Embate com STF projeta Zema e deve preocupar campanhas de Lula e Flávio
Exposição após confronto com STF impulsiona ex-governador mineiro e obriga campanhas a monitorar um adversário que é muito mais difícil de enquadrar.
Clique aqui e escute a matéria
A campanha à reeleição do presidente Lula (PT) começou a ajustar o foco sobre um nome que, até pouco tempo, orbitava fora do núcleo principal da disputa. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) ainda aparece com cerca de 4% nas pesquisas, um patamar baixo e insuficiente para alterar o quadro eleitoral. Mas isso pode mudar.
Principalmente porque Zema entrou no foco das discussões mais sensíveis da república atualmente, envolvendo o STF. O impacto eleitoral das críticas que vêm sendo feitas ao STF é tão significativo que até o Congresso do PT, realizado na semana passada, terminou falando em "reforma do Judiciário" para garantir que os petistas também querem esse voto. Brigar com o Supremo está na moda para esta eleição.
Nesse sentido, principalmente para a centro-direita, depois de ter sido esculhambado pelo ministro do STF Gilmar Mendes, Zema é o "herói" da vez.
Radar
A entrada de Zema no radar da equipe de Lula decorre de uma lógica preventiva. O número que ele apresenta hoje nas pesquisas não impõe pressão direta, nem sobre o próprio Lula, nem sobre Flávio Bolsonaro (PL), que segue como principal referência da oposição no cenário projetado.
Ainda assim, a simples perspectiva de crescimento já é suficiente para justificar monitoramento. Em disputas polarizadas, pequenas variações em segmentos específicos do eleitorado podem redesenhar o equilíbrio do jogo.
Zema é mais palatável para um segmento do eleitorado moderado, mais ao centro, do que Flávio. E é esse centro quem decide a eleição. É algo que precisa preocupar os adversários.
O embate entre Zema e ministros do STF ampliou sua visibilidade e o projetou para além do espaço que ocupava até então. Ao reagir publicamente, ministros como Gilmar Mendes acabaram inserindo o governador mineiro em um circuito de exposição nacional que ele ainda não tinha.
Comparação
A comparação com Flávio Bolsonaro ajuda a entender o cálculo estratégico da campanha de Lula. Flávio é um adversário mais previsível. É mais fácil encontrar brechas naquilo que o povo já conhece e rejeita.Sua vinculação direta ao ex-presidente facilita a construção de narrativas, a transferência de rejeição e o enquadramento em debates.
Zema, por outro lado, apresenta menos pontos de ancoragem para esse tipo de ataque. A ausência de um vínculo orgânico com Bolsonaro dificulta a associação automática e amplia sua margem de manobra discursiva.
Além de tudo, é preciso que os petistas fiquem atentos, porque o eleitor vem demonstrando com frequência que está cansado da briga entre Lula e Bolsonaro. Ronaldo Caiado (PSD) não surgiu na disputa como alguém capaz de captar votos suficientes para atender essa demanda porque ela está mais concentrada em eleitores de centro e ele é visto como alguém à direita. Zema é diferente, principalmente agora que tem "o sistema (Gilmar) atuando contra ele".
Projeção
O ex-governador de MG não tem, neste momento, densidade eleitoral para alterar o eixo central da disputa. Mas o episódio recente indica uma possível oscilação positiva nas próximas pesquisas, impulsionada pela visibilidade adquirida. O dado relevante aqui não é o tamanho atual de sua candidatura, mas o tipo de problema que ela pode se tornar caso encontre espaço para crescer.
No cálculo da campanha de Lula, essa distinção deve importar. Mais do que enfrentar o adversário mais forte de hoje, trata-se de estar preparado para os que podem chegar de empuxo, do fundo das pesquisas, quando menos se espera e quando ninguém apostava neles.