Entre PSB e PT a união simbólica sai de cena e fica a matemática
Alckmin cumpriu papel histórico em 2022, mas a eleição seguinte exige estrutura partidária concreta, não apenas capital simbólico.
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Geraldo Alckmin (PSB) chegou à campanha de 2022 como um símbolo poderoso para Lula (PT) e, quatro anos depois, pode ser considerado simbolicamente dispensável, embora tenha feito tudo certo. Não é culpa dele e nem é culpa de Lula, é bom que se diga. As coisas são assim.
O destino do vice-presidente resume a transição que o PT faz agora. Sai a lógica do gesto, da fotografia histórica, do aperto de mão entre antigos rivais. Entra a lógica da planilha, da bancada, do número de prefeitos e votos no Congresso.
Campanhas ainda precisam de narrativas para emocionar o eleitor, mas também dependem de aritmética para sobreviver. Cada momento histórico vai dizer o que será mais necessário entre aritmética e narrativa.
O próximo ciclo presidencial de Lula começa menos preocupado com símbolos de união e muito mais concentrado na força real que cada aliado consegue entregar. É a realidade de Lula, do PT, do PSB e de Geraldo Alckmin.
Símbolo político
Em 2022, a escolha do ex-governador de São Paulo para a vice funcionou como peça central de comunicação. Alckmin, afastado da linha de frente da política, não trazia votos próprios relevantes nem estrutura partidária robusta. Seu valor era outro. Ele representava a "imagem da reconciliação entre antigos rivais históricos contra o mal".
O recado narrativo era simples e poderoso. Se até adversários de décadas podiam dividir o mesmo palanque, o adversário comum exigia união ampla. Alckmin simbolizava moderação, centro e pacificação institucional. Serviu ao propósito e muito bem.
A conta fria
Quatro anos depois, o ambiente mudou e criou um dilema no entorno lulista. A política voltou ao terreno da contabilidade. O governo precisa aprovar projetos, negociar orçamento, formar maioria estável no Congresso. Nesse tabuleiro, simbolismo não vota. Quem vota são deputados e senadores. Quem entrega palanque ramificado são prefeitos. Quem garante governabilidade são bancadas organizadas. A aritmética começou a pesar mais do que o símbolo.
É nesse ponto que a presença de Alckmin e do PSB perde densidade estratégica para o PT. O partido socialista tem 16 deputados federais e 4 senadores. O MDB, potencial concorrente à vaga de vice, soma 42 deputados e 11 senadores. A diferença não é de retórica narrativa, não se trata de sentimento, emoção ou idealismo. É matemática.
Pernambuco encolhido
O próprio reduto histórico do PSB ajuda a explicar essa mudança de percepção. Pernambuco já foi vitrine nacional da legenda. Chegou a controlar cerca de 70 prefeituras e hoje administra pouco mais de 20. Essa retração diminui a capacidade de mobilização e enfraquece o argumento de capilaridade. Sem base territorial consistente, o partido perde peso na mesa de alianças.
Para Lula, a decisão deixa de ser afetiva ou histórica. Torna-se pragmática. Qual legenda entrega mais prefeitos, mais deputados, mais estabilidade? O cálculo é objetivo. E, sendo objetivo, o PSB perdeu muito terreno.
Poder real
Toda campanha precisa de um enredo que emocione e quando a demanda é por fantasia dá pra fingir importância como um ator que sai da expressão de miséria ao reinado em um estalar de dedos.
Mas quando é o pragmatismo o que mais pesa, é o número que importa. O símbolo abre portas, mas o número mantém o fluxo.
Em 2022, Alckmin foi o gesto necessário. Em 2026, o Planalto procura estrutura.Se o PSB não apresenta força concreta, com números, e se não cria outro ativo simbólico relevante que somente o partido de João Campos pode oferecer a tendência natural é ceder espaço a partidos com musculatura maior.
E é bom dizer o seguinte: em time que está ganhando se mexe sim, desde que seja de forma inteligente. Esse ditado não serve mais nem pra futebol, imagina pra política.