Igor Maciel: A "saída Tarcísio" no horizonte de Jair Bolsonaro quando for condenado
Hoje, Bolsonaro interdita a direita evitando qualquer um que possa ocupar seu lugar. Mas, é possível que apenas entregando o posto ele possa ser salvo

Após ser transformado em réu, Jair Bolsonaro (PL) disse que já esperava o resultado e desatou a repetir a ladainha que abastece sua militância. "Voto impresso", "urnas auditáveis" e outros temas tão conhecidos quanto refutados foram sendo listados para desespero de seus advogados de defesa que haviam orientado para que ele não voltasse a esse tom.
Mas enquanto os advogados cuidam do processo, o ex-presidente deveria começar a pensar no que virá depois, quando for preso. Sim, já é possível dizer que ele será condenado, não só pela robustez do processo, mas também porque os próprios ministros anteciparam seu entendimento sobre o caso e a tendência é que todos os réus terminem condenados, inclusive Bolsonaro.
Quanto antes ele absorver esse desfecho, melhor para traçar estratégias.
Como já foi
Um desses possíveis planos é seguir repetindo o que fez Lula em 2018, quando foi preso. Na época, como já foi detalhado aqui, o petista tomou a decisão de interditar a esquerda e transformar sua condição na condição de todo o grupo político ligado a ele.
O PSB e o PCdoB, além de outros partidos periféricos e o próprio PT ficaram sendo cozinhados para não lançarem candidatos. Se Lula estava preso, eles ficariam "presos" também. Os únicos partidos que se arriscaram foram o PDT com Ciro Gomes, e o PSOL com Guilherme Boulos. Os dois foram isolados pela esquerda, Ciro terminou com 12% e Boulos com 0,58%.
Haddad, tratado de forma humilhante pelo próprio Lula, durante a campanha tendo que ir semanalmente despachar com o ex-presidente na cadeia, perdeu no segundo turno para Jair Bolsonaro numa eleição em que foi atrapalhado até pelo próprio partido. Setores no PT se preocupavam com a possibilidade de uma vitória que fizesse a esquerda "não precisar mais de Lula".
O problema da fidelidade
Até agora, Bolsonaro vem fazendo isso, seguindo esse plano. Interdita a direita e conta com um movimento popular e partidário que mantenha o país "precisando dele" para que ele, mesmo preso, represente algum desejo de mudança ou salvação do povo e de seu grupo político.
Mas não é tão simples, os atores são outros e o contexto é diferente. Bolsonaro não tem dentro do PL a fidelidade canina que os petistas têm com Lula. Ele também já não consegue reunir multidões inquestionáveis como fazia quando estava na presidência.
Na manifestação mais recente, a tecnologia de Inteligência Artificial atestou 18 mil pessoas onde ele esperava um milhão e a PM do RJ havia declarado 400 mil.
Para completar este cenário diferente em relação a 2018, o governo Lula é ruim, mas as instituições estão equilibradas, funcionando bem e não há crises significativas de estabilidade como havia no governo anterior, quando Lula passou a ser visto como "solução urgente".
Se tudo estiver funcionando minimamente e a população estiver conseguindo se virar, Bolsonaro não será visto como solução.
Opção
Isso leva a uma alternativa que já tem sido comentada nos bastidores e pode ser a única esperança bolsonarista: Tarcísio de Freitas (Republicanos). A tese é que elegendo um presidente aliado, o eleito poderia conceder indulto, libertando o ex-presidente da cadeia assim que tomasse posse. Não poderia ser alguém da família, nem a esposa, para evitar a rejeição bolsonarista e a acusação de ser alguém sem experiência que está lá apenas como poste (um dos fatores que inutilizou Haddad em 2018).
Por isso o nome de Tarcísio, que tem experiência como governador, seria o escolhido.
Não é fácil
Há controvérsias, claro, porque o indulto direcionado a alguém condenado por tentativa de golpe pode ser considerado inconstitucional.
Outro porém é que campanhas eleitorais são duras e exigem compromissos dos candidatos. A tendência é que Tarcísio seja obrigado pelas circunstâncias a prometer que não libertaria Bolsonaro para assegurar o voto do centro e até de parte da centro-esquerda.
Outra dificuldade que pode ser considerada é uma traição mesmo. Depois de estar sentado na cadeira de presidente, sendo o principal líder do grupo que o elegeu, porque reativar alguém que irá lhe pressionar por poder e fazer sombra em sua gestão?
Não é fácil e o risco é grande, mas essa hipótese, hoje, seria a única a colocar alguma esperança no horizonte do capitão quando for preso.