Dinâmica da polarização abre espaço para Flávio como alternativa e não inimigo
Eleitor deixa de reagir por rejeição e passa a considerar opções, beneficiando estratégia de distensão e moderação adotada por Flávio Bolsonaro
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Há notícias esta semana de uma pesquisa divulgada pela CNN nos EUA apontando que Donald Trump nunca foi tão rejeitado como presidente quanto hoje. Apenas 34% dos norte-americanos apoiam seu governo. Mas isso não é o mais impressionante, já que o presidente americano trabalha com muito empenho para ser odiado.
O que impressiona de verdade é que este seria o melhor momento da história para os democratas, seus adversários, crescerem, e eles não conseguem nenhum destaque. A aprovação do trabalho dos democratas no congresso americano anda em 18%. É um fiasco. O fenômeno é causado pela tensão polarizada no eleitorado que faz com que nunca existam "alternativas" e sim "inimigos a serem evitados".
Brasil
O que está acontecendo nos EUA chama atenção para o Brasil. Aqui também há uma alegada polarização, mas existe um efeito curioso na relação do eleitorado, considerando a cada vez mais baixa aprovação do governo Lula (PT) também.
O resultado no eleitorado, porém, é diferente do que ocorre nos EUA. Na última pesquisa Quaest, a aprovação do presidente petista chegou a 43%. E existe uma queda mês a mês. Lula piora um ponto percentual a cada 30 dias. Num ambiente mais tensionado de polarização, a tendência seria que aumentasse na pesquisa o número de indecisos ou daqueles que dizem não votar em ninguém, mas isso não está acontecendo. O que aumenta é a intenção de voto em Flávio Bolsonaro (PL).
Centro
Flávio Bolsonaro, até agora, está tendo sucesso em sua missão de parecer moderado e atrair o voto até daqueles que são de centro e poderiam votar em qualquer candidato de esquerda ou de direita. São eles que decidem a disputa e são esses votos que estão em jogo a cada movimento no tabuleiro. Nesses últimos dias, algo chamou a atenção sobre isso. Existe um movimento de reagrupamento dos partidos de centro com aproximação da candidatura de Flávio.
A tendência é que União Brasil, Progressistas, Republicanos e até o PSDB sigam se dizendo "neutros" no contexto eleitoral. Mas, na prática, seus integrantes acabam pendendo para um lado ou para o outro, carregando influência e voto nesse movimento. Hoje, a vantagem está com a candidatura de Flávio nesse setor partidário.
Palanque
Apesar de ter integrantes de alguns dos partidos de centro até ocupando ministérios, a verdade é que o palanque de Lula está ficando cada vez mais concentrado à esquerda, afastando-se completamente da ideia construída em 2022 de uma frente ampla "pela democracia e contra o bolsonarismo". O principal elemento que assustava os partidos de centro ao ponto de eles terem aceitado ficar no palanque lulista da eleição anterior era o radicalismo bolsonarista que beirava a insanidade, num estilo "armas na mão e loucura nos olhos". Isso parece ter acabado.
Um exemplo de todo esse movimento foi a rejeição à indicação de Jorge Messias no Senado, além da derrubada dos vetos do Presidente da República no PL da Dosimetria. Flávio participou da articulação, não houve "bizarrices" típicas do bolsonarismo e o governo Lula foi derrotado.
Todo o processo serviu de ensaio para quem aderiu a Flávio, mas também de exemplo para quem não aderiu ou teme consequências de fazer isso e agora pensa em fazer.
Estratégia
Flávio, por incrível que isso pareça, está sendo responsável por distensionar a polarização e conseguindo se apresentar como "alternativa", ao invés de "inimigo a ser evitado". Até aqui, a estratégia está correta e rendendo frutos numa pré-campanha em que já começa a liderar numericamente as pesquisas, mesmo que numa margem muito apertada.
Quando a disputa começar pra valer, a história será outra porque ele irá ter que lidar com ataques de todos os tipos e desconstruções válidas para o momento. Até agora, pelo menos, é muito difícil dizer que ele está cometendo algum erro.