Cena Política | Análise

Porto terá muita dificuldade para cumprir a missão que o PSDB espera dele

Porto não é um neófito que cairia em armadilha de Brasília sem ter um plano bem estruturado para o futuro. Mas a missão dele está longe de ser fácil.

Por Igor Maciel Publicado em 05/04/2025 às 20:00

A intervenção do PSDB nacional em Pernambuco tende a se transformar em um erro muito maior do que um acerto no médio e no longo prazo para a sigla. Amenizar esse baque vai depender muito do presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, Álvaro Porto (PSDB), designado para comandar a interferência forçada.

Na prática, Porto viu todo mundo sair da sala sem nem apagar a luz, e ainda ficou com a conta de energia na mão para quitar. Rapidamente, reclamou da debandada e anunciou que o partido não ficará na base de Raquel Lyra (PSD), assumindo, agora de direito, a oposição direta ao Palácio que já era um fato.

A missão dada ao presidente pelos tucanos nacionais, de estruturar uma chapa competitiva para a eleição de 2026, não é fácil por três motivos principais: o fator nacional, a influência da governadora e um componente familiar.

Nacional

O PSDB está falido politicamente. Não é por acaso que a salvação apontada em diversos planos passa por incorporações, fusões e federações, dependendo do salvador da vez.

O PSD chegou a negociar e quase concluir um desses projetos. Todo mundo iria se incorporar ao partido de Kassab (PSD) e o PSDB deixaria de existir. Parece radical, mas a verdade é que isso só não deu certo por causa dos interesses pessoais de Aécio Neves em Minas Gerais, conflitantes com o plano do PSD para Rodrigo Pacheco (PSD) na terra do pão de queijo.

Agora, outros projetos com outros partidos estão sendo estudados. A única certeza é que o PSDB sofrerá uma mudança substancial nos próximos meses, isso vai afetar Pernambuco e a incerteza constitui o pior clima do mundo para formar uma chapa proporcional, missão que foi dada a Álvaro Porto.

Todo aspirante a deputado, antes de se jogar para a urna, gastando dinheiro e expondo a própria imagem, quer avaliar se o ambiente em que está é seguro e previsível. Nesse ponto, é difícil para o PSDB garantir qualquer coisa, até num horizonte curto.

O PSDB nem sabe ainda se vai existir após o acordo com algum outro partido.

Influência

A influência da governadora de um estado como Pernambuco também não é fácil de desconsiderar. Isso tem um peso na hora de atrair nomes para formar uma chapa.

Muitos possíveis candidatos podem ficar ressabiados de embarcar numa nau que já larga declarando guerra a Raquel Lyra, com ela no cargo e disposta a fazer política como vem demonstrando nos últimos tempos.

A governadora está no exercício de um cargo que, seja qual for o momento de popularidade, não pode ser menosprezado pelo impacto potencial nas relações políticas e institucionais. E se, entrando no partido por convite de alguém que já declarou guerra, o convidado acabe virando alvo também?

Família

O terceiro ponto da dificuldade de Álvaro é o componente familiar. Não é segredo para ninguém que ele já anunciou o filho como futuro candidato a deputado federal. Para ter sucesso na empreitada, o presidente da Alepe precisará de uma chapa forte e é exatamente isto o que o PSDB nacional espera que ele faça.

A questão é como conseguirá montar uma chapa forte, com nomes competitivos, se todos os que forem convidados já sabem que irão disputar espaço dentro da sigla com o filho do presidente?

Sempre que se tenta encaixar um componente familiar há crises, mesmo quando os partidos estão bem estruturados e mesmo quando há sucesso. Aconteceu isso com Gilson Machado no PL e com Eduardo da Fonte no PP, apenas para citar dois casos recentes. Imagine no capenga PSDB.

Sem facilidade

Porto não é menino, é experiente em política e sabe manejar as peças do tabuleiro. Ele tem um grupo próprio, com bastante influência em vários municípios mesmo antes de alcançar a presidência do Legislativo. Está longe de ser um neófito que cairia numa armadilha de Brasília sem ter um plano bem estruturado para o futuro. Deve saber o que estava fazendo e os compromissos que assumiu com os tucanos.

Mas a missão dele é muito difícil e cheia de obstáculos.