Cena Política | Análise

A campanha sem ideias que vivemos empurra país para governo sem rumo

Estratégia baseada na rejeição domina disputa, esvazia o debate e amplia o risco de paralisia institucional após a eleição nacional.

Por Igor Maciel Publicado em 13/04/2026 às 20:00

Clique aqui e escute a matéria

A pré-campanha presidencial de 2026 está cristalizando uma deformação preocupante da política brasileira e fala muito sobre o estado de espírito do eleitorado. O debate nacional perdeu ambição, perdeu conteúdo e perdeu horizonte de futuro. Em vez de disputar rumos para o país, as campanhas passaram a explorar medos recíprocos, rejeições sedimentadas e aversões já conhecidas. O eleitor é empurrado menos para uma escolha e mais para um descarte. Não importa quem tem projeto nacional e sim "quem o país deseja impedir".

O resultado é uma campanha pobre em formulação, previsível na retórica e frágil naquilo que deveria dar sustentação ao dia seguinte da eleição, que é o governo. Se nenhuma ideia é debatida até a eleição, os próximos quatro anos serão mais ou menos o que foram estes últimos quatro: um oceano de inutilidades retóricas e políticas públicas sem sustentação com muito gasto de dinheiro do pagador de impostos.

Rejeição central

A engrenagem das candidaturas mais competitivas hoje opera dentro desse mesmo molde. A mensagem principal já não se organiza em torno de obras, reformas, metas ou compromissos de governo. O centro da comunicação está em bloquear o outro campo.

Lula (PT) fala para o eleitor que teme a volta do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro (PL) fala para o eleitor que deseja interromper a permanência de Lula e do lulismo no poder. Ronaldo Caiado (PSD) tenta ocupar o espaço da saída alternativa, mas sua promessa também se estrutura na recusa da polarização, e não na apresentação de uma agenda capaz de reorganizar o debate nacional.

Muda a embalagem. O mecanismo permanece o mesmo nos três principais palanques.

Campanha oca

A diferença em relação a outros ciclos eleitorais chama atenção. O Brasil já atravessou campanhas polarizadas em que a disputa emocional convivia com algum lastro programático. Havia exageros, simplificações e marketing, mas ainda existia a obrigação de apresentar um plano, um enredo administrativo, uma promessa de governo minimamente identificável. Agora, essa obrigação quase desapareceu. Nem para fingir.

O mercado eleitoral parece ter concluído que proposta não mobiliza, não engaja e não converte voto, então não adianta gastar energia com essa "encenação".

O efeito é devastador. A campanha fica mais fácil para o marqueteiro, mas o país entra no processo eleitoral sem saber o que cada força política pretende fazer de concreto com o poder. E sem que ninguém precise se comprometer. Lula foi eleito em 2022 prometendo tirar Bolsonaro. Cumpriu o que prometeu e passou este governo em sua versão mais errática já vista. A impressão, às vezes é que ele é um ex-presidente em processo de reeleição.

Contraste lateral

Nesse ambiente rarefeito, qualquer candidatura que ainda apresente propostas, mesmo controversas, heterogêneas ou até problemáticas em vários pontos, acaba funcionando como contraste. Não porque tenha centralidade real no jogo, mas porque expõe a indigência programática das campanhas maiores.

A exceção ajuda a iluminar o padrão. Quando uma proposta concreta, ainda que discutível, já parece novidade. É nisso que Renan Santos (Missão) aparece falando qualquer absurdo e acaba chamando a atenção. Bizarro ou não, ele é o único que propõe alguma coisa.

Escolha negativa

Essa lógica da rejeição corrói o sentido do voto. O eleitor passa a ser treinado para agir por negação. Em vez de aderir a um caminho, ele apenas tenta bloquear o cenário que mais teme. O voto vira instrumento de contenção, a campanha se transforma em um plebiscito permanente sobre o adversário e a eleição perde a capacidade de produzir mandato político claro, porque quem vence o faz muito mais pela rejeição do outro do que pela força daquilo que propõe.

Ressaca institucional

O problema real aparece depois. Um governo eleito sem base programática consistente chega ao poder com baixa capacidade de coordenar expectativas, organizar prioridades e sustentar enfrentamentos difíceis. Nesse vazio, o Congresso amplia sua lógica fragmentada e territorializada.

O dinheiro público segue pressionado por disputas paroquiais, por emendas pulverizadas e por obras de retorno imediato, enquanto os projetos estruturantes ficam sem centralidade política, sem defesa pública e sem comando estratégico. A eleição sem ideias não termina na urna. Ela contamina a governabilidade do futuro. E o Brasil estanca. Ideia não elegem mais? E, sem ideias, o que é que se constrói?

Compartilhe

Tags