Igor Maciel: O prefeito e o tempo. Os planos de João Campos serão um desafio para o Recife
O trânsito piorou, alagamentos continuam e quando chove ainda há mortes registradas. Apesar disso, os recifenses terão que brigar por atenção.

Até o momento em que este texto vai sendo escrito, um dia continua tendo 24 horas. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), está se propondo a um desafio que talvez seja o maior da carreira política dele: enganar o tempo. E, se ele conseguir, terá um mérito que precisará ser reconhecido.
A questão é que o socialista é prefeito da cidade mais importante do estado, uma das mais complexas para se administrar no Nordeste e com desafios tão profundos que nem quando ele estava 100% focado na administração municipal conseguiu resolver. Ninguém sabe como será agora.
O trânsito piorou muito, os alagamentos continuam e quando chove ainda há mortes sendo contabilizadas pelas ruas. Estamos falando só do "trivial" entre esses problemas. Apesar disso, nos próximos meses, o Recife terá que disputar atenção com os outros projetos políticos e pessoais de seu gestor.
E isso é um risco, principalmente para o próprio Recife.
Tempo, tempo
Campos começou a circular pelo estado e faz isso com o objetivo de solidificar sua liderança dentro do PSB, além de trabalhar seu nome para ser candidato ao governo em 2026. Participa de eventos políticos no sertão, passa pelo agreste e vai intensificar a agenda até fora de Pernambuco.
Nas próximas semanas irá se afastar para lidar com a sua candidatura à presidência nacional do PSB e já avisou que vai ter que visitar ao menos quatro estados em sua campanha.
Nos próximos dias, irá a São Paulo, Minas, Ceará e Espírito Santo, que são estados onde os socialistas do PSB têm mais força além de Pernambuco. Nos intervalos, cuida do Recife.
E na crise
O risco é que o prefeito se notabilizou por estar sempre presente em tudo o que acontecia na cidade. O que é bom.
Mesmo nos alagamentos que nunca foram resolvidos, bastava cair uma chuva mais forte e o gestor fazia questão de aparecer no centro de monitoramento em imagens nas quais parecia estar conduzindo os técnicos da Defesa Civil.
Se uma chuva cair e o prefeito não estiver por ter compromissos partidários em outras cidades ou estados, todo mundo que minimamente molhar o pé no aguaceiro vai apontar a ausência como “definidora do caos”. Imagine se novas mortes acontecerem.
O prefeito gerou no imaginário do recifense uma sensação, verdadeira ou não, de onipresença. Frustrar isso pode ter um preço alto nas crises.
Ponte aérea
João vai ganhar a eleição interna no PSB, porque não há outro candidato e até agora só ele se apresentou para ocupar o lugar de Carlos Siqueira. A sede nacional do partido é em Brasília. Se você quiser encontrar o atual presidente, Siqueira, o mais fácil é ir se reunir com ele na capital federal.
Quando estiver no posto, o quanto o prefeito do Recife estará em Brasília e quanto estará no exercício da prefeitura, acompanhando obras na cidade? É exatamente porque ele é importante que o questionamento precisa ser feito.
Ele foi eleito em 2024 para resolver os problemas que ainda não foram solucionados. Em que momento das 24h de cada dia fará isso no novo mandato que pediu aos eleitores em outubro passado?
Antecipou
Durante a campanha de 2024, os adversários reclamavam que, uma vez reeleito, João Campos iria “abandonar” a gestão para ser candidato ao governo.
Na projeção desses adversários a “saída” aconteceria no limite de desincompatibilização, por volta de abril de 2026. “Ele vai ser reeleito e só vai ser prefeito por pouco mais de um ano”, diziam os opositores nos debates.
O que ninguém imaginava era que, muito antes disso, o socialista iria lançar-se à presidência do partido e já começar a se afastar, como parece estar acontecendo, antes mesmo de se lançar ao Palácio.
Gabaritou
O governo Lula gabaritou a pesquisa Quaest do mês de março. Conseguiu piorar sua situação em absolutamente todos os recortes do levantamento. Até o mais otimista dos lulo-petistas terá dificuldade para encontrar um único ponto positivo entre os números alcançados pela gestão atual da presidência.
Ao todo foram 22 segmentos, divididos entre faixa etária, região do país, escolaridade, renda familiar, religião e até entre os que votaram no atual presidente em 2022. O governo piorou sensivelmente em todos os gráficos apresentados. Deve ser algum recorde.
“Aliado, eu?”
O que mais chama atenção é a queda de aprovação no Nordeste, conhecido como reduto da esquerda há duas décadas. Desde o fim do ano passado, o governo Lula perdeu 17 pontos percentuais em aprovação. Chegou a ter 69% de resultado positivo e agora está em 52%. A rejeição que era de 26% em outubro atingiu 46% nos estados nordestinos em março.
O derretimento da popularidade lulista aqui é impressionante porque a região é considerada uma reserva de votos para o presidente e onde há briga de candidatos ao governo para ter seu apoio. Se não reagir, os discursos dos aliados terão que se adaptar. Isso se eles continuarem aliados.
Nada ajuda
Todas as apostas do governo nas últimas semanas se mostraram incapazes para reverter o quadro de popularidade.
O programa Pé de Meia não melhorou a aprovação entre os jovens. Com a faixa etária a partir de 16 anos, a rejeição ao governo era de 52% e piorou para 64%.
No caso dos evangélicos, para quem Lula tem feito discursos direcionados e até andou puxando orações em eventos, a rejeição era de 58% e subiu para 67%.
Até entre os futuros beneficiados com a isenção do imposto de renda, aqueles que ganham até 5 mil reais, a situação piorou. Nesse grupo de renda a rejeição era de 54% e foi a 61%.
Realidade
A pesquisa Quaest, para quem lê com atenção e sem paixão, é o retrato mais fiel de algo que vem sendo dito há dois anos e que o governo insiste em não escutar: o cenário é de acomodação com programas sociais, não adianta só gastar dinheiro com Pé de Meia, ampliação do Bolsa Família e isenção de Imposto de Renda se isso não vier em conjunto com um ajuste das contas públicas e uma melhora efetiva da economia do dia-a-dia. Tem que fazer um forte ajuste fiscal e cortar gastos. Ou não haverá resultado.
O programa social já entrou na conta do brasileiro e sua gratidão é tão permanente quanto a duração da palavra “obrigado”. Não tem “obrigado” grande o bastante que chegue na próxima eleição.
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