EUA vão impondo medo no curto prazo e arriscam o respeito para sempre
O método de pressão utilizado por Donald Trump substitui alianças, fragiliza laços estratégicos e transforma liderança em chantagem.
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Os números mais recentes do Pew Research Center, um importante e apartidário centro de pesquisa dos EUA, funcionam como um termômetro incômodo para Washington. Desde julho de 2025 a confiança internacional nos Estados Unidos caiu de forma consistente em países que historicamente orbitavam a liderança americana, enquanto a China avançou silenciosamente no mesmo espaço.
O dado que mais chama atenção não é apenas a perda de simpatia por Donald Trump, mas a erosão da credibilidade estrutural do próprio país. O mundo passou décadas enxergando os EUA como fiador de estabilidade, o ator que combinava poder militar com narrativa moral de defesa da democracia. Essa combinação garantia influência duradoura, mesmo quando as intervenções eram controversas. A imagem de protetor funcionava como ativo diplomático e abria portas sem necessidade de coerção explícita. Isso mudou.
Porrete
No primeiro ano do novo mandato Trump trocou a persuasão pela imposição e reeditou a chamada "diplomacia do porrete", baseada em ameaças, tarifas e demonstrações de força. O resultado imediato pode até produzir ganhos táticos, mas o efeito estratégico é corrosivo no médio e no longo prazo.
A marca americana de liberdade, construída ao longo das últimas três décadas, começa a perder valor simbólico. Quando a potência que se apresentava como protetora passa a agir como proprietária truculenta, a reação natural do restante do planeta é procurar alternativas. E a alternativa disponível atende pelo nome de China.
Ruptura
Nas últimas três décadas os Estados Unidos cultivaram influência por meio de alianças, cooperação militar e ajuda econômica. Havia cálculo político, mas também preocupação com legitimidade. Trump rompe esse padrão e assume abertamente a coerção como método. A mensagem deixou de ser parceria e virou submissão. O recado agora é "obedeça ou pague".
Intervenções
A prisão de Nicolás Maduro na Venezuela simboliza essa guinada. O discurso oficial fala em democracia, mas a troca por uma liderança igualmente autoritária e alinhada a Washington expõe o pragmatismo cru.
O mesmo raciocínio aparece na Groenlândia, tratada como ativo estratégico a ser anexado, não como povo com direito a decidir seu destino.
Pressão
A postura se repete diante de aliados históricos. Canadá e países europeus convivem com ameaças tarifárias e com o condicionamento do apoio militar. A diplomacia virou chantagem e, em vez de liderança, surge uma desconfiança com o futuro. Em vez de cooperação, os europeus estão alimentando ressentimento.
Reputação
Os dados do Pew confirmam o custo dessa escolha. Em várias nações a China já empata ou supera os Estados Unidos em confiança popular. As populações de Holanda, Espanha, México e Indonésia declaram preferência por Pequim. França e Canadá registram empate técnico. Até no Brasil a diferença encolheu para poucos pontos percentuais, algo impensável há poucos anos.
Consequência
A força impõe obediência no curto prazo, mas não constrói lealdade. Ao trocar soft power por intimidação, Trump entrega à China aquilo que sempre foi o maior trunfo americano, a capacidade de ser visto como referência.
Paradoxalmente, ao tentar reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos, o presidente acelera a aproximação do Ocidente com seu principal rival.
Deveria ser um alerta para os líderes americanos. Trump vai passar, mas deixará a eles como herança uma imagem deteriorada do que os EUA representavam para o mundo. Pela força é possível ganhar no curto prazo. Mas vale a pena ganhar agora e ser irrelevante no futuro?