Cena Política | Análise

Lula precisa para de contar com o erro dos outros e começar a agir

Nos últimos anos, as recuperações do presidente nas pesquisas vieram após crises ou tropeços da oposição. E se Flávio Bolsonaro não errar?

Por Igor Maciel Publicado em 09/03/2026 às 20:00

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A nova pesquisa Datafolha reforça uma tendência que começou a aparecer em levantamentos anteriores e ganha força no cenário presidencial de 2026. O presidente Lula (PT) volta a surgir tecnicamente empatado com um adversário da direita. O levantamento registrou 46% para o petista e 43% para o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas o dado mais relevante não está apenas na proximidade numérica.

A pesquisa revela uma mudança clara de direção nas intenções de voto. Lula perdeu cinco pontos em três meses, enquanto Flávio cresceu sete no mesmo período. Numa disputa polarizada, a direção do movimento costuma pesar tanto quanto o número absoluto. O primeiro ponto de observação é que o lulismo já não ocupa uma posição automática de favoritismo. Se a trajetória atual se mantiver, Flávio Bolsonaro pode aparecer à frente de Lula nas próximas pesquisas.

A eleição de 2026 começa a deixar o terreno das hipóteses e passa a assumir contornos concretos de competição política acirrada com um desafio para cada lado. O de Flávio é continuar trajetória de subida, convencendo eleitores moderados de que não é radical como o resto da família. O de Lula é para de depender dos erros dos adversários para crescer. Até agora, sempre que a avaliação do presidente melhorou foi por erro de algum adversário.

Crescimento limitado

O principal desafio do presidente está na dificuldade de ampliar sua base eleitoral, apesar de controlar a máquina federal. Lula governa há três anos e ainda não conseguiu converter a posição institucional do governo em expansão consistente de apoio. Momentos de recuperação ocorreram apenas em contextos marcados por crises ou erros estratégicos de adversários. Basta lembrar dos erros de Hugo Motta na Câmara que deram ao governo o discurso de "Ricos x Pobres" ou o erro de Eduardo Bolsonaro quando tentou se ligar ao tarifaço de Trump. Foram os melhores momentos deste governo.

Esses episódios produziram oscilações pontuais, mas não formaram um ciclo duradouro de crescimento político do governo. Como é aproveitada no erro dos outros, e não conquistada, qualquer episódio (como o do carnaval de 2026 ou do PIX em 2025) derruba a popularidade do líder petista com facilidade.

Existe também um fator estrutural que limita essa expansão. Parte relevante da estratégia do lulismo continua apoiada na lógica dos primeiros mandatos presidenciais, quando programas sociais produziam forte retorno político. O ambiente eleitoral atual é distinto. E os integrantes da gestão não conseguem entender isso, por mais que se explique.

Direita competitiva

Do outro lado da disputa, Flávio Bolsonaro começa a consolidar um espaço político próprio dentro do campo conservador. O senador herdou de forma quase integral o eleitorado associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, projeta uma imagem pública menos conflituosa que a de outros integrantes da família.

Esse perfil ajuda a ampliar o diálogo com setores do eleitorado que mantêm resistência ao estilo político mais agressivo que marcou o bolsonarismo nos últimos anos. Entre analistas políticos cresce a percepção de que Flávio desempenha o papel de político profissional dentro do grupo familiar e talvez seja o único espécime entre os seus. A combinação entre herança eleitoral e comportamento mais moderado abre espaço para ampliar apoio além da direita ideológica.

Espaço de expansão

Outro elemento importante do cenário aparece na distribuição dos votos da direita fora do bolsonarismo. Ratinho Júnior registra cerca de 7% das intenções de voto e Romeu Zema aparece com aproximadamente 4%. Esses percentuais representam um eleitorado de perfil mais moderado que ainda observa a disputa com cautela.

Caso a eleição evolua para um confronto direto entre governo e oposição, parte desse contingente tende a migrar para o candidato que demonstrar maior viabilidade eleitoral. Nesse contexto, Flávio Bolsonaro possui margem para crescer absorvendo votos hoje dispersos entre candidaturas alternativas da direita.

Ainda tem muita água para passar embaixo dessa ponte. Mas Flávio não demonstra ter o perfil de quem vai cometer erros ao ponto de ajudar Lula. Ele tem pai, irmãos e madrasta que podem complicar sua candidatura.

Mas, para Lula, seria bom parar de contar com o erro dos adversários e começar a conquistar apoio por conta própria, pra variar um pouco neste mandato.

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