Cena Política

As professoras de Putin e a ovelha que amarrou os pés dos pastores com Petróleo e Gás

Líderes mundiais fecharam os olhos para as intenções do presidente russo enquanto se beneficiavam do que ele proporcionava. Acharam que estavam no controle e fingiram que lidavam com um aliado.

Igor Maciel
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Igor Maciel
Publicado em 18/03/2022 às 14:11
MIKHAIL KLIMENTYEV / SPUTNIK / AFP
O presidente Putin - FOTO: MIKHAIL KLIMENTYEV / SPUTNIK / AFP
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Em 2019, Vera Gurevich, uma professora com 86 anos, aguarda ansiosa no salão de um grande palácio. Todos se posicionam e entra o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Ele caminha em direção a ela, lhe abraça e uma música toca. Os dois começam a dançar enquanto conversam. Ele sorri, coisa incomum. Trata-se da comemoração pelo dia internacional do professor, em 5 de outubro.

Aquela senhora risonha foi professora de Alemão do adolescente Putin. No documentário, de 2007, "The Putin System", sobre a ascensão do atual presidente ao poder, Vera tem um papel fundamental na hora de traçar algum ponto da personalidade dele.

Afirma que se corresponde com ele sempre e que, quando o ex-aluno virou presidente, ligou pra ele mandando ele corrigir o andar: "parece um pinguim caminhando. Presidentes não andam assim".

Voltando um pouco no tempo, para 2005, outro encontro, dessa vez em Israel. Ao saber que Putin estaria visitando o país, Mina Yuditskaya Berliner ligou para a embaixada. Queria encontrar-se com ele. Ninguém sabia quem era aquela mulher, mas o presidente desembarcou no país mandando um carro ir buscá-la assim que soube.

Berliner também foi sua professora, quando ele tinha 15 anos. Putin manteve a professora ao lado até enquanto estava conversando com o primeiro-ministro de Israel, na agenda oficial.

Conversaram, riram e, antes de ir embora, pediu que ela anotasse seu endereço em um caderno. Um tempo depois, recebeu presentes do Kremlin e, morando de aluguel, ficou feliz ao ganhar um apartamento de presente. Putin ainda mandou instalar eletrodomésticos na nova casa.

Duas caras

MIKHAIL KLIMENTYEV / SPUTNIK / AFP
O presidente Putin - MIKHAIL KLIMENTYEV / SPUTNIK / AFP

Talvez histórias como essa passem a impressão de que o presidente russo é o sujeito mais amoroso do mundo, talvez tenha sido esse tipo de coisa que fez líderes mundiais experientes, ao longo de duas décadas, ignorarem a face sombria e real do presidente que hoje invade a Ucrânia e é comparado até à Hitler.

Para começar, as eleições e reeleições de Putin merecem atenção especial. Sua ascensão ao poder aconteceu com um acordo, no mínimo, curioso. Enquanto estava no cargo de primeiro-ministro, Putin viu o presidente Boris Iéltsin envolver-se em vários casos de corrupção. Para ser indicado e concorrer ao cargo de presidente, em 1999, fez um acordo com Iéltsin: não o acusaria de nada. Assim foi feito.

Depois, entendeu que precisava resgatar o sentimento da população de uma "Rússia grande". Num ambiente em que o ex-presidente, alcóolatra e desorganizado, havia praticamente destruído a economia, esse discurso o fez muito popular.

Dizem que é mais fácil ser herói no caos.

Reeleições

AFP
Vladimir Putin perdeu o cargo de presidente honorário da Federação Internacional de Judô por causa da guerra contra a Ucrânia - AFP

E quem experimenta o sabor desse poder costuma apegar-se a ele. Após um mandato de quatro anos, Putin foi reeleito. E após mais quatro anos, com a constituição russa impedindo outra reeleição, arranjou uma maneira de seguir no poder: lançou e garantiu a eleição de um de seus auxiliares, Dmitri Medvedev.

Nesse ponto, qualquer semelhança com o Brasil, talvez, seja coincidência. Talvez.

A diferença de Lula (PT), que entregou o país a Dilma e ficou de longe olhando a tragédia, é que Putin ampliou os poderes do primeiro-ministro e, adivinhem, assumiu o cargo.

Medvedev passou quatro anos como um fantoche e, antes de deixar a presidência, ainda ampliou o mandato presidencial que era de quatro anos.

Em 2012, Putin reassumiu o cargo de presidente para passar seis anos, foi reeleito em 2018 para um mandato que terminará em 2024.

Em 2019, para não ter problemas de novo, já aprovou uma nova mudança na constituição, permitindo que ele possa se reeleger por mais dois mandatos. Seriam quatro mandatos seguidos, fora os 12 anos anteriores.

Cabe aqui um pensamento: a função de chefe de estado e de governo é das mais estressantes que existem. Sempre que alguém insiste em manter-se no poder após dar uma contribuição longa é porque, de alguma forma, as vantagens pessoais estão superando muito as dificuldades.

E vantagem pessoal em cargo público é corrupção.

Mas todo mundo fecha os olhos para isso dependendo das circunstâncias. Seja no Brasil, nos EUA ou na Rússia.

A ovelha e os pastores

Thibault Camus / POOL / AFP
Macron esteve com Putin nessa segunda-feira (7) - Thibault Camus / POOL / AFP

Putin sempre soube usar suas várias personalidades, construídas em anos de KGB, para fingir-se uma ovelha enquanto amarrava seus pastores pelo pé. Com ele, há sempre duas faces.

Há o político liberal, que se empenhava em abrir a economia para nações ocidentais e há o que muda a constituição russa com frequência para se manter no poder há 22 anos.

Há o que celebra parceria econômica e social com países como a França. Mas há o Putin cujo parlamento aprovou uma lei nacional que proíbe manifestações de valores que não estão de acordo com a "visão tradicional heterossexual".

Há o Putin que conseguiu reunir líderes da Alemanha, Japão, Itália e EUA em Moscou para celebrar os 60 anos da vitória contra Hitler. Mas, há o Putin que invade territórios vizinhos, como fez Hitler, com a desculpa de se sentir inseguro, para anexar ou controlar países numa recriação do antigo Império Russo.

Putin se apresenta como democrata, mas tem atitudes e pensa como um Czar. Os sinais sempre estiveram ali.

Ex-oficial da KGB, acostumado a dissimular tudo, o presidente russo sempre soube construir uma figura alternativa para dar aos adversários uma chance de não brigar com ele.

Basicamente, o mandatário russo está no poder desde o ano 2000 baseado na seguinte questão:

"Você pode me odiar pelo que eu sou ou você pode me amar pelo que eu pareço ser. Se eu tiver gás e petróleo para lhe fornecer, qual será sua escolha?".

"Amizade" entre líderes

Foto: SAUL LOEB / AFP
Entre os temas que serão tratados entre Trump e Putin, estão as relações bilaterais, segurança, desarmamento e conflitos regionais - Foto: SAUL LOEB / AFP

Respondendo à questão acima, há vídeos ridículos de George W. Bush, então presidente dos EUA, dirigindo um carro russo e dando voltas num quarteirão com Putin dentro. Como dois amigos, numa divertida brincadeira durante o outono da Rússia.

Há abraços calorosos entre Putin e Gerhard Schröder, que foi chanceler alemão.

Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês, apresentava-se como um grande amigo de Putin, sem nenhuma cerimônia.

Por que líderes mundiais passaram duas décadas olhando para ele como se fossem suas professoras olhando para um adolescente de 15 anos? Talvez as reservas de gás e petróleo da Rússia expliquem.

O país tem petróleo e gás para aquecer e movimentar a Europa por mais 100 anos. No caso do Petróleo, a produção é de 11 milhões de barris por dia.

Por anos, Putin representou o sujeito recém chegado que queria um espaço nas rodinhas de conversa mundiais. E foram deixando. Afinal, se beneficiavam disso.

Dependência

Ele foi conquistando todos e provocando uma dependência absurda.

A Áustria tem, hoje, uma dependência de 64% do gás russo. A Grécia, 51%. A Alemanha, 49%. A Itália, 41%.

Estamos falando de um produto essencial para o aquecimento e para a indústria. Não é exagero dizer que, sem a Rússia, a Europa "morreria de frio". A Alemanha, inclusive, construiu um gasoduto de 1.230 km ligando os dois países. Estava em vias de inaugurar uma segunda rede de tubos, com o mesmo tamanho, antes da invasão à Ucrânia.

Este segundo projeto custou US$ 11,8 bilhões e quem toca a obra é a Gazprom, a empresa de Petróleo e Gás russa que serve como sustentação financeira para todo o esquema de corrupção e tráfico de influência que mantém Putin no poder.

Qualquer semelhança com o escândalo do Petrolão brasileiro não é mera coincidência. O fluxo de corrupção, usando empresários que se beneficiam da empresa, como se fazia com a Petrobras no Brasil no governo do PT, aliás, é bem parecido.

Para além disso, é a Gazprom que costuma ser usada nas intervenções à emissoras de TV críticas ao presidente. Sim, Putin, como todo ditador, também não tolera uma imprensa crítica. Coisa que também vemos no Brasil.

E depois?

A guerra na Ucrânia, dizem, pode ter feito com que o mundo abra os olhos sobre o presidente russo. É verdade.

Isso vai durar até quando? E o gás? E o Petróleo? E o frio? Vão fechar os olhos mais uma vez?

Há mais um fato interessante sobre a professora que ganhou um apartamento do ex-aluno presidente. Ela morreu em 2017, aos 96 anos. Em seu testamento, deixou o apartamento que ganhou de volta para Putin.

O gesto foi simbólico, de agradecimento.

Mas pode conter uma lição: a de que, cedo ou tarde, tudo tem volta. O futuro dirá o resultado.

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