Cena Política | Análise

Igor Maciel: A liderança lulista "de açúcar" numa eleição em que é preciso ser "concreto"

O concreto aguenta um certo nível de calor. O açúcar derrete, o líquido continua doce, segue transformando o sabor das coisas, mas perde consistência.

Por Igor Maciel Publicado em 03/04/2025 às 20:00 | Atualizado em 04/04/2025 às 10:01

Entre aliados do governo Lula começa a prosperar um clima de pouca esperança em relação ao petista em 2026. “Se é assim, como o presidente está liderando as pesquisas contra todos os possíveis adversários, inclusive Bolsonaro?”, você pode estar se questionando. Eu explico: é que existe a liderança de concreto e a liderança de açúcar.

O concreto aguenta um certo nível de calor sem deformar. O açúcar derrete, o líquido continua doce, segue sendo capaz de transformar o sabor das coisas, mas perde consistência e isso limita seu uso.

A liderança de Lula, atualmente, é de açúcar. Ele segue conseguindo atrair aliados para o governo, distribui cargos, adoça a vida dos partidos, mas ninguém aposta em sua consistência no longo prazo, no calor da eleição que se aproxima.

Calor

Um dado muito importante é a pesquisa Quaest divulgada com a intenção de voto de Lula em comparação com outros possíveis adversários. É verdade, ele venceria todos. Mas a pesquisa leva em conta o retrato de um momento em que não há campanha, nem eleição e nem pessoas tendo que acordar cedo no domingo para ir votar.

Em 2026 será diferente, o calor de uma disputa eleitoral nacional cobra uma consistência dos candidatos que os números do presidente não sustentam. Os aliados de Lula sabem disso.

Alternativa

Lula alcança 44% contra 40% de Bolsonaro (PL), tem os mesmos 44% contra 38% de Michelle Bolsonaro e até amplia a vantagem quando o candidato possível é Eduardo Bolsonaro (45% x 34%). Mas começa a perder intenção de votos quando o adversário possível é alguém que não tem o sobrenome do ex-presidente.

A chance contra Lula é maior na medida em que o candidato opositor está mais afastado do bolsonarismo. Esse fato demonstra duas coisas: a rejeição a Bolsonaro inviabiliza o bolsonarismo e existe uma busca, até entre os possíveis eleitores de Lula, por um nome alternativo que proporcione aposentadoria ao petista.

Melhor não

Há uma pergunta específica na pesquisa para ilustrar esse desejo. Segundo a Quaest, 62% dos eleitores entrevistados afirmam que Lula não deveria ser candidato à reeleição. Em pesquisas qualitativas, o cientista político Adriano Oliveira diz ter percebido esse sentimento já há algum tempo. Segundo ele, que falou para o programa “Passando a Limpo” da Rádio Jornal nesta quinta-feira (3), uma frase que marca o eleitor e se repete bastante é “Lula é bom, mas já deu o que tinha que dar”.

Essa é uma afirmação perigosa para um candidato carregar numa eleição. Basta aparecer uma alternativa equilibrada e o eleitor vai embora.

Slogan

Na busca por tentar reverter esses problemas. Sim, porque apesar do tempo escasso eles têm solução, o cientista político Antônio Lavareda destacou para a coluna uma reação importante, e essencial. O Governo vai assumir o slogan ‘O Brasil é dos Brasileiros’ em campanhas e ações realizadas.

A ideia é destacar a ampliação de programas e a criação de outros, deixando no ar a comparação de feitos com o Governo passado. Lavareda diz que a mudança do slogan é bem-vinda. “União e reconstrução” - o slogan antigo - perdeu o momento, ainda mais agora quando se vê que o país seguiu polarizado”, conclui.

Risco

É importante destacar que Lula pode até não ser candidato, mas precisa salvar o governo. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral. Independente de ser o próprio nome na urna ou o de um aliado sucessor, melhorar a popularidade da gestão é essencial para garantir o legado e a biografia lulista. Até para não ser candidato, Lula precisa salvar o próprio governo.

Caso contrário, tudo o que ele fez nos dois primeiros mandatos será encaixotado no mesmo arquivo do terceiro, como se tudo tivesse sido um desastre. O lulismo, inteiro, está sob um fio.

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