Flávio está descobrindo que margem estreita não perdoa erro grande
Áudio fragiliza Flávio Bolsonaro justo no eleitorado que ele mais precisa conquistar para compensar a direita dividida e os independentes desconfiados
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A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) já nasceu com uma exigência considerável. Para enfrentar Lula (PT), ele precisava herdar o bolsonarismo, falar com a direita moderada e ainda convencer parte expressiva dos independentes. Essa equação ficou mais difícil depois da divulgação do áudio em que o senador aparece pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro (PL).
Até na hora de tentar se explicar, a dificuldade para ele é maior. Flávio nega irregularidades e afirma que se tratava de um projeto privado, sem uso de dinheiro público. Mas o problema político vai muito além da discussão jurídica. O áudio atinge diretamente o ativo que ele mais precisava proteger nesta fase da pré-campanha: a imagem de correção, equilíbrio e confiabilidade para conquistar eleitores na direita mais moderado e nos independentes.
Margem estreita
A pesquisa Quaest mais recente sobre posicionamento político ajuda a dimensionar o problema. O país aparece dividido em cinco blocos que podem ser concentrados em três: A esquerda lulista e a não lulista somam 33%. A direita bolsonarista e a não bolsonarista também somam 33%. Os independentes chegam a 32%. Em uma eleição polarizada, com um candidato competitivo de cada lado, a tendência é que esse terço independente defina o resultado final. Para onde esses independentes estiverem pendendo, maior é o favoritismo.
Esse eleitor é menos preso à identidade partidária, reage mais às notícias negativas, à economia, ao tom dos candidatos e à percepção de radicalismo ou moderação. Quando um escândalo surge e um dos candidatos o protagoniza negativamente, os independentes desconfiam e se retiram.
O áudio em que Flávio aparece pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro é uma tragédia nesse ponto.
Direita dividida
Flávio tem uma dificuldade adicional dentro do próprio campo. A direita bolsonarista, onde sua fidelidade é mais forte, representa 12% nesse recorte. A direita não bolsonarista, mais moderada, aparece com 21%. Dentro do bloco total da direita, o segmento mais próximo de Flávio é menor do que o segmento que ele precisa conquistar. Para isso, ele não pode parecer apenas o herdeiro político do pai. Precisa parecer viável, previsível e honesto. Porque somente o sobrenome sustenta uma pequena base, mas ela não garante a competitividade.
No caso de Lula, é diferente. A esquerda não lulista é mais radical que a esquerda lulista, dominada por ele. E, ao contrário da situação de Flávio, a esquerda lulista tem percentual maior que a não lulista. Todos os efeitos de notícias negativas e dados ruins demora mais para atingir Lula.
É aí que sobram os independentes, representando um terço do eleitorado, no qual importa mais a conduta presente, a moderação, a ética e a perspectiva de futuro, pragmático e simbólico, do que a ideologia dos candidatos.
Áudio pesado
O áudio de Vorcaro atinge exatamente esse ponto. O pedido de recursos milionários para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro cria uma imagem incômoda para quem tenta se apresentar como alternativa ética ao PT. Mesmo que Flávio sustente a tese de que não houve dinheiro público, contrapartida política ou ilegalidade, o problema eleitoral já está instalado. Quando a dúvida chega antes da explicação, a confiança começa a ser corroída. E é o que está acontecendo.
O dano político nasce também da contradição. Flávio tentou colar o escândalo do Banco Master em Lula e no PT. Agora, passou a explicar sua própria proximidade com o dono do banco investigado. Essa inversão de posição enfraquece o discurso de acusação. O candidato que pretendia usar o caso como arma contra o adversário foi obrigado a retirar energia da ofensiva e direcioná-la à própria defesa.
Essa mudança de eixo é especialmente perigosa para uma candidatura que ainda tentava provar consistência fora do núcleo bolsonarista.
O episódio abre espaço para concorrentes à direita. Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) disputam, cada um a seu modo, o eleitorado que deseja uma alternativa ao PT sem adesão automática ao bolsonarismo familiar.
Credibilidade
A política permite recuperação, mas exige tempo, disciplina e ausência de novos fatos negativos. Flávio agora precisa reconstruir credibilidade antes que seus adversários à direita ocupem o espaço da moderação e antes que os independentes consolidem a percepção de risco. Em uma eleição polarizada em dois terços e disputada dentro do terço final mais moderado, a candidatura que perde confiança no centro começa a perder também a capacidade de organizar o próprio campo.
A situação é tão séria que o Datafolha, que havia acabado de divulgar pesquisa mas não conseguiu situar as entrevistas para captar a reação do eleitorado à divulgação do áudio, resolveu refazer tudo e divulgar uma nova pesquisa na próxima sexta-feira (22).
Esses números podem definir se a candidatura de Flávio Bolsonaro sobrevive ou não.