Cena Política | Análise

A ilusão da democracia direta nas redes sociais brasileiras

As redes criaram a sensação de proximidade com parlamentares, mas não produziram vínculo político nem cobrança por propostas e resultados.

Por Igor Maciel Publicado em 21/01/2026 às 20:00

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A política brasileira vive hoje um paradoxo que ajuda a explicar a crise permanente de representação do Legislativo. Nunca o eleitor esteve tão próximo dos políticos quanto na era das redes sociais. Nunca foi tão fácil comentar, reagir, enviar mensagens diretas e acompanhar o dia a dia de deputados e senadores.

Ainda assim, nunca foi tão grande o distanciamento entre eleitores e representantes quando o assunto são as pautas de interesse real da população.

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Inteligência de Mercado do Centro Universitário Frassinetti do Recife, a UniFafire, escancara esse problema.

Entre 64% e 69% dos eleitores pesquisados na Região Metropolitana do Recife afirmam não lembrar em quem votaram para deputado federal, deputado estadual ou senador na eleição de 2022.

Paradoxo

O dado chama atenção justamente porque contraria o discurso dominante de que as redes sociais aproximaram representantes e representados. Em tese, o eleitor tem hoje uma relação quase "direta" com o parlamentar. Pode acompanhar sua rotina, suas opiniões e até interagir com ele.

Na prática, essa proximidade permanente não se traduz em vínculo político consistente. Ao contrário, produz uma relação superficial e frágil que facilita ao parlamentar ser eleito e passar quatro anos dando as costas para a população que o escolheu e nem lembra disso.

Escolha

O voto deixa de ser orientado por propostas, projetos ou capacidade de atuação legislativa e passa a ser guiado por performance nas redes.

O candidato que viraliza, que faz piada, que aposta no humor ou no gesto chamativo ganha espaço. O problema é que esse tipo de escolha não cria compromisso. Quem vota por entretenimento não cria expectativa de entrega concreta e, portanto, não cobra.

Basta que o sujeito continue fazendo firula nas redes para continuar popular e, na eleição, tentar transformar esse ambiente positivo aparentemente despropositado em voto na urna.

Cobrança

Sem cobrança, a lógica da representação se rompe. O eleitor não acompanha o mandato porque não lembra do voto. O parlamentar, por sua vez, não se sente devedor daquele eleitor. A relação política se dissolve rapidamente após a eleição. O resultado é um mandato desconectado das demandas coletivas e orientado por interesses próprios de sobrevivência eleitoral.

Nesse ambiente, os incentivos se distorcem. Parlamentares passam a concentrar esforços na disputa por emendas, no fortalecimento de bases locais e na autoproteção institucional. Lembram a PEC da Blindagem

Projetos que dialogam pouco com as necessidades da população ganham espaço, enquanto temas estruturais ficam em segundo plano. A política vira instrumento de manutenção de poder e os grandes projetos vão sendo desvalorizados.

Efeitos

O efeito final é conhecido. O Legislativo aparece sistematicamente como um dos poderes com menor aprovação popular. A credibilidade é baixa, a confiança é frágil e a sensação de distanciamento é permanente. O eleitor vê o parlamentar, mas não se vê representado por ele, embora acabe votando nele outra vez.

A conexão excessiva das redes, quando não vem acompanhada de consciência política e critério de escolha, gera desconexão democrática.

O resultado é um Legislativo frágil e desacreditado, com um parlamentar forte, mas distante da sociedade. Enfrentar esse paradoxo é condição básica para qualquer tentativa séria de amadurecimento político no país. E para isso é necessário investir em educação política básica.

Mas educação política, neste país, é algo que ainda não existe nem para os eleitores e nem para os eleitos.

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