A vantagem de João na RMR desapareceu antes do previsto
Chuvas, exposição da gestão na capital e avanço de Raquel ajudam a explicar mudança do cenário eleitoral com empate na Região Metropolitana do Recife
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João Campos (PSB) está descobrindo que a parte mais difícil de deixar a Prefeitura do Recife não era a desincompatibilização. Era tudo o que viria depois dela. E nós alertamos para isso aqui na coluna Cena Política, antes mesmo de ele sair.
A nova pesquisa Datafolha trouxe um dado que merece atenção especial. Em um eventual segundo turno para o Governo de Pernambuco, João e Raquel Lyra (PSD) aparecem empatados em 48% na Região Metropolitana do Recife. O número não chama atenção apenas pelo empate, mas porque acontece justamente onde o ex-prefeito construiu sua trajetória política, concentrou suas principais entregas administrativas e esperava manter uma vantagem confortável durante toda a campanha.
Alerta
Conforme foi dito aqui nesta mesma coluna em 31 de março, antes mesmo da saída de João da Prefeitura, a grande incógnita da eleição seria a capacidade de sustentar à distância o principal ativo eleitoral de sua candidatura. O Recife funcionaria simultaneamente como vitrine e como passivo potencial. A advertência feita por estas linhas parecia excessivamente cautelosa naquele momento? Dois meses depois, os números sugerem que ela não era. Explico abaixo.
A estratégia do entorno de João era relativamente simples. A Região Metropolitana forneceria uma margem robusta de votos enquanto o candidato concentraria esforços no interior, território onde Raquel sempre apresentou desempenho mais competitivo. O problema é que a vantagem que permitiria essa operação encolheu muito mais rápido do que se imaginava.
Chuvas
Em março, falamos sobre isso aqui. O risco que Campos corria era grande. Como escrevemos em 31 de março: "Imagine João Campos no Sertão, cumprindo agenda de pré-campanha, enquanto uma chuva forte provoca alagamentos, deslizamentos ou até mortes no Recife. Mesmo fora da Prefeitura, será para ele que parte da população olhará. O bônus das obras continuará sendo dele, mas o ônus dos problemas também."
Desse roteiro hipotético que imaginamos acima, a única diferença foi que João não estava no Sertão e sim no Agreste Meridional. O resto, foi exato, inclusive a reação do eleitor.
Nenhum gestor responde sozinho por fenômenos climáticos extremos. O eleitor, porém, raramente faz avaliações tão compartimentadas. Quando uma crise dessa magnitude acontece, ela reabre discussões sobre prevenção, obras estruturadoras, investimentos realizados ao longo dos anos e capacidade de resposta do poder público.
Foi exatamente nesse ambiente que o Recife deixou de ser observado apenas pelas obras entregues e passou a ser examinado também pelos problemas que permanecem sem solução definitiva. E João não era mais prefeito para se defender.
Exposição
Durante a gestão, a capacidade de anunciar medidas, inaugurar intervenções e conduzir diretamente a narrativa institucional ajudava a neutralizar desgastes. Fora do cargo, o controle sobre essa dinâmica é necessariamente menor.
Victor Marques (PCdoB) assumiu a Prefeitura mantendo alinhamento político e administrativo com o antecessor. Ainda assim, a percepção pública não é construída apenas por alinhamentos internos. Não houve tempo para a transferência de algum capital de imagem que gerasse segurança.
O resultado é que o Recife passou a influenciar a disputa estadual de uma maneira diferente daquela imaginada pelo PSB no início do ano. E a pesquisa Datafolha demonstrou isso.
Avanço
Ao mesmo tempo, a governadora seguiu entregando obras, ampliando presença política e consolidando índices de aprovação que já vinham crescendo há vários meses.
O dado mais impressionante da pesquisa talvez não seja a liderança dela no interior. Essa vantagem já era conhecida. O que chama atenção é a velocidade com que conseguiu avançar justamente na região onde João parecia possuir maior proteção eleitoral. A Região Metropolitana sempre foi tratada como a principal reserva estratégica do ex-prefeito. Hoje ela aparece como território em disputa.
Cenário
Ainda há muitos meses de campanha pela frente. Debates, alianças, fatos políticos e acontecimentos administrativos continuarão influenciando o humor do eleitorado até outubro. Mas a pesquisa Datafolha mudou tudo.
A gordura eleitoral que permitia a João administrar com tranquilidade a própria expansão pelo interior desapareceu. A pergunta que passa a orientar a campanha do PSB não é mais como ampliar ou manter a vantagem na Região Metropolitana. Esse trem já partiu. A pergunta agora é como reconstruí-la?
E ele terá que fazer isso enquanto precisava estar rodando pelo interior.