Cena Política | Análise

Nos dez anos do Impeachment de Dilma, lembranças de quem viu tudo de perto

Trabalhei em Brasília nas votações de todo o processo que culminou no impedimento da então presidente da República. Teve de tudo, carnaval e mágoa.

Por Igor Maciel Publicado em 17/04/2026 às 19:17 | Atualizado em 17/04/2026 às 19:50

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Era por volta de 20h do dia 17 de abril de 2016, um domingo há dez anos, quando o então deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) deixou o plenário e procurou os repórteres no Salão Verde da Câmara Federal. Um dos microfones apontados para ele era meu. Dez anos atrás eu estava em Brasília pelo Sistema Jornal do Commercio, cobrindo todo o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).

Orlando Silva é conhecido por ser extremamente educado e fala gesticulando como se os próprios braços e pernas tivessem amortecedores de impacto, o que faz com que ele pareça gracioso até para anunciar tragédia. Nem uma gota de suor no rosto, embora tivesse acabado de sair do plenário abarrotado. A camisa parecia ter sido engomada naquele minuto.

Esperou pacientemente que todos os repórteres se organizassem a sua frente e lamentou: "Não dá mais para evitar o impeachment". Naquele momento já havia mais de 200 votos favoráveis ao impedimento (eram necessários 342 para enviar o processo ao Senado que afastaria a presidente).

Arrastado

O deputado paulista nem havia conseguido explicar ainda seu raciocínio quando ouviu-se um grito que começou atrás das portas do plenário e foi se aproximando do amontoado de jornalistas: "Não!!! Não!!! Não!!!". Era o deputado pernambucano Silvio Costa, na época pelo PTB. O nó da gravata vinha se desalinhando, a camisa amarrotada, suando em bicas da testa pelas bochechas. E com um ímpeto para defender a presidente que nem os petistas tinham àquela altura.

"O deputado Orlando Silva não sabe fazer conta. Nós ainda estamos no jogo", bradou. Nem aguardou as reações, pegou Silva pelo cotovelo, puxou ele de volta ao plenário quase arrastando o colega que se não coordenasse bem os joelhos cairia no percurso. O clima era meio cômico, meio inacreditável e temperado com alguns episódios circenses mesmo.

Agora foi

Bastaram mais alguns minutos e o então líder do governo na Casa, José Guimarães (PT-CE), saia ao encontro dos jornalistas para anunciar que, àquela altura, não havia mais votos para reverter. Dessa vez Silvio Costa estava ao lado, sem puxar ninguém. Orlando Silva também, sem ser arrastado por Costa.

Guimarães admitiu a derrota, chamou o impeachment de "golpe" e declarou que iriam lutar até o fim para resolver a questão no Senado.

No fundo, já sabia que não havia mais o que fazer. Às 23h07, o então deputado pernambucano Bruno Araújo (PSDB) deu seu voto pelo sim, o de número 342 que sacramentou a decisão. O resultado final foi 367 contra 137.

Carnaval

Durante todo o período de discussão e votação, ao longo do qual repórteres espalhavam bolsas pelo Salão Verde da Câmara, usavam-nas como travesseiros e aproveitavam para tirar breves cochilos, coisa que fiz algumas vezes (também no Salão Azul do Senado), era normal ser acordado com uma algazarra, uma gritaria vinda de qualquer lugar quando menos se esperava.

"Blocos" de deputados desfilavam de um lado para o outro como se fosse um carnaval, cantando paródias e músicas criadas para o momento. Os que eram contra o impeachment carregavam placas com dizeres como "Impeachment é Golpe". Os favoráveis, mais numerosos, portavam cartazes em verde e amarelo com a expressão "Tchau , Querida!".

Na época, repetíamos muito (entre dentes) o ditado popular: "Se cobrir vira circo, se cercar vira hospício".

Desfile de damas

Durante a votação em si, já no sábado, houve um tipo de "ritual de hipocrisia moralista" digno de nota para sempre. Parlamentares entravam pela chapelaria da Câmara acompanhados de beldades vestidas para uma festa, subiam a escada que dá acesso direto à entrada do plenário, deixavam as damas aguardando e entravam para proferir seus votos.

Lá dentro declaravam que estavam "votando pela família, pela esposa que estava em casa, pelos filhos fulaninho e fulaninha", depois saiam, retomavam suas acompanhantes do lado de fora e tomavam destino ignorado, mas certamente festivo. As comemorações entraram pela madrugada com muita bebida àquela noite. E não só isso.

Jarbas

Um dos votos mais icônicos daquele episódio foi proferido pelo então deputado federal pernambucano Jarbas Vasconcelos (MDB). O episódio foi lembrado por ele próprio, há alguns dias, durante um almoço em sua casa. Na sua vez de votar, Jarbas encarou o então presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB) e não o poupou: “Voto ‘sim’ pelo impeachment, mas quero dizer aqui do meu desconforto em ter vossa excelência presidindo esta Casa. Vossa excelência agrava cada vez mais com sua presença aqui e macula cada vez mais os brasileiros”.

Fato é que seis meses depois de presidir a sessão do impeachment, Cunha foi preso pela Operação Lava Jato, por corrupção. Jarbas sabia de quem estava falando.

Senado

Dilma só foi afastada da presidência realmente após a aceitação do processo no Senado, em 12 de maio, mas todo mundo sabia que a Câmara seria sua última chance de escapar.

Bastava que ela conseguisse 172 votos favoráveis. E isso se tornou uma montanha intransponível. A relação da chefe do Executivo com o Legislativo era tão ruim que ver o governo tentando conseguir apoio de um terço da Câmara era como observar um bicho-preguiça correndo uma maratona, mancando de uma perna e carregando um pneu de trator nas costas.

A imagem parece ridícula o suficiente? Pois era assim que a articulação do governo parecia àquela altura.

Golpe?

O processo seguiu com o afastamento no Senado, quando ela deixou o Palácio do Planalto e Michel Temer (MDB) tomou posse. E até hoje alguns insistem com a discussão sobre ter sido um impeachment ou ter sido golpe.

A verdade é que processos assim são instrumentos políticos que usam uma argumentação jurídica como base e verniz. É assim em outros países também.

Todo o rito foi correto do ponto de vista constitucional e institucional. A narrativa de golpe foi usada para ignorar o fato de que a governabilidade da presidente estava mortalmente comprometida e o país precisava seguir sem ela.

O presidente do julgamento final no Senado foi o então presidente do STF Ricardo Lewandowski, indicado por Lula (PT) à corte superior em 2006 e depois ministro da Justiça lulista em 2026.

Quem, na esquerda, achar com honestidade que se tratou de um golpe pode questionar o que Lewandowski pensa. Eu adianto: nos primeiros anos ele afirmava que tudo foi feito dentro da lei, depois passou a chamar de "tropeço do presidencialismo de coalisão". Mas nunca chamou o episódio de "golpe".

Consequências para PE

Para o impeachment da petista foi essencial a participação do PSB, inclusive. O partido hoje presidido por João Campos, que conta com o apoio de Lula e do PT para tentar a eleição ao governo, tinha 32 deputados e deu 29 votos a favor do impeachment da então presidente.

Havia seis deputados pernambucanos no partido. Todos votaram contra o PT. Bastavam os 29 votos do PSB para que Dilma nunca tivesse sido impedida. O placar seria 338 e ela terminaria o mandato.

A militância petista desde então nunca perdoou os socialistas pernambucanos, evitando votar nos aliados mesmo quando estão no mesmo palanque, como aconteceu em 2022 e acontece atualmente.

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