mais fiéis da direita, a aproximação com o presidente americano funciona como selo ideológico. Para o restante do eleitorado, o resultado é muito mais difuso e pouco positivo.

A imagem de Trump é boa entre bolsonaristas e alcança uma parte da direita não bolsonarista. Mas entre independentes, moderados e eleitores de centro, a associação tende a produzir rejeição, desconfiança ou distância.

A diferença fica mais clara quando se compara Lula e Flávio Bolsonaro (PL). O eleitor pode entender a relação entre Lula e Trump como administrativa, protocolar e inevitável entre chefes de Estado. Já a relação de Flávio com Trump produz outra leitura. Mesmo que não corresponda integralmente aos fatos, ela passa ao público geral a ideia de submissão política a uma potência estrangeira. É exatamente nesse ponto que o PT vai apostar agora.

Uso

O anúncio de que novas medidas de taxação podem vir logo após uma visita de Flávio Bolsonaro a Trump reforça a narrativa que interessa ao governo Lula de "defesa da soberania". Já há parlamentares petistas tentando associar Flávio ao "prejuízo econômico imposto ao país".

A investigação americana, na verdade, começou bem antes dessa visita e já havia sido tratada em conversas entre os governos brasileiro e americano. A política, porém, raramente trabalha apenas com cronologia. Trabalha com imagem, associação e repetição.

O documento do governo americano oferece munição para os dois lados, mas cada lado vai escolher apenas o trecho que lhe convém. O governo Lula deve explorar intensamente as críticas ao PIX e às decisões brasileiras envolvendo empresas americanas de tecnologia. A tese será simples: "os bolsonaristas teriam usado sua interlocução com Trump para estimular um ataque à soberania brasileira, ao sistema financeiro nacional e às instituições do país".

Corte

O mesmo documento também traz pontos que o governo Lula fará bastante esforço para evitar.

A investigação americana cita falhas no combate à corrupção no Brasil como um dos fundamentos da medida que pode ser imposta com as taxas. Menciona a decisão do ministro Dias Toffoli que anulou provas da Lava Jato e beneficiou empresas antes condenadas por corrupção, por exemplo. O argumento dos Estados Unidos é que empresas americanas, submetidas a regras rígidas contra suborno no exterior, competem em desvantagem com empresas brasileiras que teriam sido favorecidas por um ambiente de impunidade.

Esse ponto é politicamente incômodo para o Planalto. Ele desloca parte do debate para o enfraquecimento institucional do combate à corrupção, tema sensível para Lula, para o PT e para o Supremo Tribunal Federal. O documento também critica decisões de tribunais brasileiros contra plataformas americanas de redes sociais, especialmente ordens de remoção de conteúdo, bloqueio de perfis e punições a empresas. Esse trecho interessa mais ao bolsonarismo do que ao governo.

Efeito

A disputa, portanto, será menos sobre o conteúdo completo do documento e mais sobre o uso eleitoral de cada pedaço dele. Lula vai tentar transformar a tarifa em defesa do Brasil contra Trump e contra os Bolsonaro. Flávio vai tentar apresentar a crise como resultado da deterioração das relações entre o governo petista e os Estados Unidos. A diferença é que Lula fala de dentro da Presidência. Flávio fala associado ao campo político que celebrou, estimulou ou relativizou pressões americanas contra o Brasil.

A eleição de 2026 tende a ser decidida por independentes e por eleitores moderados. Para esse público, a imagem de alguém que tem boa entrada na Casa Branca pode até parecer útil em tese, mas se torna um passivo quando a consequência visível é uma tarifa contra produtos brasileiros. A diplomacia paralela, quando aparece conectada a prejuízo econômico, vira argumento de "entreguismo".

Repetição

A nova ameaça tarifária tem fundamentos técnicos, comerciais e jurídicos no documento americano, mesmo que não concordemos com eles. O governo Lula vai selecionar o que fortalece sua narrativa. O bolsonarismo vai destacar o que atinge o PT, o STF e a agenda econômica brasileira. No saldo eleitoral, porém, quem ocupa a Presidência costuma ter vantagem quando a discussão vira "defesa do país contra pressão externa".

Se isso foi combinado entre o governo americano e Flávio, foi burrice estratégica, imperícia e, dependendo do grau de influência na decisão, traição ao país. Mas isso é pouco provável, por mais que o PT insista e defenda a tese.

Se não foi combinado (é o que parece), entra na conta de todas as vezes que os irmãos bolsonaro acreditaram que estavam marcando um gol e acabaram descobrindo que estavam atacando para o lado errado do campo. Entra na conta da patetice, que não é pequena.

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