Marília e Humberto terão que se unir por sobrevivência no Senado
Disputa dos dois pelo mesmo eleitorado impõe risco. Sem campanha muito bem casada, candidaturas alternativas e direita organizada podem atropelar.
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A posição dos candidatos ao Senado nas pesquisas de Pernambuco pode enganar bastante. A principal questão é se é possível que os dois primeiros colocados na lista que compartilham espaço na chapa de João Campos (PSB) podem se eleger, ambos, para as duas vagas. A resposta é "sim", mas é bem difícil.
Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) são concorrente entre si. E mesmo havendo duas vagas, o fato de disputarem o mesmo perfil de eleitor aumenta a chance de um atrapalhar o outro. Abrindo espaço para os concorrentes. Para garantir que os dois se elejam é necessário que um peça voto para o outro e amarre essa votação como se disso dependesse sua própria sobrevivência. E depende.
A eleição para o Senado com duas vagas impõe uma lógica própria. Cada eleitor vota em dois nomes e, nesse ambiente, o segundo voto passa a ser decisivo. É necessário estruturar uma transferência organizada entre aliados. Quando isso não ocorre, o sistema favorece candidaturas que conseguem concentrar votos de forma mais eficiente, mesmo partindo de posições inferiores. Explico abaixo.
Bigorna e...
A pesquisa Quaest mais recente posiciona Marília entre 18% e 20%, enquanto Humberto oscila entre 12% e 14%. A liderança existe, mas não é folgada. Atrás deles há um conjunto amplo de candidatos empatados tecnicamente. Isso significa que a distância pode ser revertida com relativa rapidez à medida que a campanha avance e o eleitor passe a fazer escolhas mais estratégicas.
O principal ponto de fragilidade da esquerda está na dispersão do segundo voto e isso decorre de uma sacada inteligente feita pela governadora Raquel Lyra (PSD) ao lançar Túlio Gadêlha (PSD) para o Senado. Ele se apresenta como destino natural desse voto complementar, atraindo eleitores tanto de Marília quanto de Humberto. Jô Cavalcante (PSOL) reforça esse movimento em menor escala.
Mesmo sem liderar, essas candidaturas funcionam como canais de escoamento. O efeito prático é impedir que o segundo colocado consolide posição suficiente para garantir a segunda vaga.
Na prática, o segundo voto do eleitor de Marília e o segundo voto do eleitor de Humberto "escapam" para as candidaturas de Túlio e Jô, por falta de coesão entre o petista e a pedetista.
...martelo
Do outro lado temos o bloco de centro e centro-direita que, segundo a última pesquisa Quaest, reúne hoje algo entre 30% e 32% do eleitorado, distribuído entre seis ou sete nomes variados. Esse quadro tende a mudar porque nem todos serão candidatos ao Senado realmente. Quando isso acontecer, a tendência é de concentração desse eleitorado em dois ou três nomes, no máximo.
Quando essa concentração ocorrer, cada um pode alcançar cerca de 15% a 20% dos votos, patamar que, em Pernambuco, é suficiente para viabilizar a eleição de senador e, pelos números atuais, ultrapassar no mínimo um dos candidatos à esquerda. Talvez até os dois.
Essa estratégia de "Martelo e bigorna" é utilizada em guerras, quando um elemento é viabilizado para enfraquecer o inimigo dentro de seu próprio espaço, no conforto de um local seguro (a bigorna), para em seguida ser golpeado por um elemento externo, o martelo.
Estratégia
É por isso que hoje é possível dizer que a única forma de Marília Arraes e Humberto Costa serem eleitos, os dois, para as duas vagas do Senado é se conseguirem amarrar seus votos tão bem entre si que se torne quase impossível votar em um sem votar no outro.
Esse nível de coesão, com a parceria de palanque sendo tão importante para o sucesso em uma chapa toda amparada no mesmo grupo político e ideológico, foi vista pela última vez há bastante tempo em Pernambuco.
Mais de duas décadas atrás, na reeleição de Jarbas ao governo, Marco Maciel e Sergio Guerra protagonizaram um jingle que exaltava exatamente essa coesão indispensável na época. "Jarbas, Marco Maciel e Sergio Guerra, juntos pelo bem da nossa terra" foi o que garantiu as duas vagas na eleição de 2002.
Marília e Humberto terão condição de ocupar o mesmo jingle?