Cena Política | Análise

A corrida napoleônica de Trump e os riscos da expansão sem freios

Assim como Napoleão Bonaparte fazia no início do século XIX na Europa, Trump acumula adversários e aposta que eles jamais se unirão para enfrentá-lo.

Por Igor Maciel Publicado em 20/01/2026 às 20:00 | Atualizado em 21/01/2026 às 11:10

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A pergunta preocupada que circula fortemente nos bastidores da política internacional é "por quanto tempo Donald Trump conseguirá sustentar uma estratégia de enfrentamento global baseada em lógica imperial, num mundo muito mais interdependente e institucionalizado do que aquele que moldou as grandes potências do século XIX?

A comparação com Napoleão Bonaparte pode até ser feita e não surge por acaso. Se você raciocinar sobre poder, expansão e limites, todas as fronteiras de intenção que Trump ultrapassa hoje são muito parecidas com as que o imperador corso da França ultrapassou no início dos anos 1800.

Napoleão é a figura preferida para caracterizar os loucos atualmente. Pensar que é Napoleão é inofensivo como caricatura, mas se ele ocupa o papel formal de presidente dos EUA, a coisa preocupa.

Império

Napoleão Bonaparte construiu seu projeto político a partir da expansão territorial e da centralização do poder. Na visão dele a França precisava ser grande, rica e temida. A força militar, com suas estratégias modernas para a época, eram o instrumento para impor essa visão.

Trump, guardadas as diferenças de época, opera com lógica semelhante. Não busca anexações formais, mas expansão de influência econômica, energética e geopolítica. O objetivo é o mesmo. Fortalecer o seu centro de poder e reduzir a autonomia dos demais.

Inimigos

O eixo da estratégia napoleônica era o enfrentamento à Inglaterra. Quem se relacionasse com Londres passava automaticamente a integrar o campo inimigo. Essa foi a base do conjunto de "Guerras Napoleônicas" que alguns historiadores defendem ter sido a verdadeira 1° Guerra Mundial.

Trump reproduz esse raciocínio ao tratar China, Rússia e Irã como ameaças centrais. Países que negociam com esses atores são pressionados militarmente, taxados ou isolados.

A política externa deixa de ser um espaço de mediação e passa a funcionar como instrumento de punição.

Pressão

Napoleão utilizou o bloqueio continental como ferramenta de coerção. Trump substitui canhões por tarifas, sanções e embargos. O método muda, mas a lógica é a mesma.

Ameaçar para obter alinhamento. Forçar escolhas. Reduzir alternativas. A diplomacia perde espaço para uma política externa transacional, em que o custo da desobediência é elevado deliberadamente.

Petróleo

O caso da Venezuela é concreto e ilustra essa lógica com clareza. O discurso sobre democracia funciona como verniz retórico. Trump não está preocupado com a democracia nem nos EUA, muito menos na Venezuela. O fator decisivo é energético. Reservas estratégicas, controle de fluxo e alinhamento comercial.

O mesmo vale para a pressão sobre o Irã e para o interesse obsessivo em áreas consideradas sensíveis do ponto de vista geopolítico.

A Groenlândia surge como símbolo desse imperialismo de expansão napoleônico. Não se trata apenas de um território gelado e distante. É uma peça estratégica num tabuleiro que envolve rotas, recursos e contenção de adversários.

O gesto de desenhar mapas e projetar símbolos de domínio, como ele fez esta semana no Salão Oval, pondo a bandeira americana no território dinamarquês, no Canadá e até na Venezuela, não é aleatório. Ele comunica sua intenção expansionista sem timidez, para constranger os outros países mesmo.

Limites

Napoleão avançou demais, rápido demais e contra inimigos demais. Ao tentar subjugar a Rússia, encontrou não apenas um exército, mas o peso do inverno e da exaustão. Partiu para subjugar a Rússia com 600 mil soldados e voltou com 10% deles vivos. Quando você estica demais o tecido, ele esgarça. O resultado foi o enfraquecimento irreversível do seu projeto.

Trump opera num sistema mais complexo, com mercados integrados, alianças frágeis e instituições multilaterais. Ainda assim, o risco da sobrecarga estratégica é real. E se uma coalisão, parecida com as que a Inglaterra criou nos anos 1800, for criada para enfrentar o americano? Hoje, uma união entre China, Rússia e União Europeia é improvável. Mas é impossível?

Coalizões

O imperador francês caiu quando seus adversários conseguiram se organizar em coalizões sucessivas. Foram sete delas, até uma ser bem sucedida na derradeira batalha de Waterloo.

Hoje, o mundo dispõe de fóruns, tratados e organismos que funcionam como amortecedores de conflitos. Eles não impedem tensões, mas aumentam o custo do isolamento. A resistência a Trump não virá de um único ator, mas da soma de desconfortos acumulados. E o presidente norte-americano tem sido muito hábil em causar desconfortos mundo afora.

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