Na Rádio Jornal, Zema lê o humor do eleitor e aposta na imagem de gestor
Da direita à esquerda, presidenciáveis adaptam biografias ao cansaço do eleitor e evitam o rótulo de políticos. Governador de MG tem vantagem nisso.
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O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), passou pelo estúdio da Rádio Jornal nesta semana com um roteiro claro. Falou da própria gestão, relembrou os dois mandatos consecutivos e, sem rodeios, confirmou que está em pré-campanha ao Palácio do Planalto.
Mas o que mais chamou atenção durante quase uma hora de conversa no Passando a Limpo não foi a lista de obras, nem os números fiscais. Foi a narrativa. Zema segue se apresentando como alguém de fora do sistema, um empresário que caiu na política quase por acaso e que prefere ser visto como gestor, não como político profissional.
É um discurso curioso para quem governa o segundo maior colégio eleitoral do país há quase oito anos, mas faz sentido quando se observa o ambiente nacional. Sim, é um discurso inteligente. O eleitor demonstra cansaço com partidos, com a polarização permanente e com a sensação de que a política invadiu a rotina das famílias.
Nesse cenário, a figura do administrador pragmático soa mais palatável do que a do militante ideológico, e é exatamente esse espaço que o mineiro tenta ocupar ao circular pelo Nordeste em busca de novos apoios.
Diagnóstico
Pesquisas recentes indicam uma fadiga coletiva com a política tradicional. Parte relevante do eleitorado, algo em torno de um terço dos entrevistados, diz não confiar nos partidos, evita rótulos e rejeita a briga constante entre campos ideológicos.
A discussão política, em muitas famílias, virou fonte de desgaste dentro de casa. Esse humor social cria um terreno fértil para candidatos que prometem menos discurso e mais gestão. Zema está enquadrado.
Zema
Empresário do varejo, o governador mineiro construiu uma rede de lojas com grande capilaridade no interior de Minas e transformou essa trajetória em capital político. Repete que não emprega parentes, que paga as próprias despesas pessoais e que administra o Estado como administrava suas empresas.
A reeleição, em 2022, funciona como "selo de eficiência" desse modelo de administração. Mais do que negar a política o pré-candidato ao Planalto tenta traduzi-la em linguagem empresarial.
Estratégia
O movimento do governador, no entanto, não é isolado. O que se vê é uma adaptação estratégica dele, com sua própria história, ao sentimento do eleitor. Em vez de ideologia, ele fala em gestão empresarial. Em vez de carreira partidária, ele defende sua experiência técnica.
Igual a ele, por causa da tendência do eleitorado, cada pré-candidato procura construir uma biografia que dialogue com essa expectativa.
Padrão
Renan Santos (Missão) aposta no discurso de ruptura. Flávio Bolsonaro (PL) tenta se apresentar como alguém contra o sistema apesar do histórico familiar. Até Lula (PT) o maior representante do "sistema" atualmente, procura deslocar o desgaste para o Congresso e para o centrão.
São estilos diferentes para o mesmo diagnóstico. Ninguém quer ser identificado como político profissional em uma eleição marcada pelo desencanto com a política.
Tendência
A passagem de Zema por Pernambuco ajuda a ilustrar algo maior do que sua própria candidatura. Ela revela o caminho que parte do eleitorado está apontando e como os presidenciáveis ajustam o tom para acompanhá-lo. Zema, é bom que se diga, já fazia esse discurso e o praticava antes da moda atual.
Em 2026, a disputa pode não ser apenas entre esquerda e direita, mas entre narrativas de gestão e distanciamento do sistema. Mais do que rejeitar a política, o eleitor parece buscar alguém que a torne menos pesada no cotidiano. É nesse terreno que a próxima campanha começa a ser desenhada.