Lula errou ao tratar tragédia sob lógica política em Pernambuco
Ao ignorar gestores formais em comunicação feita nas redes sociais, presidente compromete narrativa e enfraquece resposta institucional esperada.
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Lula (PT) errou. Ou ele ou a equipe dele. Como gestor público é sempre muito importante saber diferenciar a agenda política da agenda administrativa. E a equipe de comunicação precisa entender isso. Mesmo que você consiga fazer intersecções entre as pautas, é essencial entender qual delas está à frente conduzindo suas ações, se a da gestão ou a da política.
Quando acontece uma tragédia como a que ocorreu no fim de semana na Região Metropolitana do Recife, o presidente da República precisa ter um imenso cuidado para não deixar margem que permita a alguém interpretar que ele se preocupou mais com os efeitos políticos de uma declaração do que com o problema em si. E a melhor maneira é restringir suas ações e comunicações ao âmbito da gestão, sem dar margem para qualquer outra interpretação.
Por isso, no momento em que sua conta no X publicou, em primeira pessoa, que ele havia conversado com João Campos (PSB) e Humberto Costa (PT) sobre a tragédia que ocorria na RMR, o líder petista (ou sua equipe) cometeu um grave erro.
O problema não é conversar com Humberto ou com João, mas usar essa mesma postagem para direcionar as ações que estavam sendo implementadas com os ministérios, como se o Governo Federal só estivesse agindo depois de ter conversado com os dois que, aliás, serão candidatos ao Senado e ao governo de Pernambuco em outubro. Pode não ter sido essa a intenção. Ficou esclarecido depois que João e Humberto é que ligaram para o presidente. Mas foi o que todo mundo entendeu. E, em comunicação, o que vale é o que todo mundo entende.
Omissões
Ao direcionar a energia de sua manifestação ao ex-prefeito e ao senador, Lula pareceu ignorar que existe um prefeito no pleno exercício do cargo chamado Victor Marques (PCdoB), além da governadora Raquel Lyra (PSD). Os dois, o prefeito e a governadora estão indo a Brasília esta semana em comitivas próprias e independentes, mas com o mesmo objetivo: buscar recursos. Antes, estavam preocupados com o atendimento emergencial. E estavam corretos.
O grande erro aqui é tratar as coisas e analisar a situação com os olhos da política. Naquele momento inicial, famílias estavam indo para abrigos, outras estavam com água no pescoço. Algumas estavam buscando familiares desaparecidos sob os escombros e sob a lama das barreiras. Sendo objetivo, qual agenda deveria ser prioritária naquele ponto, a política ou a administrativa?
Critério
A objetividade da comunicação deve ser entendida de forma prática. Agendas políticas resultam em narrativas, argumentos e construção de imagem a partir disso. Agendas administrativas resultam em dinheiro, equipamentos, mobilização de pessoal técnico. E agora, qual dessas agendas era mais importante naquele exato momento?
Lula é chefe do Executivo federal. Seu poder de resolução em situações extremas como a que ocorreu em Pernambuco e em outros estados diz respeito às verbas que ele pode liberar e aos recursos dos ministérios que podia mobilizar na ação de enfrentamento das enchentes e na ajuda aos desabrigados.
Esses recursos, para obedecer às leis, devem ser organizados e repassados entre entes administrativos. Ex-prefeitos não podem receber recursos da União, nem repassá-los aos municípios. Senadores, que não são poder executivo e sim legislativo, também não podem repassar verbas ou ordenar ações de maneira direta.
Sendo pragmático, então, manifestar-se o Presidente da República, no meio de uma tragédia, afirmando que está discutindo o problema com um ex-prefeito e um senador é como dizer que, do ponto de vista administrativo, não estava fazendo nada.
Então, Lula (ou quem quer que tenha escrito sua mensagem nas redes sociais tentando gerar promoção política) errou feio e acabou prejudicando aqueles que tentava ajudar. É o paradoxo do incompetente motivado. Algo, infelizmente, comum no setor público.
Imagem
A imagem que ficou para alguns pernambucanos foi a de um presidente tentando aproveitar o momento trágico para fazer política e ajudar aliados eleitoralmente. Quando essa pode não ter sido a intenção.
E aqui cabe um breve comentário sobre a maneira atabalhoada como a comunicação de Lula, por interferência do PT e de incompetentes motivados, termina por prejudicar o presidente. Pesquisas têm mostrado uma perda de influência lulista no Nordeste. Isso acontece, em parte, por uma exaustão de material, mas os erros e a falta de percepção básica sobre comportamento do eleitorado também contribui muito.
Separar as agendas política e administrativa numa situação como essa é algo que o próprio Lula já fez em outras gestões, inclusive com tragédias em Pernambuco. O que parece é que entre o governo "Lula dois" e o "Lula três" houve um salto e uma perda de contato. Não é que a equipe do presidente esqueceu como se faz. O problema é que os integrantes da equipe atual nunca conversaram com a equipe anterior, nunca trocaram ideia.
Quando você tenta ser moderno sem fazer contato com seus antecessores, joga fora o componente da experiência. É meio estúpido, é amador. Mas tem acontecido bastante. E não apenas com Lula.