Cena Política | Análise

Sobre o metrô do Recife e a omissão política da última década

Por mais de uma década o metrô foi tratado por prefeitos e governadores como um problema federal no qual eles não tinham qualquer responsabilidade.

Por Igor Maciel Publicado em 17/12/2025 às 20:00

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O acordo firmado nesta semana para o metrô do Recife é, antes de tudo, uma decisão política. Não no sentido partidário ou eleitoral, mas no sentido mais nobre da palavra: a escolha de assumir responsabilidades.

A governadora Raquel Lyra (PSD) saiu do discurso confortável, largamente utilizado ao longo de décadas pelos seus antecessores e pelos prefeitos da Região Metropolitana do Recife, de que o equipamento é um problema exclusivamente federal, e decidiu trazer o problema para dentro do Governo de Pernambuco. Ao fazer isso, assumiu riscos, custos e cobrança, mas deu exemplo.

Sobretudo, assumiu o dever de tentar resolver um serviço essencial que afeta diretamente a vida de milhões de pernambucanos.

O acordo com o governo federal prevê o envio imediato de recursos para dar fôlego ao sistema, hoje federal e praticamente abandonado, e estabelece o caminho para a transferência da gestão ao Estado. O valor não resolve tudo de imediato, mas cria as condições mínimas para que o metrô funcione até que seja estruturada a concessão à iniciativa privada, prevista para ocorrer até o fim de 2026.

Nessa etapa seguinte, o governo federal se compromete a aportar bilhões em investimentos, com contrapartida estadual, para modernizar, ampliar e tornar o sistema viável.

Omissão

Esse movimento contrasta de forma clara com o comportamento histórico de gestores públicos em Pernambuco.

Ao longo dos últimos anos, governadores e prefeitos de cidades diretamente impactadas pelo metrô foram entrevistados por este colunista em múltiplas ocasiões e sempre repetiram a mesma resposta diante das cobranças: o metrô é federal, portanto não é problema deles.

Reconheciam o colapso do serviço, mas se escudavam na burocracia e na letra fria da lei para justificar a inação. Foi uma omissão coletiva, institucionalizada e normalizada ao longo dos anos, principalmente na última década em que governador e prefeito do Recife discutiam o estado e a cidade mais como extensões de seu partido, o PSB, do que como ambiente coletivo geral.

Responsabilidade

A eleição de 2022 marcou uma inflexão nesse debate. Pela primeira vez, todos os candidatos ao Governo do Estado foram pressionados, em debates e entrevistas feitas dentro do Sistema Jornal do Commercio, a se posicionar sobre o metrô.

Raquel Lyra foi explícita, na época, ao afirmar que queria ser "parte da solução", inclusive assumindo a gestão, se fosse necessário. E foi.

O que se vê agora é o cumprimento dessa promessa. Não por obrigação formal, mas por responsabilidade política com o cidadão que depende do sistema todos os dias.

Exemplo

Essa lógica de que gestores precisam começar a parar de se esconder na política e assumir suas responsabilidades como representantes do povo, vale para muito além do metrô.

Segurança pública, mobilidade, saúde e educação sofrem do mesmo vício institucional. Prefeitos, governadores, presidentes, dependendo do que estiver escrito nas atribuições formais dos seus cargos, escondem-se atrás da Constituição para dizer que segurança é dever do Estado.

Presidentes, por muito tempo, empurraram o problema para os governadores. O resultado é conhecido: o cidadão segue sendo assaltado, adoecendo ou se deslocando mal, enquanto os entes federativos discutem competências por interesse político ou partidário.

Quem é vítima da violência ou do colapso do transporte não é apenas brasileiro, é recifense, olindense, pernambucano. E quem representa eles?

Política

A política existe para permitir soluções de gestão, não para justificar a paralisia. Quando gestores se recusam a dialogar, articular e dividir responsabilidades, quem paga a conta é a população.

O metrô do Recife é um símbolo desse fracasso acumulado pela omissão da última década. Por isso, o passo dado agora precisa ser reconhecido como mudança de postura.

Alguém decidiu assumir o problema em vez de empurrá-lo para um colega como vinha sendo feito. Méritos para a governadora Raquel.

Agora, é cuidar para que a política não atrapalhe a gestão. Sim, porque o ano de 2026 é eleitoral.

Alerta

Em 2022, uma solução muito semelhante já estava desenhada durante o governo Paulo Câmara (na época no PSB). Estava tudo encaminhado, texto pronto, mas ficou emperrada por causa dos partidos de esquerda e dos sindicatos.

A solução não avançou por pressão política, em um ano eleitoral, com resistência de sindicatos e interferência de integrantes do PSB e do PCdoB, com medo de perder votos no pleito daquele ano por estarem solucionando o caos do metrô com uma concessão.

O receio agora é que 2026 repita o mesmo roteiro. A política não pode mais atrasar a gestão. Se isso acontecer novamente, o prejuízo social será aprofundado, como foi nos últimos anos.

Futuro

Há um equívoco imenso na afirmação de que a política transforma a vida das pessoas. Não é verdade. Acreditar nisso é assumir um erro estrutural de pensamento. O que transforma a vida das pessoas é gestão. A política existe com o objetivo de construir as condições para que a gestão atenda o maior número de pessoas possível. Se a política, com seu oportunismo criminoso, não atrapalhar a gestão, a virada do metrô do Recife começa em 2026. Que assim seja.

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