Cena Política | Análise

Boulos expõe dilema de Lula entre base fiel e voto moderado

Ministro fortalece discurso da base, mas amplia resistência entre eleitores moderados que tendem a decidir eleições apertadas no país

Por Igor Maciel Publicado em 14/04/2026 às 20:55

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Qual o valor daquilo que você já possui? Se estivermos falando de votos numa eleição, o preço é alto. Mas seria mais alto do que os votos que você ainda precisa conquistar? Guilherme Boulos, ministro da secretaria-geral da Presidência, deu entrevista ao Passando a Limpo. Pelo seu perfil e comportamento combativo, é tudo o que Lula (PT) precisa para manter os votos que já possui. O problema é que o atual presidente precisa ainda mais conquistar votos que não tem ainda. É aí que Boulos se torna um problema.

O que aconteceu

É importante recontar uma história bem conhecida da eleição de 2022. Jair Bolsonaro (PL) estava ainda longe de ser um derrotado. Crescia forte nas pesquisas e aparecia com chances claras de ser reeleito derrotando o PT no segundo turno. Uma semana antes da eleição, um aliado dele, Roberto Jefferson, recebeu a polícia a tiros e bombas quando ia ser preso. O eleitor ficou desconfiado, mas passou.

No dia da eleição, outra aliada, Carla Zambelli, perseguiu um militante adversário pelas ruas com uma pistola em mãos. Foi impossível negar que era um grupo de amalucados radicais. E Bolsonaro foi derrotado.

Depois veio um calhamaço de estupidez coletiva com o oito de janeiro, tentativa de golpe e por aí vai. Mas o fato é que a eleição na urna foi perdida porque, na última hora, o eleitor moderado percebeu que os bolsonaristas eram radicais demais e geravam instabilidade.

Os moderados

Pesquisas recentes têm apontado que os eleitores moderados, independentes, nem lulistas e nem bolsonaristas, ou como você quiser chamá-los, irão outra vez decidir a eleição.

Há levantamentos que mostram, em simulações de segundo turno com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro, um dado de 15% de "não voto", aqueles que não dizem não querer nem um e nem outro. Quando o resultado é estratificado, separado entre aqueles que são de esquerda, direita ou independentes, o percentual de "não escolha" sobe para 26%.

A maior parte dos indecisos são os chamados moderados. E em uma eleição que tende a ser muito apertada, importam muito os votos que não são nem de esquerda e nem de direita.

Boulos

É nesse contexto que Guilherme Boulos mais atrapalha do que ajuda. Ele é importante para manter os votos da esquerda, no embate com a direita. Mas os votos que podem eleger estão entre aqueles que são moderados. É aí que mora a questão. Exposições amplas do ministro, ajudam a conquistar o voto moderado ou fazem com que o eleitor que não é de esquerda e nem de direita olhe e pense: "esse povo é radical demais", como aconteceu com os bolsonaristas em 2022.

Boulos é extremamente inteligente, não é pateta como Jeffersons ou Zambellis por aí. Mas está pronto para guerra porque alguém o convenceu de que ele precisa matar e morrer para ser o sucessor de Lula um dia. Talvez por isso o psolista ande tão parecido com o Luiz Inácio de 1989. E aquele Luiz Inácio perdeu a eleição.

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